20.1.07

Três horas e meia de Viagem

Faltavam ainda uns 15 minutos para o ônibus partir. Resolvi entrar logo devido ao calor que fazia ali fora, e era um ônibus executivo, tinha ar-condicionado, água gelada e tudo mais. Onze era o número da poltrona. Excelente. Era uma poltrona isolada. Eu não teria que dividir o encosto de braço com ninguém.

Uma garota tentava abrir a porta e não conseguia. Essas portas que separam o corredor e a cabine do motorista realmente não são nada práticas. Fui até lá, abri a porta e voltei.

- Obrigada – disse a garota.
- Por nada.
- É que eu não tomei café hoje. Tô fraquinha.
Puta merda. Era uma dessas idiotas que fazem piadas sem graça.
- Tá certo – eu respondi.
- Será que alguém vai sentar nesta poltrona?

Aí já era demais. Eu não ia responder. Coloquei os óculos escuros e me virei para a janela. Detesto quem senta em qualquer poltrona sem saber se tem dono ou não. Isso é uma porra. A gente chega e dá de cara com um filho da puta dormindo em nossa poltrona. Aí a gente tem que acordar o sacana e dizer “licença, desculpa, mas essa poltrona é minha”. E você fica um tempão parado lá, chamando a atenção do ônibus todo e atrapalhando a passagem, esperando o sacana conferir no bilhete se ele se enganou mesmo. E ainda tem uns que olham para as poltronas vazias, como se sugerindo que essa coisa de poltrona numerada é pura bobagem. Quem faz isso é para dizer que quem faz questão de sentar em sua poltrona é uma pessoa chata. Vá se foder.

Antes que a garota idiota falasse mais alguma coisa, pus os fones do mp3 player. Sensacional. Nessas horas é bom ter em seu bolso quinhentas músicas favoritas. Esse lance de mp3 player entrou definitivamente na minha lista das maiores invenções, junto com a rede de balanço e o palito de dente. É distração garantida e descanso de conversas imbecis nos ônibus.

Entraram mais alguns passageiros. Entre esses estavam uma garotinha de uns quatro anos, sua jovem mãe gostosa e sua vó feia para caralho. Comecei a detestar a guria logo de início. Era uma capetinha. Corria pelo corredor e subia nas poltronas. Nem a porra da mãe gostosa nem a merda da vó horrorosa falavam nada. Aí teve uma hora que ela subiu na poltrona à minha frente e começou a me encarar. Detesto quando crianças me encaram. Não gosto dessa coisa de perguntar o nome, fazer caretas, mandar beijinho ou dar tchau porque tem umas crianças que não respondem e quem fica com a cara de trouxa sou eu. Se elas gostam da brincadeira, querem que a gente faça graças o tempo todo. Um saco. E a guria não tirava os olhos de mim. Parecia ver um monstro de cera. Por causa dos meus óculos escuros, ela tentava ver se eu estava dormindo. Eu já estava agoniado. Sai daqui guria senão como a sua mãe gostosa e não deixo ela te dar algodão doce. Minha sorte foi que o motorista ligou o motor e a vovó monstro chamou a menina para sentar.

O ônibus partiu às 14h00 em ponto, deixando para trás aquela terra de tabaréus, bosta de vaca e ruas de paralelepípedo.

O bom de pegar a estrada de ônibus, principalmente se estiver ouvindo seu mp3 player, é que, inevitavelmente, você pensa na vida. Só há mato lá fora. Então resta pensar. Não sei por que, mas costumo pensar nos amigos que nunca mais vi. É difícil, mas tento lembrar da última vez que nos vimos. Imagino o que fazem agora, quem casou, quem teve filhos, quem descasou, quem ficou careca também e o que fazem para se divertir hoje. É assim. A gente pensa, pensa, pensa até dormir.

Só não dormir nessa viagem porque vi que o motorista era daqueles arrojados. Já gostava de fazer umas ultrapassagens escrotas. Eu, que sou um covarde assumido, permaneci atento. Torcia para que as ultrapassagens desse certo, antes que alguma carreta viesse de lá e acabasse com a gente. Não gosto de velocidade. Não viajo mais com um primo por causa disso. 120 km/h, para ele, é na curva. Passo a viagem toda com o cu piscando. Porra, se até o Senna se fodeu, quem esse motorista de ônibus de merda pensava que era?

O ônibus deu uma parada de uns cinco minutos em duas rodoviárias. Numa dessas, entrou uma loira peituda. Só olhei uma vez. Hoje em dia não flerto com mulher nenhuma em ônibus, desde que a última levou tudo que eu tinha e me deixou num motel cheio de baratas em Feira de Santana.
A novidade é que a loira peituda era a verdadeira dona por direito da poltrona que a garota idiota havia sentado. A loira peituda teve o maior trabalho para acordar a merdinha. Ela acordou toda assustada, com aquela cara de maluca dela, olhando para outras poltronas vazias. Mas a loira peituda estava impassível e brava. A idiotinha se levantou a muito custo e procurou sua poltrona. Essas porras ainda se acham incomodadas. Se fodeu, filha da puta. Vá dormir na casa do caralho.

E o ônibus arrastou novamente. O resto da viagem foi tranqüilo. Houve um momento que todos, exceto eu e a loira peituda, estavam dormindo. Era até uma situação estratégica para uma encarada firme, mas a porra lia um livro espírita. Como é que alguém consegue ler um livro espírita com um motorista arrojado cortando todo mundo na estrada?
Nos últimos 40 minutos de viagem todos já estavam acordados, inclusive a guria danada. Ela tentava se equilibrar no corredor junto à poltrona da vó feiosa. Depois corria pelo corredor. Depois batia na porta da cabine, chamando a atenção do motorista arrojado. Eu estava fodido mesmo.

Aliás, eu nem podia reclamar. Até agradecia a Deus nesse momento por não ter tido nenhuma dor de barriga durante a viagem. Passei a noite mijando pela bunda. Só pode ter sido um queijo quente que comi na padaria. Mas depois tomei um remédio que minha vó – a minha vó era bem bonitinha – costumava tomar nesses casos. Ia ser demais para a minha auto-estima ter que cagar naquele cubículo de sanitário do ônibus. Sem falar que iam rolar os cochichos de que o gordo não ia caber no sanitário. Sei como são essas coisas. Mas o meu prêmio é que o remédio funcionou. Não soltei nem um peido sequer. Viva a sabedoria dos antigos.

A guria caiu no chão. Finalmente. Veio o chororô, e pega pelo braço, e bota no colo, e “passou, passou, foi só o susto”. Num instante a guria quietou o facho. A irresponsável da vó medonha culpou o parafuso alto no chão do corredor.

Enfim, chegamos à rodoviária. Permaneci sentado. Esperei todos saírem e então desci. De volta a Salvador, a essa terra de engarrafamentos, camelôs e pagode. De volta à falta de civilização.

3 comentários:

Camanzi. disse...

Fala Bono.
Gostei muito desse seu último conto. É bastante interessante a forma como vc relata uma viagem de ônibus. Só quem já passou por isso sabe como é.
Parabéns. Gosto das suas histórias.
Forte abraço.
Camanzi.

Danilo disse...

Paulinho,
Vc é uma viagem!
Saí do A Tarde por causa dessas frequentes e desgastantes viagens interioranas.. Puta merda... é um saco aturar esse povo sem a mínima etiqueta de convivência social!
Muito 10! Só ficou a expectativa de que você desse uma chegada na loiraça peituda! Hehehe!!!
Sds,
Danilo Weber

Nick. disse...

Faltou colocar a receita do remédio pra "dor de barriga"...