19.12.07

Conto de Natal

Era a época dos malditos panetones. As ruas estavam lotadas. Os pobres gastavam seus últimos centavos. O shopping era a própria visão do inferno. Sempre odiei passar pela porta de um shopping center nesses dias de dezembro, mas eu precisava ver para acreditar. Queixão e eu nos infiltramos na multidão e nos escondemos ao lado de uma loja de calçados. Era possível ver sem sermos vistos. E vimos. Era verdade. Era ele. Era ele que estava ali, de vermelho e barba branca, sentado numa poltrona no meio do shopping, com um guri em seu colo. Era o nosso velho amigo Daniel, dos tempos da Lapinha, vestido de Papai Noel. Começamos a rir quase sem acreditar.

Mas com toda certeza aquilo era possível. Não por um milagre natalino. Mas por se tratar de Daniel. Daniel era gordo, mas tinha uma puta auto-estima. Era um cara muito engraçado. Vivia balançando a pança para fazer graça. Eu ria muito quando ele mostrava os ovos para as putinhas que passavam na ilha de Barra do Pote. Agora, ele estava ali dizendo ho, ho, ho para os guris e pousando para fotografias. Parecia ser mais uma de suas brincadeiras. Ainda mais cercado de três deliciosas putinhas vestidas de Mamães Noéis. Aquilo era um sacana. Mas a verdade é que Daniel só estava tentando arranjar um troco. O bicho estava pegando. Daniel já era casado e coisa e tal.

Brincadeira ou trabalho, Queixão e eu tínhamos que sacanear. Em nome dos velhos tempos. Então tivemos uma idéia. Saímos do shopping e procuramos um guri com cara de escroto. Não foi difícil. Havia centenas trabalhando nos camelôs ali perto. Fizemos a proposta. Cinco reais para ele sentar no colo do Papai Noel e dizer que, como presente de natal, gostaria de pegar nos peitos de Carmem. Dona Carmem era a senhora mãe de Daniel. O guri topou na hora e ainda riu.

Lá fomos nós. Colocamos o guri na fila e esperamos ao lado da loja de calçados. Até que chegou a hora. O guri sentou no colo de Daniel. Conversaram por alguns segundos. Até que Daniel se levantou da poltrona bruscamente e deixou o guri cair no chão. Foi possível ouvir o Papai Noel dizer, QUE PORRA É ESSA, GURI? O guri saiu danado pela multidão. Queixão e eu ríamos como loucos. Daniel esticou a cabeça para todos os lados até nos encontrar e berrou, SÃO VOCÊS NÉ, SACANAS? EU SABIA! Algumas crianças bobocas na fila começaram a chorar, e as mães ficaram atordoadas sem saber o que estava acontecendo. E Daniel ainda completou, SEGURA AÍ, QUE DAQUI A POUCO A GENTE TOMA UMA!

Aconteceu que naquela noite bebemos até tarde. Num copo sujo ali na Carlos Gomes. Bebemos e mexemos com as vagabundas na mesa ao lado. Bebemos e rimos, relembrando os detalhes daquela tarde e os acampamentos em Barra do Pote. Foi muito bom. Era dezembro. Era mais um fim de ano. Eu podia não ter um emprego, mas naquele tempo, eu ainda tinha alguns amigos para fazer brincadeiras escrotas e depois tomar uma.

Na saída, Daniel ainda abriu a sacola e me ofereceu um Panetone que ele ganhou do Shopping. Eu disse para ele mandar para Dona Carmem. Então Daniel mandou Queixão levar para Dona Maria do 02 de Julho. E Queixão mandou eu levar para Dona Maria do IAPI. Nós rimos, nos despedimos, e cada um saiu para o seu lado.

* Um bom Natal e um 2008 do caralho para todos.
Acho que vou tirar umas férias do blog. Sei não, estou pensando.

3.12.07

O Cara e a Menina

Lá fora, o sol de Salvador queimava os miolinhos do povo. E não havia nenhuma gostosa naquele ônibus capaz de me fazer esquecer o trânsito da Sete Portas. Daquelas que chegam com um decote safado ou com uma saia fina o bastante para desenhar belas ancas. Na verdade, não havia ninguém sentado ao meu lado. As pessoas simplesmente entravam e procuravam um lugar mais confortável para acomodar suas bundas, o que não seria ao lado de um gordo, é claro. Eu entendia a situação. Também possuía minhas preferências na busca por assentos em ônibus. A prioridade era ao lado de uma puta gostosa. Se não fosse possível, que fosse ao lado de uma mais ou menos. Se não fosse o caso, que fosse do meio para o fundo para evitar algum velho sacana. O fato é que eu estava sozinho e sem gostosas por perto para ativar a minha imaginação. Já estava desempregado novamente. Não tinha comigo a porra do mp3. Enfim, não havia muito no que pensar. Então passei a observar o cara e a menina que estavam sentados três bancos à minha frente. Não se conheciam. Ela chegou depois.

O cara era uma versão piorada de Seu Jorge com mullets. Era o típico galã do subúrbio soteropolitano. A menina tinha cabelos curtos e vestia um terninho alinhado. Era provavelmente uma estagiária de Direito, dessas que morrem de vergonha de serem vistas em pontos-de-ônibus. Ainda assim, o cara imaginou que tivesse alguma chance. Discreto, meio tímido, ele puxava conversa. Devia fazer comentários sobre o calor da cidade ou sobre aquele engarrafamento. Uma coisa patética e até engraçada. A menina mal olhava para o cara. Apenas gesticulava com a cabeça ora um sim ora um não.

Logo mais adiante, entrou um baleiro no ônibus. Como eu já desconfiava, o cara catou moedas no bolso, comprou um monte de balas e ofereceu à menina. Ela nem tchum. Que tipo de idiota ele era? Com aquelas balas vagabundas, talvez ele conquistasse suas menininhas no Pero Vaz. Mas com aquela menina não daria certo. Claro que não. Aquele tipo de menina só aceita, no mínimo, um Trident, e olhe lá. Aliás, se não for um Santoro da vida, não se conquista ninguém com uma porra de um caramelo.

Por um instante, aquele cara me lembrou o Plínio dos tempos do segundo grau. Plínio virou especialista em pegar aqueles ursinhos idiotas de máquinas eletrônicas. Ele ia todo santo dia no shopping, pegava um ursinho e presenteava a Rafinha, a pequena por quem era apaixonado. Rafinha apenas agradecia, sorria como ela só, dava um beijinho insosso no rosto de Plínio e dizia que ele era um amor. Porra. Não se conquista putinha nenhuma com urso de pelúcia. Nem com flores. Nem com gabarito de prova. Nem com caixas de bombons. Nem com Trident. Muito menos com balas vagabundas. E eu que, nesse tempo, pensava que, por arranhar na viola Stairway to Heaven ou versinhos do Kid Abelha, alguma menininha ia se apaixonar por mim. Balela. Aquele filme romântico é só um filme. Aquela poesia é só poesia. Em outras palavras, romantismo de cu é rola. Para um Santoro da vida traçar uma putinha, basta oferecer um quebra-queixo.

Só sei que, assim como Plínio, o cara não conquistou o coraçãozinho da sua princesinha. A menina saltou logo no Vale do Nazaré e ele ficou lá chupando todas aquelas balas sabores melancia, pinha, tangerina e uva.

O ônibus correu normalmente. Homens e mulheres preferiam seguir em pé a sentar a meu lado. Uma albina ainda pensou em sentar, mas desistiu. Eu fingia não me importar. Peguei um palito de dente na minha pasta e o coloquei na boca. Estiquei o braço no apoio do assento. Eu era o senhor daquele banco. Até que um gordo pediu licença e sentou. Um gordo filho da puta e sem a mínima noção de física.

Química perfeita foi quando sentou uma putinha lá na frente, na mesma direção do cara de mullets, mas na outra fila. Era branquinha do cabelo ralo. Usava um short e um top folgado que sustentava seus peitinhos. O cara ficou ligado na mesma hora. Mas então ele tinha outra atitude. Em momento nenhum ele pensou em oferecer balas. Ele apenas olhava para os peitinhos da menina que eram realmente pontiagudos e apetitosos. Ele praticamente dizia, eu te como toda, sua puta. Ela percebeu que estava sendo assediada. Manteve-se firme olhando para frente, mas eu percebia um sorriso no canto de sua boca. Talvez o cara agora tivesse sorte. Porque aquilo sim tinha o jeito de um começo de uma verdadeira história de amor na cidade de Salvador. Infelizmente, não sei no que deu, porque saltei do ônibus logo depois, em Ondina.

28.11.07

Da Turma Tricolor

Publicado no BaheaMinhaPorra em 18/11/07, uma semana antes da tragédia da Fonte Nova.

Sou Flamengo. Minha religião é a flamenguista. Até gosto da Bahia. Mas o amor por um time não tem sotaque nem fronteiras. Sou Flamengo e fudeu. Não sou Bahia, mas gostaria de ser. Queria torcer pelo Bahia. É isso. Queria ser um torcedor do Bahia. Para poder participar das rodas no boteco do Giló. Para ter alguém para sacanear. Até para ser sacaneado. Porque é aí que está a graça disso tudo. Eu queria ser um torcedor do Bahia porque é a melhor coisa que esse time tem. A torcida do Bahia é do caralho. Numerosa. Apaixonada. Verdadeira como a do Flamengo. Queria torcer pelo Bahia também, é claro, para ir sempre à Fonte Nova, como fui naquele dia, juntamente com Caju, Chatão e Minhas Cores.

O jogo era Bahia contra Barras do Piauí. Terceira divisão. Uma noite de quarta. Tudo para ser deprimente. Mas valeu a pena. Não pelo jogo, mas pela torcida. Pelo clima que envolvia essa torcida.

Começou fora do estádio. Uma espécie de concentração à base de churrasquinho de gato. Gostoso que só a zorra. Chatão foi de cerveja. Minhas Cores, Caju e eu ficamos na batida de gengibre que Minhas Cores preparou no capricho e guardou numa garrafa pet de Coca-Cola. Era uma mesa-redonda prévia. Chatão estava empolgado porque Moré ia jogar. Caju lamentava a ausência de Nonato. Minhas Cores entornava o gengibre. E eu acabava com um churrasquinho de coração de galinha. Um ambiente harmonioso. Tudo de muita classe.

Não posso falar o mesmo do time. O jogo até começou quente. O Bahia abriu o placar. Estávamos na BAMOR. Uma puta torcida que não parava de batucar e fazia aquela porcaria de arquibancada tremer. Vibrei com o gol do Bahia. Vibrei de verdade. Queria que o Bahia ganhasse. Tanto que fiquei puto quando um baixinho arisco e escroto fez o que quis na zaga do Bahia e empatou o jogo. Mas estávamos na Bahia. Estávamos na BAMOR. Tome-lhe batucada.

Não havia apenas tambores ali. Havia bandeiras. Figas e patuás. Caju puxou o hino. A rapaziada acompanhou. Arrepiava. Havia paixão naquela torcida. Uma puta de uma incondicional paixão. O time não jogava bem. Mas a turma estava ali aos berros. “BÓRA, MINHAS CORES!”, gritava Minhas Cores quase chorando. Era como se, mesmo com o time jogando mal, aquelas pessoas estivessem felizes. Sofriam. Mas era um sofrimento que valia a pena. Não eram as contas do aluguel, nem do Hipercad, não era Brasília, nem a morte de ACM, não era um briefing mal feito, nem a falta de emprego, não era um par de chifres, muito menos um amor de verão. Era o Bahia. Era a paixão pelo Bahia. O que realmente importava na vida.

Por falar em paixão, foi naquela arquibancada que o finado Jorge Bigode conheceu dona Cecília. Gabava-se de ter conhecido sua morena durante a gloriosa campanha de 88. Velho Jorge Bigode. Morreu tem uns dois anos. Ela nunca deixou de vir à Fonte Nova. Devia estar por ali a viúva.

Se dona Cecília estava presente, viu através dos seus óculos fundo de garrafa o Bahia desempatar o jogo. Viu também o Barras empatar novamente. O primeiro tempo acabou por aí. O segundo também. O jogo foi uma merda. Enfim, 50 mil apaixonados e um time que não merece a torcida que tem.

Na saída do estádio, palavrões de todos os tipos. Todos justos, por sinal. Para piorar, ainda roubaram a camisa de Minhas Cores. Quando ele se deu conta, não estava mais pendurada em seu ombro. Minhas Cores abordou o primeiro negrinho que passou com uma camisa na mão. “Devolva minha camisa, seu filho da puta!”. Foi uma putaria para acalmar o coroa. Minhas Cores saiu bêbado e revoltado. Dizia que nunca mais voltaria a pôr os pés na Fonte Nova para ver aquele time jogar. Mas ele voltaria. Com certeza.

14.11.07

O Elevador das Seis

Passam das seis da noite. Hora do rush nos elevadores. O prédio possui quatro elevadores. Todos cheios. Até pouco tempo, eu fazia um favor à humanidade. Não entrava no elevador nessas horas. Quando a porta se abria, as pessoas lá dentro, apertadas, davam um sorriso amarelo, como se dissessem, pelo amor de Deus, gordo, não entra. Eu retribuía com outro sorriso, mais amarelo ainda, de gente boa, de gordinho gente boa, como se eu dissesse, tudo bem, pessoal, espero o próximo. Mas ando sem paciência e com uma vontade danada de mandar alguém tomar no cu.

Então chega mais um elevador. A porta se abre. Está lotado. Mas antes que pinte qualquer sorriso, eu entro. As pessoas se apertam. Ouço um muxoxo. Foda-se. Estou doido para mandar alguém tomar no cu. Mas ao invés disso, dou um “boa noite”. Um seguro “boa noite”. Seguro, porque o elevador está cheio de advogados. Não se pode dar mole com essa raça.

