16.12.06

Árvore de Natal

Restaram um pedaço de panetone e a carcaça de um frango sujo de farofa. No chão, latas de cerveja vazias e meia garrafa de sidra. E no sofá, Luiz acabava de gozar numa foda com uma mulher sem nome. Cenas finais de uma boa noite de natal.

Horas antes Luiz estava na barraca do Miltinho, que fica perto do apartamento, no fim de linha dos ônibus. A barraca estava enfeitada de natal e tinha uma patota. Foi divertido. Brincaram um dominó regado à cerveja e batida, Miltinho liberou ovo de codorna e requeijão por conta da casa, mandaram descer um churrasquinho de gato da Adelaide, Benito de Paula rolando solto, umas morenas fogosas num qui-qui-qui-cá-cá-cá danado e por aí vai. Hoje a noite é bela, juntos eu e ela, ajoelhou tem que rezar. Um feliz natal.

Agora, a mulher sem nome acendia um cigarro e falava ao celular. Luiz pegou a sidra e encostou-se à janela. Olhou para a rua quieta. Apenas um louco perambulava e um cachorro fuçava papelões. Dava para ouvir algumas risadas de longe, de alguma ceia natalina. Luzes de natal nas fachadas e janelas. O pátio do prédio vizinho era que tinha a árvore de natal mais bonita. Parecia de filmes ou de shoppings. E Luiz ficou ali durante muito tempo, olhando para a árvore de natal e seu pisca-pisca encantador. Mas apenas olhava. Porque pensava mesmo em outras coisas. Pensava em lugares, em tempos passados e futuros, e pensava principalmente em pessoas. Veio uma tristeza não se sabe de onde. Talvez da árvore de natal. Luiz só se perdeu dos pensamentos por causa dos gritos do louco – “só gosto das peitudas!”.

Então Luiz bebeu o último gole de sidra e foi tentar dar mais uma.

2.12.06

Autônomos

Tarcísio deixou o dinheiro do pão com o filho mais velho e saiu de casa por volta das seis da tarde. Pegou Hamilton no lugar marcado e agora estavam os dois ali.

- Rodriguinho não é jogador. Aquilo é uma carniça – disse Hamilton depois de soltar a fumaça do cigarro.
- O time todo é ruim – Tarcísio respondeu.
- Viu o que o técnico disse? Que o objetivo não é se classificar. É jogar com dignidade. Porra de dignidade! Quem já viu terceira divisão com dignidade? Nêgo filho da puta!
- A culpa não é do técnico. É da diretoria.
- Tudo agora é diretoria. Jogador não tem culpa, técnico não tem culpa. Vá se foder.
- Eu não disse isso. Eu disse que o time todo tá um a merda. Acontece que quem contrata essa merda é a diretoria. Não tem técnico que salve esse time.
- Tem que invadir mesmo aquela porra e baixar o cacete em todo mundo. Quero ver aquela puta do Rodriguinho não correr. Num instante ele corre.
- Venha cá. Chico vai assar uma carne domingo. Vamos lá?
- Pissh. Não é o homem, não? – perguntou Hamilton sinalizando com a cabeça.

Um homem de meia idade, bem vestido, com uma maleta nas mãos, entrava no estacionamento.

- Ele mesmo – respondeu Tarcísio que olhou para o relógio – quinze pras oito, certinho.

Tarcísio saiu na frente. Hamilton apagou o cigarro, pegou o bastão de ferro que estava encostado no pneu e seguiu. Tinham pressa. Alcançaram o homem logo depois que ele desligou o alarme do veículo. – Boa noite, amigo – cumprimentou Tarcísio. Não houve tempo para resposta. Com o bastão de ferro Hamilton acertou a barriga do homem, que se largou imediatamente no chão de brita. – Sabe por que tá apanhando? – perguntou Tarcísio. O homem tossiu e gemeu. Tinha dificuldade para respirar. Hamilton o acertou na canela. O homem gritou e chorou ao mesmo tempo. Gritou por socorro. Mas a dor era mais forte que a voz. – Sabe por que tá apanhando? – insistiu Tarcísio, que olhou em volta e certificou-se que não havia mais ninguém por ali. Eram matos e barrancos. Poucos carros. – Pelo amor de Deus, amigo! – balbuciou o homem sem perceber que essa frase não fazia nenhum sentido. Hamilton deu mais um golpe. Dessa vez na canela esquerda. O homem gritou, se contorceu, rolou pelo chão de brita repleto de bosta de cachorro. – Sabe por que tá apanhando, porra? – Tarcísio parecia perder a paciência. O homem jurou não saber. Aquilo devia ser um engano. Repetiu várias vezes que levassem o dinheiro e o celular. Gaguejava. Chorava. – Bate mais nesse filho da puta – Tarcísio deu a ordem e Hamilton obedeceu. Tacou o bastão de ferro na cabeça do homem. Foi um barulho seco. E logo em seguida, com o bastão sujo de sangue, bateu mais duas vezes na cabeça e uma vez no rosto do homem que agora esta imóvel.

- Tá maluco, desgraça? – gritou Tarcísio tomando o bastão das mãos de Hamilton.
- Você não mandou bater, caralho?
- Mas não é pra matar, porra. Se fosse pra matar, eu já tinha passado o fogo.
- Agora já era.
- Já era mesmo. O cara tá morto. Que porra, Hamilton!
- Diz que ele reagiu. Vamos embora.

Tarcísio dirigia e Hamilton fumava um cigarro. Já estavam longe quando Tarcísio ligou do celular. Jaime atendeu.

- Diga.
- Tá feito.
- Beleza.
- Tem um problema.
- Que foi?
- O cara já era.
- Como assim?
- Morreu.
- Puta que pariu. Eu disse que era só uma surra, porra.
- Ele reagiu. Não teve jeito.
- Tá bom, tá bom. Tem nada não.
- Amanhã eu pego a grana?
- Passe lá.

Quando Jaime desligou, estava na seção de frios. Empurrava o carrinho enquanto sua esposa pegava Danoninho para a filha. Jaime é redator freelancer. Anda meio chateado com alguns clientes. O mercado não é fácil. Ainda mais nessa cidade.