Advogados. O prédio está cheio deles. Com seus ternos, seus narizes, seus terninhos, seus topetes, seus códigos, seus pedestais e suas caras redondas combinando com suas gravatas. Sou o único no elevador com uma camisa pólo vermelha e surrada e um jeans surrado com um buraquinho embaixo das pernas. Mas mantenho a cabeça erguida. Faço questão de olhar nos olhos. Você aí, engomadinho, por exemplo, com seu olhar superior. Você é um grande merda. Em primeiro lugar, odeio sua gravata. Eu posso vir trabalhar todo surrado. Eu poderia vir trabalhar de bermuda, se eu quisesse, como já fiz uma vez. Mas você não pode. Eu sou publicitário. Sou um gênio criativo. Meu nome é Paulo Bono. Por acaso, você tem um nome tão legal quanto esse, seu Rodolfo Amorim Barros de Sá? E ponha uma coisa nessa cabeça de merda. Doutor é a puta que te pariu. Você não é doutor. E volto a dizer, essa sua gravata é uma bosta. Pensa que mulher gosta de gravata? Por sinal, a morena no outro canto é uma coisa. Rabuda. Chega a ser aleijada. Isso fode como uma louca. Se estivéssemos sozinhos nesse elevador, ela ia ver o que é uma vara criminal.

Já tive um caso com uma advogada. Regina. Usava terninho. Tinha sempre uma pasta nova e orgulhava-se de seu Pálio do ano. Vivia dizendo que eu precisava me vestir melhor. Um dia ela me deu uma gravata de presente. Nunca usei. Regina tinha aquele nariz empinado e se fazia de elegante e sexy. Mas era uma tábua na cama. Tinha a bunda fria. Para trocar de posição era um Deus nos acuda. Muitas vezes, quando ela ia tomar banho, eu recorria à velha bronha para me satisfazer. Não sei bem por que deixamos de sair. Lembro que, no início, ela queria porque queria saber quanto eu ganhava, se propaganda dava dinheiro. Isso me incomodou. Mas não foi por isso. Lembrei. Foi porque eu era muito previsível, porque eu queria fazer sempre os mesmos programas e almoçar sempre nos mesmos lugares. Eu só queria ir ao cinema, e ela queria ir ao restaurante Yemanjá, caro que só a porra. A única coisa que Regina deixou de bom foi uma dica. Um dia, eu lhe perguntei se havia problema se eu mandasse um advogado tomar no cu. Ela disse que sim, que poderiam me processar por isso ou por aquilo, alegar um monte de coisas. Não se pode dar mole com essa raça. Só por isso que não mando ninguém tomar no cu nesse elevador. Mas estou com uma vontade danada.

Quando o elevador chega ao térreo, sou o primeiro a sair. Assobio uma canção do Radiohead. Os advogados estão logo atrás. Deixo o prédio. A aleijada passa na minha frente, apressada. Desliga o alarme do seu carro e entra no veículo. Sigo em frente para pegar meu busu. Sou o único a cumprimentar o porteiro. Pergunto pelo Vitória dele. Advogados não falam com porteiros. Mas eu sou legal. Sou publicitário. Falo com todo mundo. Se bem que um elevador cheio de publicitários seria também qualquer coisa cancerígena.

4.11.07

Berg

Cheguei em casa por volta das vinte horas. Estava cansado do dia. As correspondências lotavam a escada. Havia muitas contas e uma carta. Recebo contas todo mês, mas fazia anos, talvez uma década, que não recebia uma carta. E era uma boa surpresa. A carta era de Berg. Berg é um amigo que conheci em Feira de Santana. Mas é honesto.

Berg é um armário negro. Alto, mal encarado e feio. Seu nariz gigante parece de borracha. Seu rosto todo parece de borracha. Berg me lembrava muito umas das criaturas dos Trapalhões na Terra dos Monstros. Era temido nos babas e nos bares. Mas encantava as crianças. Ele as carregava nos braços, fazia aviãozinho e, naturalmente, fazia caretas. As crianças adoravam Berg. Todo mundo gostava de Berg. Até porque ele era o melhor, o mais completo e mais barato profissional da agência.

Berg foi contratado para ser segurança. Mas como ele estava em promoção, era também jardineiro, lixeiro, eletricista, pintor, mensageiro, telefonista, boy, babá e pegador de quentinhas. Por sinal, Berg vivia querendo me armar com a telefonista das quentinhas.

Berg era realmente um bom amigo. Volta e meia, me ajudava a chegar em casa depois de umas cachaças. Era também nosso zagueiro. Ninguém puxava briga com Berg em nosso time. Quando a recepcionista saía para o almoço, era ele que atendia os telefonemas. Então eu ligava para a recepção, e Berg atendia com toda classe “Agência de Propaganda, boa tarde!” . Eu berrava “Vá tomar no cu, Berg!” e batia o telefone. Berg só fazia ri. Mas ele riu muito mesmo quando levou uma cesta básica num sorteio em nossa festa de São João. Sem ele saber, colocamos o seu nome em todos os papeizinhos.

Berg tinha muita sorte na vida. Tinha uma família, um emprego e muitos amigos. Ele costumava dizer que sua maior sorte era seus filhos, que eram bons filhos, estudiosos e não gostavam de beber. “A minha mais velha vai ser enfermeira!” – ele dizia. Berg tinha até uma bicicleta.

A merda é que Feira de Santana é foda. A bicicleta de Berg foi roubada. Então fizemos uma vaquinha para comprar outra bicicleta para ele. Berg disse que conseguiria uma por um bom preço no Feiraguai. Feiraguai é uma espécie de centro comercial de produtos roubados. Uma instituição sagrada de Feira de Santana. Eu não conhecia o lugar e acompanhei Berg. Foi quando descobri seu talento para pechinchar. Assim que Berg encontrou um modelo do seu agrado, ele segurou a bicicleta e perguntou ao vendedor “Quanto é essa bicicleta, rapaz?”. “80 conto!”, disse o vendedor. Berg perguntou novamente, elevando um pouco mais a voz “Quanto é essa bicicleta, rapaz?”. “Tá bom, negão, pra você, eu faço 70!”. “Quanto É Essa Bicicleta, Rapaz?”. “Posso fazer por 65!”. “QUANTO É Essa Bicicleta, Rapaz?”. “Cinquentinha, e eu já tô no prejuízo!”. “QUANTO É ESSA BICICLETA, RAPAZ?”. Só sei que Berg levou sua bicicleta nova por 35 reais, o vendedor saiu vivo e não se falou mais nisso. O negão era raçudo.

Berg tinha tanta determinação que enfrentava o curso de alfabetização com quarenta e tantos anos nas costas. Por isso foi uma puta surpresa receber uma carta de Berg. O velho Berg agora sabia ler e escrever.

Foi difícil ler aqueles garranchos esforçados e tão feios quanto ele. Mas no pouco que entendi, Berg dizia que sua filha mais velha terminou o segundo grau. Dizia também que encontrou a telefonista da quentinha e que ela estava com saudades de mim. Berg sempre foi um mentiroso. Dizia que também levou um toco da agência, e que disseram na frente do juiz que ele nunca trabalhou lá. Berg deve ter ficado puto. Por fim, Berg dizia ter saudades das nossas rodas de dominó e mandava eu aparecer qualquer dia.

Terminei de ler a carta de Berg pensando que, infelizmente, não sentia vontade de realizar a última frase daquele amigo. Então larguei a carta sobre a mesa. Deixei para ver as contas mais tarde e fui tomar um banho. Eu realmente estava cansado daquilo tudo.

27.10.07

Licitação é Foda

Já passavam das três da manhã. Eu ainda escrevia os anúncios. Tony ainda coloria os storyboards. Segurávamos a barra com uma garrafa de catuaba que Tony trabalhara no rótulo há uns tempos atrás. Mas ainda havia muita coisa para finalizar. Licitação é sempre a mesma história. Pelo menos em agências de pequeno porte, onde há apenas uma dupla de criação e a falta de estrutura nos obriga a fazer tudo de última hora. A entrega dos envelopes estava marcada para as nove horas. Havia um certo pânico nas fisionomias.

Mas eu não sentia pânico. Sentia sono e revolta. Queria mandar tudo aquilo para o inferno. Sempre odiei licitações. A raiva aumentava quando eu lembrava das palavras do diretor de criação “Bono, tem uma licitação pra gente participar. Parece que é coisa séria. Sem carta marcada”. Em que mundo ele vive? Quantos anos ele tem? Estamos no Brasil. Por que participar de uma concorrência se você não tem uma trinca de ases na manga ou não come o cu de um Royal Straight Flush. Por que participar se não vai sequer competir? Não é como chegar em último na maratona. Não existem aplausos. Não existe medalha de honra. Não existe honra. Existe, no máximo, uma pizza na madrugada. Porque eu sabia que não ia receber nenhum um extra por me foder dia e noite nessa farsa. E eu não queria passar a noite com meus títulos. São bastante medíocres para serem amados. Mas o que vale minha opinião? Eu sou apenas o redator. Pior, sou um redator gordo. Pior ainda, em tempos de licitação, eu engordo muito mais. Em resumo, eu estava fudido. Para piorar, o escroto do mídia ainda sugeriu a criação de um busdoor. Isso às cinco e tanta da manhã. A vontade era cair de porrada em cima dele. Mas eu estava sem forças. Não lembrava a última vez que dormira de verdade.

Respirei fundo e levantei da cadeira. Fui até o banheiro dar uma mijada e lavar o rosto. Na volta, ouvi umas risadas e uns gemidos na sala de vídeo. Fui ver o que era. Chinelo, nosso boy e Rodrigão da produção assistiam a um filme de sacanagem. Na tela, uma loira dava o rabo. Fiquei um tempo por ali. A catuaba começava a fazer efeito. Eu precisava fuder. Mas antes precisava criar um maldito busdoor.

De pau duro, terminei os últimos textos quando o relógio marcava sete e alguma coisa. A garrafa de catuaba estava vazia. Acabaram as pizzas. O filho da puta do mídia roncava sobre o teclado. Faltava apenas Tony finalizar mais alguns arquivos. Logo, Chinelo e Rodrigão sairiam para fazer as impressões. Não precisavam mais de mim. Deixei a agência. Peguei o primeiro ônibus que passou, e a licitação era coisa do passado.

Em 15 minutos eu estava na porta de Laurinha. Fui recebido pela diarista. Mas logo Laurinha apareceu. “Que surpresa. Pensei que a gente só ia se ver à noite”. Laurinha vestia um short vagabundo e tinha os cabelos assanhados. Pediu para que eu sentasse enquanto ela se arrumava. Conheci Laurinha no Pelourinho. Saímos juntos durantes uns tempos. Era professora. Ensinava Comunicação Comparada. Vivia analisando meus outdoors. “É tudo uma merda” – eu dizia. Laurinha voltou com o cabelo preso, um cigarro na mão e o mesmo short vagabundo. Sentou no sofá à minha frente, acendeu o cigarro, deu uma tragada e cruzou as pernas, deixando aparecer suas celulites. Bem feminina. Era ali que eu gostava de dar uns tapas. Ficou me olhando durante alguns segundos e depois sorriu. Laurinha tinha um belo sorriso.

- Eu comprei aquele vinho que você gosta – disse Laurinha.
- Que horas essa menina vai embora? – eu perguntei.
- Daqui a pouquinho.
- Manda logo embora senão ela também vai cair no samba.
- Que foi, meu lindo?
- Vou te foder toda hoje, Laurinha.
- Ô, querido. Hoje eu não posso – ela disse – Estou naqueles dias.
- Se vire.

Foi nesse dia que comi o cu de Laurinha. Foi nesse dia que a cama quebrou e, como se nada tivesse acontecido, continuamos fudendo. Foi nesse dia que fudemos como se o mundo fosse acabar, como se faltassem alguns minutos para a entrega de umas porras de uns envelopes de licitação. Só rimos de tudo muito tempo depois. Ali, arriados com a cama. Minutos depois, Laurinha foi ao banheiro. Fiquei no mesmo lugar, olhando para o teto. Eu estava finalmente relaxado. E quando, sem querer, comecei a lembrar da licitação, Laurinha voltou com uma garrafa de vinho e dois copos. Nua. Morena. Com seus pentelhos negros e seu belo sorriso. O meu Royal Straight Flush.

15.10.07

Sem Vontade

Foi uma das festas improvisadas aos sábados na Lapinha. A história de sempre. Não comi ninguém, e logo um imbecil trocou o Chico Science por algum pagode do momento. A saída foi beber. Queixão foi de cerveja. Eu de 51. Bebemos até não mais escutarmos uma nota de cavaquinho. Foi uma noite e tanto. Por isso estávamos ali, naquele início de tarde de domingo, estendidos na porta da igreja, com um copão de caldo-de-cana na mão.

- Por que não deu uns pegas na Paloma – perguntei a Queixão?
- Tô enjoado daquela dentuça.

O caldo-de-cana estava gelado. Descia bem.

- E você – perguntou Queixão – pegou alguém?
- Porra nenhuma.
- Sabe qual seu problema? Esse cabelo. Corta essa porra.
- Vai tomar no cu, Queixão.
- Por que tá deixando essa porra crescer?
- Porque eu quero.
- Os caras já tão te chamando de Paulo Medonho.
- Foda-se.

Detonei o caldo-de-cana e comecei a brincar com o gelo. Queixão soltou um peido e começou a rir. Só consegui virar o rosto. O fedor não passava. O domingo não passava. Só quem passou foi uma das putinhas que estava na festa. Umas das que, em nenhum momento, cogitou a possibilidade de ir lá nos fundos comigo ver as estrelas. Essas putinhas me achavam um cara super legal. Buceta, que é bom, nada. Ela acenou e sorriu. Acenamos de volta.

Queixão levantou-se e foi dar uma de suas consultorias aos guris no fliperama. Continuei estendido na porta da igreja. Sem pressa. Meio que acostumado com aquilo tudo. Acostumado com a derrota. Contra o pagode e as mulheres. Já passavam das duas da tarde. Mas a porra do domingo não passava. Aquela dor de cabeça não passava. Até o fedor do peido de Queixão ainda pairava. Os anos 90 passavam devagar. E eu não tinha vontade alguma. Talvez já adivinhasse que aquele seria o pior ano da minha vida.

Quem se aproximou foi Leitão. Não sei porque tinha esse apelido. Era bem magro. Gente boa. Vinha com um copo de caldo-de-cana na mão. Tinha os olhos inchados. Deitou na porta da igreja e bebeu seu caldo-de-cana rapidamente.

- Cadê Queixão?
- Tá no fliperama.
- A festa foi de fuder, não foi?
- Foi.
- Peguei Juliana.
- Legal.
- Conta uma piada aí, Paulinho.
- Vá se foder, Leitão.
- Só uma, na moral.
- Vá se foder, Leitão.

2.10.07

Reis

Esse conto eu tive a honra de publicar num blog que é a cara da Bahia: Caralhaquatro
Então vão todos pra casa do caralho.
grande abraço

22.9.07

A Prateleira

Admiro o profissionalismo. Parece sinal de nascença para alguns. Como Gaguinho. Ele cumpre os dizeres de seu cartão de visitas – Antônio dos Santos. “O Gaguinho”. Marceneiro. Preço, Prazo e Qualidade – e chega por volta das dez. Conforme o combinado. Veio terminar o serviço. Instalar a prateleira que lhe encomendei. Uma prateleira nova que há muito tempo meus livros reclamam.

- Tu.tu.do beleza, gordinho?
- Tudo na manha, Gago. Bote pra fuder.

Deixo Gaguinho com seus pregos e vou até a cozinha. Preparo, sem jeito, um chá de hortelã com capuccino. Ando viciado nessa coisa. Volto e ofereço uma xícara a Gaguinho.

- Que.que.é isso, ordinho?
- Beba essa porra, Gago.

Gaguinho experimenta a bebida e aprova. Detona em um só gole.

Ao som de uma fudareira, resolvo checar os e-mails. Há um pedido de freelance. Mas vem de um filho da puta mau pagador. Deleto. O resto é o de sempre. Putaria. Os caras não param de enviar putaria. A maior parte é de fotos amadoras. Nada extraordinário. Apenas uma morena peituda de cabelos cacheados me lembra uma nativa da ilha de Barra do Pote. Uma menina danada. Aproveito também para ler alguns blogs. Muita coisa boa. Alguns me fazem rir. Outros são como tapas na cara. Outros me despertam inveja. Minha leitura chega ao fim quando Gaguinho avisa que terminou o trabalho.

- Vê se.se gostou, ordinho.

Ao que parece, a prateleira fica do jeito que eu a imaginei.

- Muito bem, Gago. Tá ótima.
- Me arranja uma va.va.vas.soura que eu lim.lim.po isso aqui.

Trago a vassoura e a pá. Enquanto Gaguinho varre algum pó pelo quarto, penso em puxar conversa. Talvez por puro preconceito deduzo um assunto em comum com o marceneiro Gaguinho.

- E aí, Gago. Vai ver seu Bahia hoje?
- Po.porra nenhuma. Sou.sou Bahia não.
- Vitória?
- Nenhum nem.nem.nem outro. Eu sou.sou.só gago.
- É, acho que você é feliz assim.
- Vo.vo.vo.cê é Fla.Flamengo, né, ordinho?
- É, além de gordo, sim.
- Eu até go.gos.ava de fut.e.bol. Mas hoje não.não gosto mais não. Eu era Vi.vi.tória. Mas hoje não sou orra nenhuma.
- Qual foi o caso?
- Go.gordinho, eu ta.tava numa obra lá no.no ampo do Vi.vi.vitória.
- Barradão.
- Isso, arradão. Fo.foi na. naquela época que Be.be.beto jogava. Lem.lembra?
- Sei.
- Po.po.pois então. Fo.fo.foi nessa época. Eu ta.ta.tava aju.ando na obra. E te.teve um dia que tava esse Be.be.beto con.conversando com um dos homens. E eu ava de junto. Eu ava co.co.colando cimento assim na ar.ar.arquiban.bancada. Eu ava assim como nós aqui e eles ne.nessa por.porta. Ordinho, sa.sa.sa.be o que eu ouvi aquele sa.sacana falar? Ele fa.falou pro homem que da.da.daquele je.jeito não dava por.porque se.se.se.setenta mil não da.da.va pra ele sobreviver com a fa.fa.familia dele.
- Porra, Gago.
- Sa.sabe o que eu fiz, go.gordinho? Ju.juro por.por Deus. Eu pe.pe.peguei minha coisas, dali mesmo, e fu.fui embora. Nem olhei pra trás.
- Caralho, Gago. Você botou pra fuder.
- Eu sou.sou. algum sa.sa.sacana, ordinho? Pra.pra ou.ouvir aquele fi.filho da puta fa.lar que não dá pra vi.ver com se.se.setenta mil?
- Esses caras são uns escrotos.
- De.de.depois desse dia, nun.nunca mais eu quis sa.saber de fu.futebol.

Gaguinho me entrega vassoura e a pá ainda com o ódio vivo dentro dele. Esse é um homem de princípios, eu penso. Entrego a Gaguinho o restante do pagamento e o levo até a porta.

- Gor.gor.dinho, qual.quer coisa, ta.ta.tamos aí.
- Pode deixar, Gago.

Volto ao quarto ainda pensando na revolta de Gaguinho. Bebeto é um bom filho da puta mesmo. Ele já havia traído o movimento punk quando trocou o Flamengo pelo Vasco. Esses caras ainda utilizam o tal profissionalismo como desculpa. Esqueço um pouco a raiva observando a minha mais nova prateleira. De perto, percebo que acabamento não é o forte de Gaguinho. Tudo bem. O sacana do Bebeto também não ajudava na marcação e ainda queria receber mais que setenta mil. Além disso, é uma prateleira correta. Bem resolvida. Feita pelo profissional Antônio dos Santos, o Gaguinho, onde vão caber perfeitamente meus livros. Por sinal, vejo que realmente tenho poucos livros. Passei a vida toda vendo TV. Devia ter seguido o conselho de meu pai. Ler mais quando garoto. Talvez hoje eu pudesse escrever tão bem quanto àqueles blogueiros. Preciso adquirir alguns títulos. Conhecer novos autores. Mas os livros estão caros. Penso em arrumar a prateleira. Mas bate a preguiça e resolvo deitar. Ligo a TV. Está passando uma maratona de Seinfeld. Bacana. Assisto até dormir e sonhar com uma morena peituda de cabelos cacheados.

14.9.07

Expressões Idiomáticas

Era um desses bares freqüentados por artistas e publicitários. Muita gente metida à besta. Nessa noite, eu estava mais besta que o de costume. Era aniversário de meu amigo Araba. Talvez o designer mais pernóstico da redondeza. Eu só conhecia o aniversariante. Mas, surpreendentemente, eu estava à vontade. Participava de todas as conversas da mesa. Soltava algumas piadas. Opinava. Como sempre, discordava. Mas fazia sucesso. Com careca, barriga e tudo. Sendo apenas eu mesmo. Por alguns instantes, voltei a ser o velho Paulinho dos tempos da Lapinha. Tudo tão diferente que até a jornalista bonitinha e magricela escolheu sentar ao meu lado. Conversamos a noite inteira ao som dos Smiths.

- Todo jornalista se acha inteligente – eu disse.
- Eu sei que meu Q.I. é 140 – ela disse.
- Publicitário não é gente.
- Ô raça!
- E diz o relações públicas que é um ser evoluído.
- Tenho uma amiga RP que é assim – ela disse – E produtor cultural?
- Já é putaria – eu disse.
- Você nunca atuou como RP?
- Eu não evoluí – eu disse – não uso camisa por dentro, e tem que ser bonito.
- Você não é feio – ela disse – você é sexy ugly!
- O quê?
- Sexy ugly!
- Ah, tá.

Tomei um gole do meu gin.

- Vamos pedir uma batatinha pra gente? – ela perguntou.
- O quê?
- Batatinha, topa?
- Claro.

Não lembro se a batatinha estava salgada. Não lembro de mais quase nada. Acho até que nem me despedi de Araba. Só sei que fui parar no apartamento daquela mulher. Não recordo a posição que fizemos sexo. Se ela gozou, eu não sei. Sei que eu não gozei. A porra simplesmente saiu. E enquanto aquela jornalista magricela tragava o seu cigarro, discursando sobre Lars Von Trier e a continuação de Dogville, eu me questionava o real significado de Sexy Ugly. Que diabos seria Sexy Ugly? Parecia mais um elogio de consolação. Uma tirada de tempo talvez. Passei o resto da noite na merda. Eu estava tão bem.

8.9.07

A Negociação

A primeira pensão onde passei a noite em Feira de Santana parecia aconchegante. Tive certeza quando encontrei pela manhã um rato sambando à vontade sobre farelos de cream cracker pelo chão. Depois encontrei uma pensão um pouco mais familiar. Tinha um jardim, crianças correndo pela sala, porta-retratos coloridos e brigas como em qualquer família. Certa noite, o marido, também proprietário da pensão, espancou a socos e pontapés a esposa, na frente da filhinha de sete anos e de todos que assistiam ao Jornal Nacional. Ele pegara a cachorra servindo o próprio rabo a um dos jovens hóspedes no quarto dos fundos. Deu polícia e tudo. Dormi aquela noite no chão da agência. Só no dia seguinte fui parar na pensão de Dona Natália.

Era uma pensão só para homens. Uma casa grande e escura com paredes desbotadas, móveis embutidos que guardavam louças esquecidas e um tapete manchado na sala principal. Era dessas casas de Feira de Santana que um dia despertara inveja e hoje estampa uma decadência vulgar. O lugar parecia com a própria Dona Natália. Uma coroa deprimente, de carnes flácidas, mas que possuía no rosto traços fortes e no corpo uma elegância ainda que desgastada. Devia ter sua classe em outros tempos. Dona Natália morava com a filha e a empregada. Não admitia hóspedes do sexo feminino porque, segundo ela, as mulheres sempre davam mais trabalho e traziam problemas para sua pensão. Negociamos. Sem direito a café da manhã e janta, chegamos num valor que eu poderia pagar, e larguei minha mochila num dos quartos. Durante a negociação, senti de perto um grave problema em Dona Natália. A coroa tinha mau hálito. Aliás, tinha um péssimo hálito. Ou pior, sua boca era mais um dos bueiros mal tratados da cidade.

Os primeiros dias na pensão de Dona Natália foram tranqüilos. Até porque eu passava a maior parte do tempo na agência ou naquelas ruas óbvias. Meu café da manhã era o pastel do tio da unha preta. Meu almoço era uma quentinha que ganhei como benefício na agência, e a janta era um bom pão com manteiga da padaria. Eu só chegava na pensão à noite, quando Dona Natália já estava sentada no escuro da varanda iluminada apenas pela chama de seu cigarro. “Boa noite, Seu Paulo”. Eu podia sentir o bafo. Depois de um banho frio, eu ia para a cama. Tentava ler alguma coisa, mas o cansaço sempre vencia. O colchão duro me ajudava a dormir, para recomeçar tudo.

A única noite que não consegui pregar o olho foi quando Dona Natália colocou outro hóspede no meu quarto. Era um estudante de psicologia que ia passar apenas uma noite. Achei tudo muito estranho. Seu cabelo de maluco e seu nariz de Zeca Baleiro não me deixavam parar de pensar que se tratava de um psicopata e que, a qualquer hora da noite, poderia arrancar à força o meu cérebro. Passei a noite em claro por causa daquele doido varrido de merda.

Outra grande merda era a filha de Dona Natália. Devia ter seus vinte e poucos anos. Mas parecia uma velha rabugenta ou uma beata infeliz que nunca viu uma rola. Suas sobrancelhas grossas realçavam ódio e prazer quando dava broncas na empregada. Era feia. Devia sentir raiva ou inveja da mãe, que mesmo apodrecida pelo tempo e pelo hálito, tinha mais energia e menos pudor na vida. Eu não procurava muita conversa. Sobretudo depois da noite que, antes de dormir, a desgraçada colocou uma porra de uma senha na TV que impedia que alguém ligasse o aparelho. Ela sabia que o Flamengo ia jogar naquela noite.

Mas as coisas só pioraram mesmo quando ganhei intimidade com a cidade e com seus habitantes. Tornei-me um deles e passei a cultivar uma espécie de Feirense Way of Life. A mesa de poker às terças, as caipiroskas às quintas e alguns gastos desnecessários por puro exibicionismo esgotavam os 350 conto que eu recebia como redator de uma agência de propaganda renomada da cidade. A primeira conta a atrasar foi justamente a pensão de Dona Natália. Da varanda escura, a coroa me lembrava sobre a dívida. “O salário atrasou, Dona Natália, mas eu vou pagar” – eu dizia. Eu achava Dona Natália até uma mulher paciente, mas ela era, na verdade, uma cidadã feirense.

Já passava da meia-noite. Eu tentava dormir quando escutei as batidas na porta. Era Dona Natália e sua camisola preta de seda. Viera acertar as contas. Forçava uma pose quase sensual. Entrou no quarto sem pedir licença, mas pediu para que eu fechasse a porta.

A coroa realmente devia ter muito estilo em seus bons tempos. Sentou na cama de pernas abertas e foi direta ao assunto. Disse que sua casa não era abrigo, e que eu precisava pagá-la de qualquer forma. Disse que se eu a deixa-se me chupar, eu quitaria uma semana da minha dívida. Eu gaguejei, não sabia o que dizer nem o que fazer. Mas podia sentir. Senti de longe aquela boca fétida, e pensei que jamais colocaria meu pau naquele bueiro. Então lhe fiz uma contraproposta. Eu disse que não gostava de boquetes. Mas eu poderia comê-la. Mas que aquilo sanaria o mês inteiro da minha dívida. A coroa apenas sorriu. Abriu bem as pernas e mostrou aquela boceta cabeluda e sem graça. “Então faça direito” – ela disse. Acabei comendo a Dona Natália. Foi razoável, mas eu sei que ela perdoou a minha dívida, e ainda ganhei o direito de comer um pão com ovo pela manhã.

Os dias se passaram. Eu ainda tive que lascar a coroa mais umas duas vezes. Até que pintou a oportunidade de morar com uma feirense que tinha uma boca cheirosa e bem gostosa. Foi nesse dia que deixei a pensão de Dona Natália.

De certa forma é fácil viver em Feira de Santana. O custo de vida é relativamente barato. Aliás, tudo em Feira de Santana é barato. Quase gratuito. Porque as pessoas dessa cidade são felizes com restos e migalhas. Como a maioria dos personagens dessa história: o rato, o marido traído, sua esposa, o jovem amante, Dona Natália, sua filha nojenta e eu.

31.8.07

Remixes e Empadas

Eu estava com fome. Além disso, precisava e queria esquecer um pouco aqueles malditos textos. Resolvi sair e procurar alguma coisa. Entrei na primeira lanchonete. Era uma rede especializada em empadas. Decoração aconchegante, belas mesas e garçonetes que usavam aventais e bonés verdes e incrementados. Era empada com valor agregado. Resumindo, devia ser caro pra porra. Pensei em voltar. Mas por preguiça de procurar outra coisa, fiquei.

Escolhi uma das últimas mesas no canto, bem no canto. Uma das garotas de avental e boné apareceu com o cardápio. Era um belo cardápio. Inúmeros sabores de empadas, preços e fotos. Como não tenho paciência para escolher nada em cardápios bacanas, pedi uma dica à garota. Ela disse que a de camarão tinha uma ótima saída. Topei. Pedi um tal de empadão de camarão e uma Coca-cola. “Só gelo, pelo o amor de Deus!”.

Havia umas mulheres bonitas por ali. Algumas fumavam, outras fofocavam, outras esbanjavam as grifes de suas bolsas. Deviam ser as proprietárias dos carrões lá fora. Não era o meu ambiente. Eu só queria comer a minha parada de camarão o mais rápido possível e sair dali. A garota ajudou e trouxe logo o meu pedido.

Era uma bela empada, de tamanho razoável. Parecia saborosa. Veio acompanhada de garfo e faca. Era a primeira vez que eu comeria uma empada com garfo e faca. Eu esperava que nem um dos caras da Lapinha me visse. Eu ainda tinha uma certa reputação. Parti a empada e levei um pedaço até a boca. Estava quente. E tinha um gosto maldito. Azeitona. Tinha uma porra de uma nojenta de uma azeitona no meu empadão de camarão. Senti ódio e tristeza ao mesmo tempo. São duas as coisas que mais odeio na vida: vascaíno e azeitona. Quando a garota me viu dar um soco na mesa e beber minha Coca-cola ferozmente, se aproximou.

- Algum problema, senhor? – ela perguntou.
- Azeitona – eu disse.
- Mas é um pedaço bem pequeno, senhor – ela disse – o senhor não vai nem reparar.
- Um pedaço de azeitona desses – eu disse – é capaz de empestar uma empada do tamanho do Maracanã, minha filha.

A garota foi atenciosa. Pediu desculpas. Disse que não eu precisava pagar pela empada. Eu disse que não havia problema algum. Perguntei apenas se existia ali alguma empada que não fosse condenada por um pedaço de azeitona. A única salvação era a de queijo. “Ótimo, traz uma de queijo”. Aproveitei e pedi para embalar o empadão de camarão. Eu o levaria para a recepcionista ou para as meninas do administrativo. Recepcionistas e meninas do administrativo sempre comem de tudo. Logo a garota trouxe minha nova empada, de queijo. Não tão grande quanto à de camarão.

Enquanto eu comia minha empada de queijo e bebia minha Coca-cola, notei a garçonete. Ela me encarava. Eu apenas mastigava e fazia que não era comigo. Mas quando eu olhava, lá estava ela, olhando para mim. Disfarçava às vezes. Olhava para seu bloquinho de pedidos, mas depois voltava a me encarar. Talvez apenas me achasse o homem mais feio que já havia entrado naquela lanchonete de empadas. Ou então queria jogo. E ela parecia habilidosa. Tinha seu charme escondido debaixo daquele avental e, sob aquele boné, um cabelo doido para ser puxado. Talvez não rolasse nada naquela noite. Mas no domingo eu poderia levá-la para tomar um sorvete de duas bolas na Ribeira. Ela ia gostar. Pedi a conta. E antes que eu falasse, ela mesma partiu pro ataque.

- Desculpa, senhor – ela disse – é que eu achei o senhor parecido com aquele cantor.
- Ed Motta – completei.
- Isso! – ela disse – o filho do Tim Maia, né?
- Sobrinho.
- Sobrinho? Ah, eu pensei que era filho.
- É, sobrinho.
- Eu adoro ele – ela disse.
- Na verdade eu faço cover dele – eu disse.
- Jura?
- Juro.
- Ai, que legal!
- É, na verdade eu queria fazer cover do Renato Russo, mas a galera não gostava.
- Hum, Renato Russo também é bom – mas eu adoro o Ed Motta.
- É, ele manja – eu disse, mostrando-lhe o cartão de débito automático.
- O senhor tem que ir no caixa – ela disse – pra digitar a senha.

Eu me levantei e fui até o caixa. Minha mais nova admiradora me seguiu. Entreguei o cartão à moreninha sem peito do caixa.

- Olha só – disse a garçonete – ele faz cover do Renato Russo e do Ed Motta!
- Sério? – a moreninha sem peito perguntou.
- Não exagere, filha – eu disse – Só faço cover do Ed.
- Nossa – disse a moreninha sem peito – canta um pouquinho pra gente.
- É – disse a garçonete – aquela da novela.
- Desculpe, meninas – mas é que eu cantei ontem. E o fonoaudiólogo disse que eu tenho que me poupar durante vinte e quatro horas.
- Que pena – disse a garçonete – é o médico da voz – disse ela, explicando à moreninha sem peito, que acabava de me entregar o comprovante do cartão.
- Olha – eu disse – eu canto aqui mesmo no Rio Vermelho. Naquele bar de portões amarelos de frente à praia, porra, eu sempre esqueço o nome!
- Hum, eu sei qual é – a moreninha sem peito disse.
- Pois é – eu disse – apareçam, mas vão numa quinta, porque tem outro cara legal também, que faz cover do Lobão. Vocês vão gostar. A partir das dez.
- Nós vamos, né? – perguntou a moreninha sem peito à garçonete.
- É – disse a garçonete – eu adoro o Ed Motta.
- Vão mesmo – eu disse – agora deixem eu ir. Muito obrigado. Apareçam.
- Obrigado, o senhor – disseram as duas.
- Volte sempre – disse a garçonete – a gente vai mesmo.

Então peguei o empadão da recepcionista ou das meninas do administrativo e deixei a lanchonete especializada em empadas. Pensei ter alguma chance com a garçonete. Pelo menos até ela descobrir que eu não canto porra nenhuma.

Voltei a pensar nos textos. A noite seria longa na agência. Por um momento lembrei do pastel do tio da unha preta, lá de Feira de Santana. Talvez a única coisa autêntica daquela cidade. Era muito bom. Mesmo quando não premiado com carne. Ao menos não tinha azeitona, e custava apenas cinqüenta centavos. Incomparavelmente crocante. Fazia “Crock!” quando a gente mordia. E ajudava muito nos brainstorms da vida.

19.8.07

Depois da faxina

Da janela do quarto eu vejo a empregada do vizinho. Ela vem, pega a vassoura, vai, vem de novo, pega o rodo, o pano, o balde. Vai e vem o dia todo nos seus afazeres. Com a sua saia curta e fina que revela suas coxas beijáveis e a calcinha enfiada no cu. Melhor quando vai para o tanque. Enquanto esfrega camisas e cuecas sujas, balança aqueles peitos pontudos que, sob a blusinha florida, se refrescam com os espirros d’água. O cara deve estar comendo. Quando a mulher vai ao shopping com as crianças, deve rolar, no mínimo, um bola-gato. Sorte a dele.

Realmente tem um tempo na vida do homem que a maior sorte é ter em casa uma empregada gostosa. Para comer ali no tanque ou fazer um lanchinho de madrugada. Para fazer-lhe uma visita surpresa em seu quartinho. Aquele quartinho de paredes com fotos do Thiago Lacerda. Para atochar-lhe bem quando debruçada na penteadeira. Aquela penteadeira onde ficam os perfumes baratos, a lixa de unha, o batom cor-de-rosa e a caixinha de música cheia de sonhos.

Meu pesadelo foi ter tentado a minha primeira vez com uma dessas fanáticas pelo Wando. A mulher parecia um saco de genipapo de tão feia. Além de me dar um coice, a desgraçada ainda contou para minha mãe. Foi um inferno. Ao contrário dos minutos celestiais em que eu passava chupando os seios de Lúcia. A auxiliar do lar mais bonita que já vi. Seios tão suculentos quanto suas omeletes. “Fala que me ama” - Ela dizia. “Eu te amo” – eu dizia. Mas um dia ela partiu. Foi embora para o seu sertão. Sem ao menos uma chupada de despedida, nem a omelete do dia.

Então o dia acaba, e a empregada do vizinho sai para comprar o pão. Toda perfumada. Toda ela. Vai aproveitar e trair o patrão com o taxista da esquina. Apenas olho da janela.

14.8.07

Até morrer

Foi no século que o Bahia ainda jogava pela primeira divisão do campeonato nacional. Então tínhamos o prazer de assistir ao Flamengo jogar na Fonte Nova, onde o time baiano mandava os seus jogos. E aquele domingo valeu a pena. Acabamos com eles. O Mengão venceu por 2x1. Queixão, que amarrara sua toalha do Flamengo no pescoço, estava de Super Mengo e carregava uma bandeira improvisada com o lençol do seu time favorito. Eu, que havia levado uma queda ridícula num ponto de ônibus três dias antes, tinha o braço direito engessado e pintado de rubro-negro.

Deixamos o estádio e resolvemos voltar para a Lapinha a pé. Queríamos desfilar nossa felicidade por mais uma vitória na vida e passar nalgum boteco para comemorar. Descemos e subimos ladeiras cantando o hino, narrando gols e relembrando títulos de 15 anos atrás. "PORRA! CARALHO! VÁ TOMAR NO CU! QUEM MANDA NESSA ZORRA É A TORCIDA DO URUBU!". Enfim, a noite era vermelha e preta.

Foi quando cantávamos pela sétima vez o hino do Mengão que avistamos uma trinca de torcedores do Bahia do outro lado da rua. "Vai, baiano de merda!" – gritou um deles – "torcendo pra time do Rio!". Em resposta, sacudi bem sacudido o meu ovo na direção deles e mandei todos tomarem no cu. Aí é que está. Quem foi que disse que o baiano é de paz? "É O QUÊ, GORDO?" – berrou um deles. Pelo jeito que os três atravessaram a rua, ignorando os carros, deduzi que o caldo ia engrossar. Nem pensei em correr. Eles me alcançariam. Aliás, fica registrado que gordos realmente precisam ser legais com todo mundo, não devem sair por aí mostrando o ovo pra ninguém e nem mandando ninguém tomar no cu.

- Tem medo de morrer não, gordo? – perguntou um deles se aproximando.
- Depois desse 2 a 1 eu morro feliz. – eu disse.
- Rasga essa bandeira suja – disse um deles tentando pegar a bandeira de Queixão.
- Vai chorar no pé do caboclo, meu irmão – Queixão disse – Achou pouco a surra no campo?
- METE A PORRA! – alguém gritou, não sei de onde.

Foi então que coloquei em prática minha filosofia de sempre dar um primeiro golpe e lasquei meu gesso na cara de um dos filhos da puta, que caiu estendido. Só vi de relance o vulto do soco que levei na cara. Despenquei feito uma jaca. Do solo, pude ver Queixão dar uma bandeirada em um e levar outra no queixo. Tentei me defender, mas ganhei uns três chutes na barriga, mais uns dois na costela e um na cara. Também chutaram Queixão como quem chuta uma mala velha. Eu já estava me acostumando aos pontapés, quando, não sei por que, os cornos se mandaram.

Ficamos um bom tempo ali, arriados na calçada. As costas doendo, a cabeça latejando, a bandeira e a capa do Super Mengo, rasgadas. "Tudo otário" – disse Queixão. BÓRA MENGÃO! – eu ainda consegui gritar. Ficamos rindo, pelo menos até o quanto as dores nos permitiam. Minha visão escureceu. Eu via tudo preto e vermelho sangue.

5.8.07

Chato e Sacana

Nesse tempo Nina dividia um apartamento com Alice. Era uma contadora. Simpática, baixinha e de bochechas enormes. Quando íamos tirar fotografia, eu dizia “Alice, você está comendo alguma coisa?”, e ela dizia “Deixa minhas bochechas em paz, Paulo”. Alice era uma boa garota. Nesse dia, ela estava com a garganta fodida, não podia sair, e Nina não queria deixá-la sozinha. Nina sempre foi uma puta amiga das amigas. Então combinamos um programa caseiro. Além de Fred, o namorado fresco de Alice, Nina chamou Paty Pequena e Barata, um casal de amigos do tempo de cursinho. Cada um levou alguma coisa, e a noite de sexta correu macia.

- Bono – disse Fred – minha prima tá estudando propaganda.
- Ela é gente boa? – eu perguntei.
- É, Luciana, Nina conhece, ela fez...
- Diz pra ela fugir enquanto é tempo – eu disse.
- A área tá ruim? – perguntou Paty Pequena.
- Não existe área alguma – eu disse.
- Toda área tem seus problemas – disse Barata – não há pra onde fugir.
- É verdade – disse Fred.
- Por isso vou largar tudo e abrir minha locadora – eu disse.
- Mas tem o lance da pirataria – disse Paty Pequena.
- Então fudeu – eu disse, tomando uma golada do meu vinho.

Nina estava junto à mesa, com Alice, preparando alguns petiscos. Percebi o quanto Nina estava bonita naquela noite. Havia algo especial nela. Eu não sabia exatamente o quê. Mas eu me sentia bem em lembrar que aquela mulher magnífica estava comigo. Ela voltou da mesa com torradas, patês e salaminho. O salaminho era uma surpresa. Nina piscou e sorriu pra mim.

- E o vinho, gente – Nina perguntou – o que acharam?
- Uma delícia – disse Paty Pequena.
- Foi Bono que trouxe – Alice disse.
- Calma, bochecha – eu disse – fui na dica de Nina.
- Sim, Paty, e os shows? – Nina perguntou.
- Os shows tão indo – disse Paty Pequena – talvez eu cante no Bela Noite semana que vem.
- Se for mesmo, avisa que a gente vai – disse Nina.

Paty Pequena cantava na noite. É verdade que a base de seu repertório era Ana Carolina, mas a pequena tinha talento. Uma vez a assistimos num bar GLS. Cantava e tocava seu violão com força e simpatia. Além de cantar muito bem, Paty Pequena era verdadeira. Isso é uma coisa rara em Salvador.

- Paty – disse Alice – o bom de cantar na noite é que você conhece um monte de gente, né?
- É, tem umas pessoas legais – Paty respondeu.
- E ainda ganha convites e cortesias pra um monte de festas – disse Barata – mês passado ela ganhou dois convites pra festa de aniversário de Dona Canô.
- Gente, eu tirei foto com Dona Canô. Ela é tão fofa – disse Paty Pequena.
- Fofa é minha mãe – eu disse.
- Ai, meu Deus, vai começar – disse Nina.
- O que? – perguntou Paty Pequena.
- Eu detesto esse “Canoismo” – eu disse.
- “Canoismo” como assim? – perguntou Barata.
- Quem é dona Canô? – eu perguntei.
- Mãe de Caetano e Bethânia – disse Fred.
- Só isso – eu disse – Ela é só a mãe. Não foi ela quem compôs Podres Poderes. Por que essa adoração pela velha?
- Ah, Bono, não fala assim – disse Paty Pequena – ela é tão doce, tão...
- Doce é dona Zinha, mãe de Fred – eu disse – Dona Zinha é um doce de pessoa, e ninguém anda por aí idolatrando dona Zinha. Minha mãe, a mãe de Nina, sua mãe, a mãe de todo mundo aqui é tão doce ou mais que dona Canô. Agora, é dona Canô isso, dona Canô aquilo. “Dona Canô chamou, eu vou”. Eu vou uma porra! Dona Canô não manda em porra nenhuma. E ainda tem aquela parte “Aquele preto que você gosta, aquele preto que você gosta...” Ainda por cima, a velha é racista. Me diz o que é que essa velha tem de mais? Se eu estiver errado, me diga. Mas o que é que ela faz de especial? Ela traz um monte de outras velhas lá de Santo Amaro pra ficarem arranhando garfo no prato, e todo mundo dizendo que aquilo é música. Boa merda.
- Ela ajuda pessoas carentes – disse Paty Pequena.
- Ela tem dinheiro, porra! Os filhos, que realmente têm talento, ganham dinheiro, dão a ela, e ela ajuda quem precisa. Ótimo, louvável. Mas se eu tivesse algum talento, ganhasse dinheiro e desse uma bolada pra minha mãe, com certeza ela abriria uma fundação. Nada pessoal contra a velha. Merece respeito como qualquer outra pessoa de idade. Se eu visse dona Canô em pé no ônibus, eu cederia o lugar pra ela sentar. Mas discordo completamente desse símbolo sagrado que fazem dela.
- “Discordo” – disse Nina – você só sabe dizer isso. Seu chato!
- Bono tem alguma razão – disse Barata.
- Boa, Barata – eu disse.

Foi quando Nina se levantou pra reabastecer o salaminho. E enquanto a turma aproveitava o embalo pra discutir as chatices atuais de Caetano e a constância de Chico, eu observava Nina. Ela estava realmente muito especial naquela noite. Muito bonita. Percebi que ela vestia uma saia longa e branca que desenhava bem suas curvas e permitia ver o traçado e a cor branca de sua calcinha. Sua bunda estava apetitosa, redonda. Era aquilo. A saia branca e a bunda de Nina. Aquela era a mágica da noite. Eu não conseguia mais ouvir o que Paty Pequena dizia sobre Chico Buarque. Eu só pensava na bunda de Nina. Senti meu pau endurecer. Lembrei que não ia rolar nada naquela noite. Nina e Alice combinaram não transar no apartamento, pelo menos quando a outra estivesse. E Nina não ia querer deixar a amiga sozinha. Mas eu pensava muito na bunda de Nina. Até que Fred tomou o último gole da garrafa de vinho.

- O vinho já era, pessoal – disse Fred.
- Tem mais na geladeira – disse Nina – espera que eu pego.
Nina foi até a cozinha. Eu pedi licença à turma e a segui.

Quando cheguei na cozinha, Nina pegava outra garrafa de vinho na geladeira. Eu segurei e apertei sua bunda. Falei em seu ouvido:
- Deixa eu dar um beijo em sua bunda.
- Você é maluco? – Nina perguntou.
- Só um beijo – eu disse.

Nina era espetacular. Ela nem fechou a geladeira. Levantou descaradamente a longa saia e expôs aquela bunda maravilhosa contornada pela calcinha branca. A bunda de Nina estava mais gostosa do que eu imaginava. Eu me agachei e dei um beijo na bunda. Não me contentei e a beijei mais vezes. Podíamos ouvir a voz de Barata falando sobre o Ministro Gil, mas não tínhamos pressa nem juízo. Fizemos tudo devagar. Mordi de leve aquela carne branca e macia, e depois comecei a lamber toda a bunda de Nina. Ela gemeu e olhou pra baixo, vendo eu lambuzar seu rabo. Nina inclinou ainda mais o quadril a ponto de me revelar o montinho de sua xoxota guardada na calcinha. Enfiei minha cara bem no meio de sua bunda, cheirei e beijei. Deslizei minha língua de baixo pra cima. Nina deu outra gemida. Então dei um último beijo molhado em sua bunda e me levantei. Nina ajeitou a saia e fechou a geladeira. “Você é chato e muito sacana” – disse Nina antes de me beijar.

Então voltamos pra sala, dando tempo ainda pra eu dizer que Gil é e sempre será, ao lado de Gonzagão, o grande gênio da música brasileira. A noite realmente correu macia. O vinho que Nina me pediu pra comprar era muito bom mesmo. O papo sobre música acabou quando as meninas inventaram de brincar de mímica. Títulos de filmes. Homens contra mulheres. O placar foi 25 a 23 para elas.

27.7.07

Efeito Dominó

Quatro engradados de cerveja vazios, uma tábua no colo e as pedras surradas de Seu Coquinha. Se a vida fosse simples como uma roda de dominó. Exatamente o tipo de emoção que eu precisava. Então fui ao dominó da Adelaide, que tem esse nome por acontecer ao lado do boteco da Adelaide. Uma tradicional roda de dominó que pega fogo à sombra de uma velha árvore que não sei o nome.


Quando cheguei, as pedras já estavam rolando. A rapaziada já detonava uma cerveja e beliscava uma josefina suja na farofa. "Vai jogar, Paulinho?" – perguntou Rabuge. "Vamos lá" – eu respondi. "Depois daí é a nossa" – ele completou. Para passar o tempo, pedi uma caipirinha na Adelaide. Quem trouxe a bebida foi Gerusa, filha caçula da coroa. Ela me passou um sorriso sacana. A danada tem uns peitinhos durinhos. Ainda como essa moleca deitada naquele freezer velho do boteco. Entrei numa discussão rápida com os que estavam fora da mesa sobre os laterais da seleção. Rabuge aproveitou pra perguntar se eu não queria comprar um relógio bacana. "Não uso relógio, Rabuge. Valeu". Adelaide colocou Zeca Pagodinho na vitrola. Bom sacana. Eu até gostava dele, mas depois da sacanagem na propaganda da cerveja, sempre o acho um bom filho da puta. Dinheiro é bom, cerveja também, mas hombridade melhor ainda.

Acabou a partida. Engole Hora e Seu Coquinha bateram o jogo. Era a nossa vez de enfrentá-los. O combinado de sempre. Duas peças, levanta. Eu estava preparado, joguei muito dominó nos tempos da Lapinha, aprendi alguns macetes. Porém, Rabuge e eu éramos apenas bons pixotes comparados aos cabelos brancos e ao entrosamento de Engole Hora e Seu Coquinha, parceiros de longa data. Eles, sim, sabiam o caminho das pedras. Mas eu não ligava, e Rabuge muito menos. Mexemos as pedras, fizemos chacotas e juramos surras homéricas nos coroas. Aliás, o dominó tem isso. Mesmo quando você sabe que não joga porra nenhuma, em algum momento, ganhando alguma partida, mesmo por obra do acaso, você sai cantando vitória e contando sua estratégia lógica e matemática de imperador do dominó.

O jogo corria normalmente. E como dizia o Mestre Calado, quando o dominó quer, não tem jeito. Quando não quer, não tem jeito também. Às vezes a sorte ajudava, eu saía com cinco duques na mão e botava pra fuder encima de Engole hora, que soltava um "Puta que pariu" e dava as três batidinhas com uma pedra na tábua pra avisar que tinha passado. Outras vezes eu vinha com quatro buchas e não tinha nada a fazer, só restava apanhar. "Souzinha, quer comprar um relógio bacana?" – perguntou Rabuge a outro que se aproximou da mesa. "Rabuge, jogue sua porra" – berrou Seu Coquinha.

Eles fizeram uma peça primeiro. O jogo estava duro, mas emocionante. Engole hora coçava o ovo antes de jogar, eu demorava pra pensar e Rabuge falava pelos cotovelos. Seu Coquinha ficava puto com tudo. Aliás, o dominó também tem essa capacidade, fazer as pessoas falarem. Uma roda de dominó é um verdadeiro fórum de economistas, sociólogos, políticos, técnicos de futebol e noveleiros. Já vi roda de dominó vir a baixo por causa da falta de ética de uma personagem da Renata Sorrah. Se bem que falar no Dominó da Adelaide não acarreta maiores problemas, no máximo uma úlcera em Seu Coquinha. Problema mesmo é se fosse na feira. Dominó na feira é um esporte pra machos. Falar demais a ponto de esquecer de quem é a vez de jogar é motivo de tapa na cara. Se o falatório for demasiado o bastante a ponto de provocar um gato, ou seja, de colar uma pedra errada e atrapalhar o jogo, é justa causa para espancamento a socos e pontapés. Meu amigo Rabuge estaria fodido.

Quando Engole hora pediu mais uma cerveja, aproveitei pra pedir outra caipirinha à tesudinha da Gerusa. Mais uma vez ela soltou um sorriso maroto. Rabuge percebeu. “Vai ali, Paulinho?” – ele perguntou. “Tô indo em você de novo, quanto mais nela” – eu respondi. “Lá ele” – Rabuge completou. “Deixa a filha dos outros e joga essa porra logo” – bradou Seu Coquinha.

Não sei como, mas conseguimos empatar a partida. Nesse momento eu já havia esquecido o que era briefing, target e anúncio 1/4 de página pra amanhã. O dominó e seus milagres. Por sinal, outra propriedade desse jogo é refletir bastante a personalidade de cada jogador.

Seu Coquinha, por exemplo, tem esse apelido por só beber Coca-Cola de 300ml e do rótulo branco, sem aquela tarja vermelha em volta. Isso mostra que o velho sabe das coisas e prefere sempre o que é certo e autêntico. Então, no dominó, eu sei que Seu Coquinha joga na ofensiva, mas é precavido, só vai na boa. Se ele deixou aquela peça de sena ali é porque a ponta é dele.

Engole Hora, por sua vez, é o tipo que anda comendo a velhota que mora na rua da sorveteria, uma velha desgraçada, da bunda seca, boca mucha e peitos caídos. Não que Engole Hora seja esse macho todo, mas é um malandro. Ouvi dizer que a velha de vez em quando joga cem conto na mão dele. Enfim, Engole Hora é uma raposa, do tipo que guarda, literalmente, uma bucha pro final da partida porque sabe que pode lucrar alguma coisa.


Rabuge é Rabuge. Na verdade não sei nem porque Rabuge vem jogar dominó. Deve ser só pra bater um papo. Não quer nada com a hora do Brasil, vive de bico em bico. Ou seja, é do tipo cola-pedra, o parceiro que você não pode confiar.

Quanto a mim, sou do tipo gordo, careca e preguiçoso, daqueles que não são bons no que fazem e botam a culpa no mercado. Tento no dominó como tento na vida. Cheio de dúvidas. Não sei se mordo. Não sei se vou na manha. E acabo na merda. Sou aquele mais ou menos, que só passava com média sete, que joga na mediocridade do jogar por jogar. Terno ou quina? Tanto faz.

Voltando ao dominó da Adelaide, sei que Seu Coquinha jogou muito bem nesse dia, mas quando o dominó quer não tem jeito. Rabuge fechou o jogo, sem saber, com 15 pontos na mão. Acontece que, da mesma forma que sou do tipo que sempre leva um palito de dente na carteira pra qualquer emergência, guardei também um branco de ás pro final. Assim fizemos menos pontos e ganhamos. Seu Coquinha ficou puto com a nossa cagada. "A gente bota pra fuder" – berrou Rabuge, batendo em minha mão, simbolizando o gesto da vitória.

Jogar dominó não é coisa de quem não tem o que fazer. Ao contrário, é uma razão. É um princípio, um meio e um fim. Já recusei alguns passeios em clubes de luxo pra não perder um bom dominó. E dona Fátima, a senhora de Seu Coquinha, nem ousa o chamar pra ir ao mercado na hora do dominó da Adelaide. A gente se diverte nessa porra. Acho que porque é simples. Aliás, se a vida fosse mesmo simples como uma roda de dominó, estaríamos cagando pra vitórias ou derrotas, e celebraríamos tudo com um premiado e saboroso sarapatel da Adelaide com os amigos.

15.7.07

Com outros olhos

Conheci Biandra quando eu ainda acreditava que o Brasil seria o país do futuro. Estudávamos na mesma escola, mas foi no velho ônibus Santa Mônica que a vi pela primeira vez. Pele alva, cabelos pretos, lábios delicados. Os olhos eram seu segredo. Castanhos. Mas não era uma questão de cor. Era outra coisa impossível de descrever. Segredo. Trocamos palavras, criticamos a Matemática e a Educação Física, citamos filmes e bandas prediletas, essas coisas. Ela sorria. Eu era bom nisso, quando esquecia da merda da timidez que o segundo grau cravava em mim. Mulher alguma naquele Santa Mônica lotado tinha o segredo dos olhos de Biandra. Eu sabia que não era pro meu bico. Mas quando conheci Biandra, eu ainda acreditava nas comédias românticas da Sessão da Tarde, nas quais os otários, como eu, ficavam com a menina mais bonita no final.

Viramos amigos. Nessa época eu ainda não sabia que isso era um balde de bosta nas minhas pretensões. Mas que tática eu podia usar? “Biandra, eu tô a fim de você. E aí?” Piada. Eu era feio, gordo, otário e jogava botão. Nesse meio tempo, ela já devia saber que meu apelido na sala era Nikima, e que eu era sempre um dos últimos a ser escolhido no baba. Ouvir, dar conselhos, fazer rir, enfim, ser a porra do amigo era o único jeito de poder ver de perto aqueles olhos.

Naquele tempo eu ainda mandava bilhetes com versos da Legião Urbana pra tentar conquistar as menininhas. Comigo nunca deu certo. Biandra até gostava, me passava coisas do Cazuza. Parava por aí. Eu nunca seria o seu Eduardo, nem ela a minha Bete Balanço. Mesmo assim gastávamos horas no telefone. Conversando bobagens. A voz era o segundo segredo de Biandra. Quando ela dizia “Alô”, eu implorava “Diz alô de novo!”. Lembro que ela gostava muito de Harry e Sally - Feitos um para o outro, eu dizia “Você é mil vezes mais bonita que a Meg Ryan”, e ela completava “A beleza está nos olhos de quem vê”. Encantadora.

Certo dia, Biandra topou um cinema. Nem acreditei. Economizei, fiz planos para a pipoca, o milk shake, o que ela quisesse. Luzes apagadas. Balbuciávamos comentários sobre o filme, no qual eu não conseguia me concentrar. Outro filme passava por minha cabeça. O filme no qual eu andava pela escola de mãos dadas com a menina mais bonita do mundo. Cenas que se aceleravam até o dia que a gente casava na Igreja da Lapinha. O coração do gordinho disparado, mãos que transpiravam. Para não sofrer um infarto, eu me virei para Biandra, olhei bem para aqueles olhos e disse “Biandra, eu tô muito a fim de você”. Calada por alguns instantes, Biandra mastigou lentamente umas duas pipocas que tinha em sua boca. Depois disse “Paulo, por favor, não sinta nada por mim”. “Você não sente nada por mim?”, perguntei. Ela disse “Sinto amizade, vamos ser só amigos, tá bom?”. Eu disse “Tá” e voltamos ao filme. Gordo idiota.

A vida prosseguiu e continuamos amigos. Biandra havia me colocado no meu devido lugar. Até que um dia, no velho Santa Mônica, a encontrei abraçada ao Allan. Não consegui sentir ciúmes. Allan era o que chamamos de covardia. Loiro, alto, olhos azuis e jogava na seleção de vôlei da escola. Ainda por cima era um cara bacana, de risada contagiante. Allan e Biandra trocavam beijos e falavam de amenidades comigo. Os olhos de Biandra diziam “Paulo, por favor, não sinta nada por mim”. Eu entendia. A menina mais bonita deveria ficar com o menino mais bonito. Óbvio. E eu era um apêndice de merda no mundo.

A partir desse dia, Biandra e eu nos afastamos aos poucos. Mais por vontade dela. Eu ligava vez em quando, pra saber novidades ou avisar sobre o lançamento de um algum novo disco. A coisa ia se resumindo a troca de acenos pelos corredores. Meu filme terminara faz tempo, o segundo grau acabou, nunca mais nos vimos e nem mais um telefonema.

Acontece que, um dia desses, eu vi Biandra. Num ônibus que não era o Santa Mônica. Ela não me viu. Fiquei observando por alguns instantes. Eu olhava para Biandra agora com outros olhos. Parecia diferente. Cabelos mastigados, peitos sem vida, corpo sem ritmo, sem graça alguma. Os olhos continuavam muito bonitos, na verdade, mas era como se parte de seu segredo tivesse sido revelado. Biandra tinha cara de uma pobre amante jovem, usufruída e enrolada por algum homem casado. Pensei em falar com ela, mas desisti. São outros tempos. Depois de assistir a todos os filmes da Sessão da Tarde; de descobrir que esse país de merda não vai pra lugar nenhum; depois que a putinha do Balão Mágico pousou na Playboy; depois do porre de capeta em Berlinque; depois de uma trepada com uma mulata maluca num barquinho na Ribeira; depois do yakisoba da Nina; depois do 11 de setembro; depois de Bukowski, e agora que o Renato Russo não canta mais porra nenhuma, eu reparei bem que Biandra não vale nem uma punheta.

27.6.07

Um bom homem

Não acho que um enterro seja a melhor pedida para uma tarde de domingo. Mas quem saiu do jogo foi o seu João. Um senhor que veio morar aqui na rua e – não sei porque bosta – resolveu me adotar como seu neto. Quando não reclamava das malditas doenças do tempo, o velho me contava suas estripulias da mocidade, como a vez que comeu uma gorda no banheiro de uma repartição pública. Enfim, seu João era um homem experiente. Um bom homem. Foi preciso desistir do futebol na TV. Eu tinha que ir à porra do enterro.

Cheguei cedo ao velório. Resolvi não entrar logo. Irrita ver as pessoas abraçando a viúva e dizendo coisas pra lá de confortantes como “Perdemos nosso João” ou “Ele era tão bom e se foi”. Então encostei a uma barraca próxima ao cemitério e pedi uma Coca-cola pra aliviar a cabeça. Light, em homenagem a seu João. O velho sempre me chamava pra seu aniversário. Era sempre caruru, e eu não perdia. Ele nem podia comer, na verdade. Mas encarava e depois corria pro quarto pra tomar lá seus remédios. O velho sabia como espremer a vida até a ultima gota.

Eu lembrava da noite que seu João e eu disputamos um joguinho de damas quando um caboclo de bigode e boné se aproximou da barraca e pediu uma cerveja gelada.
- Uma gelada, Edson – o caboclo pediu ao dono da barraca.
- A noite foi boa? – o tal do Edson perguntou.
- Sabe aquela sarará, caixa da padaria?
- Comeu?
- Emadeiramento.
- Ela é gostosa – Edson disse.
- Puta que pariu – o caboclo exclamou – a mulher chupou tanto minha pica que eu pensei que a cabeça do pau ia afinar.
Nesse momento, terminei minha Coca-cola e pedi um chiclete.
- Pensei que ela tinha namorado – Edson disse.
- Diz ela que terminou – o caboclo disse – a gente tava lá tomando uma no China, uma cachaça da porra, ela me dando um mole da porra, quando deu umas duas da manhã levei pro motel e lasquei em bandas.
- E a patroa? – Edson perguntou.
- Eu disse a ela que a cachaça foi forte e fui dormi na casa do Martelo – o caboclo respondeu.
- Tá danado – Edson disse.
- Fui – o caboclo disse, detonando a cerveja, deixando umas moedas no balcão e partindo.

A história do boquete supersônico me divertiu e me fez esquecer, por alguns instantes, que eu não ouviria mais seu João me chamar pra contar que sentira falta de ar à noite e os filhos da puta da Vitalmed levaram duas horas pra chegar. Paguei a conta ao tal do Edson e entrei no cemitério.

Lá dentro, pessoas amontoadas em volta de seu João. Permaneci distante. Uma mulher que vestia um decote sacana me lembrou a Sandrinha, uma velha amiga que me confessou já ter chupado o namorado durante um funeral. O resto foi tudo a mesma merda de sempre. Muito choro, um padre escroto que chega correndo e diz umas palavras apressadas, umas cantigas depressivas e o lacre do caixão. A velha viúva estava triste, claro, mas não chorava. Parecia concentrada numa missão. Pensei até em ajudar a carregar o caixão, mas vai que deixo cair. Seu João não merecia isso. Deu-se início a procissão até onde seu João seria deixado. Quando vejo, o coveiro era nada mais nada menos que o caboclo que lascou a sarará em bandas. Lá estava ele, com seu boné, seu bigode e seu pau afinado, à espera de seu João. Devia estar numa ressaca desgraçada. Nessa hora é um silêncio esquisito. Parece que as pessoas querem cochichar alguma coisa, mas sabem que não devem. Até que o caboclo quebrou o silêncio.
- Boa tarde – disse o caboclo a todos – vocês não me conhecem, mas seu João me conhecia, e eu conhecia seu João. E é uma honra estar aqui porque seu João era um grande homem. Pai nosso que estais no céu...

O caboclo tirou o boné e prosseguiu em sua oração. Todos nós o acompanhamos. Quando terminou a oração, o caboclo recolocou o boné na cabeça. Mas uma senhora distinta prosseguiu “Ave Maria cheia de graça...”, e o caboclo voltou a tirar seu boné rapidamente.

Terminadas as orações, e novamente usando seu boné azul, o caboclo concluiu seu trabalho. Guardou perfeitamente o velho corpo de seu João ali dentro, e todos voltaram pra suas casas.

O resto do dia foi uma merda. Nada na TV, nada na geladeira, o Flamengo havia perdido. Tudo rimava, tudo lento, sem graça alguma. Então pensei que, talvez, enterros combinem bem com as tardes de domingo.

Eu também chamava o seu João de Vô.

6.6.07

Dia de mercado

- Você pega os tomates? – perguntou Nina.
- Não sei escolher tomate – eu respondi – é melhor você pegar.
- Homens – ela disse com o sorriso no canto da boca.
Quanto orgulho em saber escolher um tomate. Nina era assim. Fazia questão de me assessorar nos assuntos práticos e sentia-se feliz por isso. Sabia o que estava faltando em casa, avaliava os preços, escolhia tudo, ponderava as quantidades, e eu apenas empurrava o carrinho cheio de tédio, papel higiênico e tomates.

Nina escolhia minuciosamente os legumes para um yakisoba.
- Tem que ter molho shoyo – eu disse.
- Vamos chamar Claudinho e Camila? – Nina perguntou enquanto escolhia cenouras.
- Pra que?
- Pro yakisoba.
- Claro que não.
- Por que não?
- Não quero dividir o yakisoba – eu respondi – outro dia a gente faz um cachorro quente e chama eles.
- Deixa de ser guloso – ela disse – Deus é mais.
- Não pode esquecer do shoyo.

Terminamos os legumes, Nina pegou umas pêras, e continuamos o processo. Frango congelado, lasanha congelada, salaminho, leite, Nescau e, é claro, palito de dente. Ela seguia na dianteira e eu estacionava o carrinho nos lugares mais estratégicos pra facilitar a logística. Sou muito bom nisso.

Cada um tinha direito a um exagero. Nina caprichou nos iogurtes. Era maluca por iogurtes. Pegou várias placas de frutas e de chocolate e garrafinhas de Ninho Soleil. Abriu uma e bebeu ali mesmo. Quanto a mim, peguei dez pacotes de biscoito Bono. “Você é muito previsível” – ela disse.

- Eu escolho o vinho – disse Nina ao chegarmos nas bebidas.
- Ok.
- Que tal? – ela perguntou mostrando uma garrafa – bebemos desse na festa de Amorim, lembra?
- Ham, ham – eu disse – pega duas garrafas.
Nina sorriu. Sabia que eu não lembrava do vinho. Bebo, gosto muito, mas não entendo porra nenhuma de vinho. Já cambaleei pelas praças da Ilha de Itaparica bebendo vinho São Jorge, o da garrafa de plástico. O que vier agora é lucro.

Continuamos o itinerário. Detergente, sabonete, desodorante, shampoo. “Pega um pra cabelos normais” – eu disse. “Que cabelo você tem?” – Nina perguntou rindo e me beijando.
Percebi que um bigodudo se perguntava como um bicho feio como eu pegava um mulherão como Nina. Ela era realmente muito gostosa. Alta, seios fartos, aquela bunda no jeans e um jeito distraído que toda mulher especial tem. Por outro lado, eu estava mais para um ogro. No lugar do bigodudo eu também estaria indignado.

Caminhamos para o caixa. O carrinho estava cheio, ia doer no bolso. Com a fila grande deu tempo pra fazermos piadas sobre todo mundo.
- Aquela ali peida embaixo do lençol. O careca tá fudido.
- Você vai ficar igual a ele.
- E você, peidar igual a ela.
- Você é podre.
- Cadê o shoyo?
- Putz!
- Porra, vá pegar.

Quando chegamos em casa tinha aquela porra toda pra arrumar. Já era noite, estávamos cansados. Fazer mercado cansa. Foi quando abri um dos iogurtes de morango que Nina escolhera com tanto carinho. “Lá vai você beber meu iogurte” – ela disse. Então tirei a calça, baixei a cueca e derramei o iogurte sobre meu pau. “Morango no palito” – eu disse. Nina riu e me chamou de descarado como só ela sabia chamar. Foi aí que Nina realizou um dos mais perfeitos e gulosos boquetes que já vi. Ela era maluca por iogurte e gostava do meu pau. Sua língua era lenta e louca. Babava, lambia os lábios, degustava como uma criança sapeca o mais novo sabor da Danone. Além de uma boca gostosa, Nina tinha como uma de suas virtudes a gratidão. Então ela se levantou, pegou um pacote de biscoito Bono, tirou a roupa e deitou-se no chão. Nina era safada. Espalhou biscoitos por todo o corpo. “Bono, agora com novo recheio” – ela disse. Mandei ver. Comecei pelo biscoito equilibrado em sua boca de morango. Desci no pescoço e estacionei nos peitões, cada um com um Bono. Chupei os peitos, lambi os recheios e mordi os mamilos. O meu paraíso era a barriga branca de Nina coberta de biscoitos. Até que cheguei ao melhor dos biscoitos Bono, o mais recheado, o mais achocolatado, o guardião da xoxota de Nina. “Coma” – ela implorava. Então comi. Comi uma deliciosa Nina e um delicioso biscoito bono ao mesmo tempo. Gozamos e ficamos deitados na sala, rindo de tudo, entre restos de iogurte e biscoito.

Fazer mercado é uma merda. Tem que ter paciência e dinheiro. Coisas que eu não tenho. Mas lembro que eu gostava de ir ao mercado com meus pais quando garoto. Enchia o carrinho de biscoitos e de brinquedos. O meu pai sempre tirava os brinquedos sem eu ver. Mas era muito bom chegar em casa e comer logo todas as gostosuras. E foi um prazer reviver tudo isso.
- Você vai me ajudar a arrumar as compras – disse Nina apoiada no cotovelo.
- Puta que pariu – eu disse.
- Vamos – disse Nina – pelo menos as coisas da geladeira.

31.5.07

Altos e Baixos

As coisas podiam ser mais óbvias como eu imaginava que seriam. Faculdade aos 17, publicitário criativo como os das novelas das sete, casamento aos 25, carrão, filhos na escola e por aí vai. Sempre fui tão idiota. O bicho pega, meu irmão. Tem que sambar pra vencer na vida. Mas em Salvador nem todo mundo é Carla Peres. Na maioria das vezes a porra empena, como aconteceu com o bom e velho Couto que por sinal já vi num pagode e samba mal pra caralho.

Couto ligou eram nove e pouca da noite. Estava bêbado. Precisava conversar e me chamou até seu apartamento. Moramos próximos. Fui até lá.

A porta estava encostada. Entrei. Couto estava sentado no chão da sala, encostado no sofá. As mãos ensangüentadas. Segurava uma garrafa de 51 e alisava Arouca, o seu gato. Eu gelei.
- Marluce é uma puta, Bono – disse Couto – Você sabia?
- Porra, Couto, o que você fez? – perguntei fechando a porta e procurando o corpo de Marluce pela cozinha e pelos quartos.
- O que EU fiz? Porra, até você? – perguntou Couto aos berros – Pra todo mundo a culpa é minha. Vai tomar no cu todo mundo!
- Ok, o que houve? Cadê Marluce? – perguntei depois de não encontrar nada.
Sentei no sofá.
- Aquela puta foi embora. Cachorra, nigrinha.
- De quem é esse sangue?
- É meu, porra. O sangue é meu. Posso ter sangue pelo menos?
Havia manchas de sangue no pêlo de Arouca. O marrom-claro do pêlo misturado com o tom avermelhado do sangue resultou numa cor interessante.
- Que foi isso nas mãos? – eu perguntei.
- Tropecei nessa porra de tapete com o copo na mão. Nunca quis esse tapete. Foi idéia daquela puta.
Havia mesmo cacos de vidro pelo chão.
A noite ia ser longa. Um ronco de motor na rua assustou o punk Arouca, que deixou o colo de Couto e correu para a cozinha. Couto estava virado na porra e me contou o que aconteceu.

Couto tinha um verdadeiro império na CEASA do Rio Vermelho. Era dono de sete barracas. Vendia de tudo. Verduras, temperos, frutas regionais, frutas chiques, carnes, peixes, camarões, azeites, queijos, presuntos, doces e sequilhos de inimagináveis sabores. Couto era o rei. Conhecido por todos. Marluce, sua bonita e simpática esposava, o ajudava nos negócios.

Vale lembrar que por causa de Couto até pensei em largar esse papo de textos e propaganda e montar minha barraca de biscoitos. O comércio tem um dinamismo excitante. Os altos e baixos das vendas fazem com que você esteja bem num dia e duro no outro. Ao contrário da propaganda, que você é fodido o tempo todo. Além disso, na CEASA, as pessoas parecem mais autênticas e felizes.

Voltando a Couto, ele era mesmo um grande empreendedor. Contudo, como estamos nesse país de merda, nesse estado de bosta e nessa cidade de cu, têm os impostos cretinos, os encargos e outras escrotidões que Couto não teve como suportar. Baixaram fiscais e autoridades, rolaram processos de empregados e a porra empenou. Couto perdeu todas as barracas, tentou ficar com uma, mas não deu, perdeu tudo.

Por mais alienado que eu seja, a sensação era de revolta ao ouvir a história de Couto. “Deixe eu dar uma golada dessa porra” – eu disse me referindo à 51. Couto passou a garrafa, bebi um pouco na tora e a devolvi. Couto continuou.

Depois de perder seu império, Couto, é claro, ficou na merda. Mas era raçudo. Queria dar a volta por cima. Ia começar tudo de novo, do zero. Pegou então seu velho Gol e se mandou para Várzea do Poço, um interior de merda, seco, desses da Bahia. Pegou todo tostão que lhe sobrara, até o último centavo, e comprou bananada e requeijão para revender em Salvador. Mas no caminho de volta, Couto foi surpreendido pelos homens. A mercadoria não tinha nota, claro. Não queriam conversa, queriam propina. Couto disse que não tinha nada, que usara todo dinheiro que tinha na vida para comprar a mercadoria, chegou a mostrar a carteira vazia e oferecer bananada e requeijão para todos. “Bananada e requeijão não paga a escola das crianças, vagabundo” – chegaram a falar. Mandaram Couto retirar a mercadoria do carro e botar no acostamento. Os filhos da puta tocaram fogo em toda bananada e todo requeijão, bem na frente de Couto. Ele disse que pensou em fazer uma besteira na hora. Tomar a arma de um e matar pelo menos um dos sacanas.
- Mas eu não tinha mais forças, Bono – disse Couto – Não conseguia levantar nem mais um músculo, nem um dedo. Segui o resto da viagem pensando em meter o carro no primeiro poste. Chorei pra caralho, Bono, confesso.
- Filhos da puta – eu disse. A única coisa que consegui dizer.

Arouca voltou da cozinha. Devagar, preguiçoso e sem saber o que estava acontecendo, acomodou-se nas mãos ensangüentadas de Couto, que continuou a história.

Tudo isso aconteceu naquele dia. Couto só desistiu de se matar porque lembrara de Marluce e de Aline, sua filhinha de oito anos. Pensou em chegar em casa e não contar nada, ser o mais discreto possível para não deixar a esposa desesperada. Daria um jeito em tudo. Mas quando chegou em casa encontrou um bilhete de Marluce grudado sob um ímã na geladeira. Ela chamava Couto de burro, dizia que ele estragara tudo e confessava que se apaixonara por outro homem. Dizia também que ia levar Aline, que ele podia ficar com o gato e pedia desculpas.

Enquanto dizia as palavras exatas do bilhete de Marluce, Couto chorava e acariciava Arouca.
- Vagabunda – eu disse.
- Não é? – ele disse olhando com os olhos molhados.
- Vagabunda miserável – eu insisti.
- Bono, sinceramente? Eu tô pensando em me matar.
- Deixa de viadagem, Couto. Você nunca foi tão sensível assim.

Acho que qualquer pessoa, na situação de Couto, pensaria em suicídio. Eu mesmo já teria colocado fim nessa história antes mesmo da bananada e do requeijão. Mas não podia dizer isso a Couto. Ele não teve culpa por nada. Eu soube de um cara que tinha culpa no cartório mesmo. Ele se matou depois que a Coelba descobriu seu gato de energia de mais de cinco anos. A multa era astronômica. Não agüentou a pressão e a vergonha e meteu bala na própria cabeça. Mas com Couto é diferente. Foi tudo uma grande merda. Couto só estava tentando sambar. Mas eles queriam derrubá-lo de qualquer jeito. Só tem filho da puta. Sacanagem em cima de sacanagem.
- Foda-se – eu disse.
- Que? – perguntou Couto.
- Foda-se a Receita, foda-se Marluce, foda-se a goiabada...
- Bananada...
- Não importa, foda-se – eu disse – Tem que ser um pouco mais miserável, Couto, mais gente ruim, mandar tudo pra puta que pariu! Tem que pensar muito não.
Couto permaneceu calado por um tempo. Mandou ver na cachaça.
Arouca lambia os próprios ovos.
- Não tem que se matar – eu disse – Aliás, é isso que eles querem.
Couto bebeu mais um gole da cachaça.
- Tem razão. Foda-se todo mundo – disse Couto – Eu ainda tenho meu gato.
- Pois é, foda-se. Vamos beber.
- Toma – disse Couto me passando a 51.
- Não agüento essa porra. Não tem mais nada?
- Acho que tem um vinho pela metade. Não sei se presta. Foi a nigrinha que comprou.
- Foda-se a nigrinha.
Fui até a cozinha e trouxa a garrafa de vinho pela metade.
- Tá a fim de ver um dvd? – perguntou Couto.
- O que você tem aí?
- Bruno e Marroney, Calypso...
- Vai tomar no cu, Couto.
Liguei a TV e passava a Grande Família.
- Bono, você tem algum pra me emprestar? – perguntou Couto – Ainda tenho o aluguel pra pagar.
- Sou redator freelance, porra. Tá de sacanagem?
Ficamos bebendo e assistindo, Couto e eu. Arouca pegou no sono. Couto não ria de nada. Eu também não.

18.5.07

O dia anda bem complicado

A porta giratória. Para variar, não gira. Travada. Eu já sabia. Nunca vi essa porra girar assim, macia, de primeira. Pelo menos comigo. E olha que sempre passo devagar, como um tabaréu cismado ou como se fosse uma questão jeito. Chego a empurrar a porta com a delicadeza de uma bailarina loira de cabelos finos. Cada passo é uma conquista, uma esperança. Mas não adianta. Lá vou eu novamente. Travada. Porra.

Sou a favor das portas giratórias nos bancos. Como sou a favor da abordagem dos policiais nos ônibus, tirando o tapa nos ovos e o fato de não mandarem as putinhas descerem do veículo para serem bulinadas também. Sei lá. Tem que se fazer alguma coisa para evitar que levemos um tiro na caixa dos peitos, pelo menos dentro do busú ou dos bancos. No caso dos bancos talvez houvesse uma tecnologia mais engenhosa e menos irritante.

Lá vou eu. Travada. Caralho. Esfrego o rosto. Respiro fundo. E dessa vez acabo impedindo uma velhota de sair. Ela olha para baixo e para cima da porta, achando que ela é a incompetente da história. Síndrome de invalidez. Volto. Deixo a porta livre. Aliviada, a velha sai.

Tenho que fazer o que não gosto. Dou a volta. Ponho o celular naquele compartimento idiota e volto até a giratória. Sem tirar os olhos do celular, é claro. Sempre acho que algum brasileiro vai passar a mão. Duas putinhas vão à minha frente. Elas conseguem. Vagabundas. Lá vou eu. Travada. Puta que pariu.

Dou a volta. Ponho as chaves e setenta e cinco centavos que tinha no bolso junto ao celular. Retorno. Lá vou eu. Travada. Vai tomar no cu. Parece que todos no banco ouviram minha sugestão. Pelo menos seis pessoas atrás mim fazem muxoxo e reclamam porque tem um gordo que não deixa ninguém passar. Impedido de sair, um aposentado baixinho, provavelmente da Polícia Rodoviária, dispara um olhar que atravessa o vidro da porta e me atinge em cheio com o veredicto CULPADO. Saio da frente. Deixo o veterano sair. Deixo todo mundo passar. Sorrindo em minha direção, um boy empurra a porta com o indicador, como se estivesse dizendo – tem que ter a manha, gordo.

O guardinha lá dentro vê tudo com aquela cara de sonso dele. Deve estar se divertindo. Já me disseram que eles que ficam apertando um controle remoto, julgando quem pode entrar ou sair sem ser sacaneado. Mas encaro firme e gesticulo. Que porra é essa? Faço questão que ouça e leia meus lábios. O escroto vê que não estou de brincadeira. Sinaliza para que eu dê a volta novamente. Ok. Com os polegares no cinto, ele se aproxima e, pela greta do vidro, pergunta se não tenho mais algum objeto de metal na pasta. Abro a pasta e encontro o velho guarda-chuva enferrujado. Não tem mais nada. Ponho junto com o celular, as chaves e os setenta e cinco centavos. Retorno. Vamos lá. Devagarzinho. Vamos, Paulo Bono. Fé. Olho para baixo e para cima da porta. Ôpa. Parece que agora vai. Isso. Na manha. A porta gira. Yeah! Vai, porra. Estou dentro do banco.

Olho para trás. Uma garotinha feliz e saltitante empurra a porta, encantada com a linda porta giratória. Mamãe, eu quero uma porta dessa no meu quarto. Caralho de porta de merda. Vou apressado até o compartimento idiota e, graças a Deus, o celular ainda está lá. Hora de esquecer a porta giratória e pegar aquela fila.

1.5.07

Barba, cabelo e bigode

A barbearia não tem nome. Aliás, se tem não sei. Pelo menos não há placa alguma. Sempre digo que corto o cabelo nos três coroas, perto da feirinha. Quatro reais. Um bom trabalho de três veteranos que já cortaram os cachos de pelo menos quatro gerações do IAPI.

Tem o Seu Valdo, que não desliga o velho rádio AM marrom, cravado em notícias que deixariam o Normam Bates enojado – Você viu que mulher miserável, Paulo? Esquartejou o marido e fritou os pedacinhos – Tem o Seu Zelito, o maior colecionador de Playboys que conheço. E o Seu Ivanildo, que sempre está comendo alguma coisa e me lembrando que puxei a meu pai – Você tá com quantos anos, Paulo? Seu pai ficou careca com uns 30. Eu cortava o cabelo de seu pai quando ele ainda tava no colégio militar – O curioso é que os três não se falam. São sócios, mas não compartilham nem um pente. Dizem que o motivo da discórdia é que em outros tempos um comeu a mulher do outro. Nunca perguntei se é verdade.

Não tenho preferência entre Seu Valdo, Seu Zelito e Seu Ivanildo. Os três são exímios profissionais. E cortar cabelo de careca também não tem segredo. Por isso sento na primeira cadeira vaga. Nesse dia Seu Valdo rebaixava os cabelos brancos de um e Seu Zelito raspava a barba de outro. Seu Ivanildo ainda não havia chegado. Então, sentado numas das cadeiras brancas de plástico, do lado de fora da barbearia, eu olhava as putinhas passarem para lá e para cá, enquanto esperava minha vez.

Seu Zelito me chamou. Rapaz, você tá mais gordo. Eu sei, Seu Zelito. E aí, rebaixa? Rebaixa essa porra. Tirei os óculos e os coloquei sobre a mesa junto ao talco. Seu Zelito amarrou um pedaço de pano azul em volta do meu pescoço e começou o trabalho. Do espelho sobre a mesa eu podia ver o que acontecia na rua. E a cada movimento que Seu Zelito fazia na cadeira era possível ver o IAPI de um ângulo diferente. Primeiro eu via o ponto de ônibus e a população descendo dos veículos. Então Seu Zelito girava a cadeira um pouco e eu podia ver a barraquinha de jogo do bicho e a mulher lá dentro lixando as unhas. Mais um movimento e avistava-se o açougue e a feirinha. Mais um pouco para a direita e eu conseguia ver um pedaço das pessoas sentadas, bebendo cerveja no boteco ao lado, onde por sinal sai um sarapatel de primeira. E quando a cadeira retornava à posição inicial eu voltava a ver o ponto de ônibus.

Mas o dia a dia do IAPI já estava monótono. Tem revista nova, Seu Zelito? Tem a da mulher do Big Brother. Ele pegou a revista atrás do espelho e me deu. Dei uma folheada, o pau endureceu um pouco e memorizei alguma coisa. Mas era a mesma porcaria de sempre.

- A Playboy não mostra nada, Seu Zelito.
- É. As mulher tudo de perna fechada.
- Diz que é arte essa merda.
- Só dá pra ver os pentelhinho, e de longe.
- Putaria é na internet.
- Já me disseram.
- Boceta de todo tipo: loira, morena, ruiva, preta, japonesa, velha, nova. Até de anã tem.
- Crendospai!
- É sério, Seu Zelito.
- E dá pra ver tudo mesmo?
- Tudo arreganhada.
- Tem as mulher da televisão?
- Todas essas putas. Mas eu prefiro as amadoras.
- Amadoras?
- As putinhas que ninguém conhece. Os namorados comem, tiram foto e depois botam na internet pra todo mundo ver.
- Que safadeza.
- Tem até uma daqui do IAPI.
- Daqui do IAPI? Quem é?
- Sabe a filha de Seu Dorian, que mora do lado do depósito?
- A mais velha?
- Não, a caçula.
- Aquela galega? – Seu Zelito chegou a interromper o trabalho.
- Sim. Parece que deu um corno no namorado, e o sacana, pra se vingar, colocou na internet as fotos dele comendo ela num motel lá no largo Dois de Julho.
- E a aquela galega é bonita.
- O senhor precisa ver. Eu guardei as fotos. Depois eu trago pro senhor.
- Rapaz, traga mesmo.
- Trago.
- Aquela galeguinha de Seu Dorian?
- É uma safada.

Enfim, Seu Zelito terminou o corte. Com ajuda do velho espelho grande mostrou o resultado. Sinalizei positivamente. Passou talco em volta do meu pescoço e penteou meu cabelo. Dei cinco reais. Ele achou um real de troco na gaveta. Peguei meus óculos e dei uma última olhada no espelho. Vou trazer a foto, Seu Zelito. Traga mesmo. Na saída encontrei Seu Ivanildo. Terminava de chupar uma laranja. Cadê seu pai, Paulo? Sua careca tá aumentando hein, Paulo.

O resto do dia foi contraditório. De um lado eu e meu cabelo novo; e do outro, dívidas antigas e os clientes de sempre com suas desculpas de sempre para não pagar os freelas de sempre. Novidade mesmo só lá pelas oito e pouca da noite. Eu coçava meu ovo enquanto assistia uma virada espetacular do São José sobre o Araçatuba. Quando ouço baterem na porta. Era Seu Zelito.

- Que novidade é essa, Seu Zelito?
- Paulo, é que eu fechei a barbearia agora e...
- O senhor quer ver a galega.
- É, porque...
- Chega aí.
- Desculpa a hora, é que...
- Deixa de onda, velho safado. Vamos acabar logo com isso.
- Tá certo. Não vou demorar não...
- Olha só. Tem vinho na geladeira. Tá a fim?
- Não, Paulo, obrigado. Tô tomando remédio.
- O senhor que sabe.

Levei Seu Zelito até o computador. Acessei a caixa de e-mail. Estava lá: “Loirinha do IAPI”. Quando baixei as fotos Seu Zelito quase entrou em transe.

- Mas é a galega mesmo, Paulo.
- Eu não disse, porra?
- É o xibiu mais bonito que já vi.
- Raspadinha.
- Rosinha.
- Olha só essa aqui.
- Minha nossa senhora!
- Olha o que o cara fez com ela.
- E a bicha agüenta. Quem vê nem diz.
- Isso é uma putinha.
- E ela sabe que a foto dela tá aí?
- Já deve saber.
- E Seu Dorian?
- Até ele deve ter ficado de pau duro.
- Isso é que é xibiu.
- Olha ela de quatro.
- Que coisa mais linda. É rosinha.
- O senhor ia nela, Seu Zelito?
- Fazia barba, cabelo e bigode – Nessa hora percebi que Seu Zelito se ajeitava no banco bulinando seu velho pau. Achei melhor parar por ali.
- Faz o seguinte, Seu Zelito. Eu vou imprimir umas fotos e o senhor termina de ver em casa.
- Tá certo.

Imprimi três fotos. Seu Zelito pediu também a que a galega estava deitada no sofá com o peitinho rosa à mostra. Imprimi. Seu Zelito nem parecia o mesmo velho tímido que bateu na porta. Saiu com pressa e feliz. Só deu tempo de prometer que meu próximo corte de cabelo seria por conta da casa.

12.4.07

Pierre Cardin

Verdade, não dou a mínima para grifes. Sou gordo e gordos contentam-se apenas em encontrar uma roupa. Basta caber. Para mim, fashion é a camisa que não desenha essa minha barriga de merda.

Está certo. Se ainda eu fosse um publicitário com algum talento e grana da Avenida Tancredo Neves, talvez só vestisse t-shirts – como os viados entendidos de moda se referem a camisetas – das melhores marcas. Mas sou um pobre redator pobre. Sempre comprei minhas roupas na C&A e nunca me diminui por isso, pelo contrário, sempre me senti gordo.

E nesse dia a C&A estava um inferno. Faltava espaço para aquela população afoita por uma roupa nova e contente por poder dividir tudo em até dez vezes no cartão da loja.

Eu procurava uma calça, um jeans, sei lá, uma porra de uma calça que fechasse sobre essa minha segunda bunda que são os meus pneus. Mas a C&A não é a mais a mesma. Onde estavam as calças de elástico? Antigamente era fácil. Eu pegava uma GG e pronto. Hoje são esses depressivos números que só chegam ao 46. Não importa se minha barriga dobrou de tamanho, a C&A não é a mais a mesma.

Ainda assim fingi ter esperança. Perambulei como um filho da puta, de cabide em cabide. Quem estivesse observando pelas câmeras de segurança poderia certamente estar dizendo “Olha só aquele o gordo, doido pra achar uma extra-larga-special-plus!”. Eu nem prestava atenção aos modelos. Apenas dedilhava, como um habilidoso arquivista, as etiquetas com os números que ratificavam minha condição de excluído da moda.

Mais adiante, encontrei na última fileira de cabides, no canto esquerdo, atrás das calças 46, um modelo 48 e um 50. Era uma chance. Sabia que a 48 era só com um milagre dos emagrecimentos instantâneos, mas peguei as duas e me dirigi ao provador. Vou dizer uma coisa. Gordos suam mais ainda em provadores. Nem a porra da 50 fechou. Barriga de merda. Mas como nunca perco a classe, não poderia deixar a moreninha que tomava conta do provador perceber que sou gordo, e devolvi apenas a 48. Vou ficar com essa aqui, eu disse, mostrando a 50. Joguei a calça fubenta no primeiro cabide que vi pela frente e saí da loja. Fui banido da C&A.

Entrei na Riachuelo. É até mais barata que a C&A. O problema é que as calças de lá são mais fodidas que as putas de Feira de Santana ou pelo menos não resistem a um gordinho. Em pouco tempo, o atrito entre minhas pernas gordas quando ando vai transformando o jeans em um lenço vagabundo até rasgar. Por isso todas as minhas calças compradas na Riachuelo têm aparência de novas, mas com buracos embaixo dos ovos.

Porém gordos não escolhem. Gordos ficam felizes quando encontram na Riachuelo promoção de jeans por 19 conto até o número 52. Minha cruzada em busca de uma bendita calça parecia haver chegado ao fim. Fui ao provador. Suei como um porco. Nada. A 52 até fechou, mas ficou apertada. Sufocava meu pau e empurrava minha banha para frente. Era impossível. Gordo tem mais que se foder, já dizia o Ribas, um amigo ex-gordo que operou o estômago e hoje tira sua onda de magro, podendo comer as meninhas de ladinho.

Amanhã começo uma porra de regime, amanhã não, segunda, mas amanhã já não vou comer mais biscoitos, aliás, sabe de uma? Foda-se a C&A, foda-se a Riachuelo, fodam-se os modelitos da Rede Globo, não vou fazer regime porra nenhuma e também não vou comprar porra de calça nenhuma. Vou andar com essa mesmo. Está boa. Um pouco surrada, mas está boa. Tem esse buraquinho embaixo dos ovos, mas não dá para ninguém ver. Está ótima. Esses foram meus pensamentos enquanto me esquivava da multidão do shopping center. Até que vi a Rimoli.

A Rimoli é uma loja relativamente cara. Mas não é como essas lojas de grife, onde os vendedores pertencem a uma raça infinitamente superior, de seres super-humanos e magros, de meninos e meninas brancos, de gente bonita que tem verdadeiro horror quando gordos, cafonas ou pobres entram em suas lojas. Como me encontro nas três categorias, passo longe desses lugares com receio de ser incinerado.

Mas como ia dizendo, a Rimoli vende roupas de grife, mas é diferente. É para homens maduros e experientes que querem se vestir bem, mas não têm frescura. E por isso os vendedores não são frescos. São pais de família que convivem com as sogras, homens comuns que comem, bebem, cagam, peidam, mijam, jogam bola e compram botijão de gás, e, acima de tudo, são profissionais veteranos. Enfim, a rapaziada é legal.

E sendo assim, na Rimoli foi tudo tranqüilo. Vocês têm jeans 54? Temos sim, amigo. Vamos dar uma olhada em alguns modelos. Fui ao provador. Nem suei. 54 era o número. Perfeito. Quanto custa? 180 reais. Porra! Mas é uma Pierre Cardin. E eu faço um desconto. Sai por 160. Divide? Claro. Então pronto. Obrigado, amigão. Obrigado, você. Volte sempre.

Não entendo de grife. Não sei se essa Pierre Cardin é boa mesmo. Mas custou 160 conto e coube na minha cintura. Mas depois pensei. 160 conto. Puta que pariu. Dava para comprar oito calças na Riachuelo. Quando abrisse um buraco embaixo dos ovos jogava fora e usava outra. O Ribas é um sábio. Eu precisava relaxar um pouco, esquecer os 160 conto. Então passei na Perini. Pedi uma coxinha, um croissant e uma Coca-cola.