26.11.06

Os Sonhos Acabam

Hoje deu vontade de comer um sonho. Não tinha idéia de quanto custaria um sonho nos dias de hoje. Catei um real e cinqüenta. Vesti uma camiseta velha e fui à padaria da esquina.

Gosto de ir à padaria. Talvez seja um das coisas menos complicadas do cotidiano. A padaria estava cheia. Eram as mesmas caras. Havia uns carinhas e umas putinhas diferentes, mas a maioria, o pessoal clássico, estava ali. Cumprimentei uns aposentados que conversavam à porta e dei um tapinha nas costas de um amigo cobrador de ônibus, que comia um bauru com suco de laranja.

Como as pessoas se encostam à vitrine para fazer os pedidos, é difícil ver o que tem para comer, mas vi que ainda restavam quatro sonhos. Peguei a fila do caixa. Foi tranqüila. Um sonho era cinqüenta centavos. Achei até barato, mas não sei, ando tão duro e, por isso, sem a mínima noção do que é caro ou barato. Pedi um. A fila do balcão foi angustiante. Eu torcia para que ninguém pedisse os quatro sonhos. A maioria pedia varas de sal, cacetinhos bem torradinhos e pães de milho. Mas uma peste de uma merda de uma velha achou de pedir pães de batata e um sonho. Olhei a vitrine para conferir. Restavam três. Quanto desespero. Ainda mais quando um magrelo filho da puta safado pediu dois sonhos. Por um instante achei que não seria hoje que eu comeria um sonho, porque a idiotinha na minha frente olhava para a vitrine bem na direção do último. Tive sorte. Ela pediu pão doce. Era mesmo uma idiotinha amarela. Pedi meu sonho.

Não sei se foi a fome que alimentou a nostalgia, mas comprar um sonho às cinco e pouca da tarde me deu uma sensação boa. Lembrei do tempo de criança, na Lapinha. Eu e Capenga, um amigo que puxava da perna, às vezes juntávamos umas moedas para comprar lanche na padaria do largo, sempre nessa faixa de horário, cinco, cinco e pouca. Passávamos um tempão olhando a vitrine e decidindo o que levar, dentro do que as moedas davam. Podia ser qualquer coisa. Podia ser pão com manteiga. Muito bom. Até hoje não sei por que o pão com manteiga de padaria é mais gostoso. Podia ser broa. Podia ser pão farofa. E podia ser também amanteigado, que embora aquilo pudesse sufocar alguém, era o meu favorito. Mas constantemente era sonho. Quando a grana dava, ainda passávamos na barraca de Seu Antônio e comprávamos uma baianinha, que eu nunca sabia distinguir o sabor, mas era gelada e ajudava o sonho a descer. E voltávamos comendo. Sempre aparecia um sacana de um pidão e dávamos um pedaço. Era bem legal esse tempo. A gente não se preocupava com nada e achava que íamos ser alguma coisa na vida, sei lá, num futuro bem longe, quando fossemos grandes, com uns vinte anos.

Voltando aos meus vinte e nove anos, quando cheguei em casa, tirei a camiseta velha, peguei o sonho e me joguei na cama. O sonho não tinha quase nada de goiabada. É foda. Na TV, passava o segundo tempo de um joguinho de futebol europeu. Pelo menos isso.

10.11.06

Solidão

Muniz já estava embriagado quando Lage disse que ia dar uma esticada com a morena. Era uma da manhã e o bar já não prometia mais nada.

- Espera aí que eu vou também – respondeu Muniz.
- Vai o que, rapaz? – perguntou Lage.
- Deixa eu dar umazinha também, porra!
- Umazinha o que, porra? A mulher não é disso não.
- Então só uma chupadinha. Na boa. Ó, ela dá uma chupada, e eu vou embora. Prometo.
- Deixe de putaria. Vá pra casa, Muniz.
- Deixa de putaria, uma porra. Eu quero putaria!
- Velho, vá pra casa.
- Você é um filho da puta.
- Por que?
- Eu já dividi uma boceta com você. Agora você fica aí com seu egoísmo, seu filho da puta.
- Mas ali era puta, Muniz. E essa aqui não é. Vá pra casa, na moral.
- Não. Eu vou também. Não se preocupe. Não vou querer sua mulher.
- Como assim?
- Eu arranjo uma puta por lá.
- Você é doido.
- Eu quero é foder.
- Você que sabe.
- Pois é.
- Você que sabe.
- Eu que sei mesmo. Mas você é um escroto.

Partiram para o motel. Lage com sua morena num carro e Muniz no outro. Lage e Muniz eram grandes amigos. Conheceram-se nos tempos de escola. Era verdade, os dois já tinham dividido uma boceta uma vez. Foi uma puta da Pituba, numa tarde de domingo, regada a muita cerveja e com a televisão ligada no Faustão. E foi Muniz quem pagou a farra.

Chegando ao motel, Lage pegou a chave e foi para o quarto com a morena. Muniz foi para outro quarto, mas antes fez um pedido especial para a moça da portaria.

- Boa noite, amiga. Por aqui costuma passar algumas meninas de programa, não é?
- Sim, senhor – respondeu a moça – gostaria que eu chamasse alguma para o senhor?
- Por favor.

Ao chegar no quarto, Muniz tirou a roupa, abraçou o whisky, jogou-se na cama e procurou um dos canais eróticos. Ligou para o celular de Lage.

- O que é, porra? – Perguntou Lage furioso.
- Só uma chupadinha, na moral!
Lage desligou o celular. Muniz tomou mais um gole da bebida e ligou para a portaria.
- Pois não? – atendeu a moça.
- E aí, minha filha. Cadê a menina que você me prometeu?
- Até agora não apareceu nenhuma, senhor.
- Porra.

Desligou Muniz. Mais um gole. Na TV, um maluco comia a empregada loira no quarto dela. Era um quarto minúsculo. Muniz chegou a se perguntar por que na casa dele nunca teve uma empregada gostosa. Mais um gole. E novamente voltou a ligar para a portaria.

- E aí, menina. Cadê minha porra?
- Até agora nada, senhor.

Mais um gole. O filme agora mostrava uma negra rabuda dando um show sobre o pau de um maluco. Era demais para Muniz. Tocou uma bronha automaticamente. Mais um gole. E mais outro. Liga para a portaria.

- Cadê a boceta?
- Desculpa, senhor. Até agora nada.

Mais um gole. Muniz assistia uma aeromoça ruiva receber em tudo quanto é buraco. Não teve jeito. Mais uma bronha. Mais um gole. E mais outro. Liga para a portaria.

- Cadê?
- Nada, senhor.
- Porra, você não quer vir aqui dar uma chupadinha não?
- Desculpa, senhor, mas não, obrigado.
- Sua puta.

Mais um gole. E na TV, uma safada dava a chupadinha dos sonhos de Muniz. Mais uma bronha. Mais um gole. E mais outro. E tantos outros goles e bronhas.

Lage já estava preocupado. Ligou várias vezes para o celular de Muniz e nada. Eram sete da manhã. Foi obrigado a chamar a portaria e a segurança para abrir a porta do quarto. Quando abriram a porta, se depararam com Muniz em sono profundo, sujo de porra, a garrafa vazia sobre o travesseiro e uma enfermeira dando para o cardiologista na TV. Foi preciso um banho para reanimá-lo e uma cerveja gelada para rebater.

Muniz é o tipo de pessoa que não está nem aí. Ou então finge ser. Está sempre alegre, indo a festas, bebendo e falando bobagem. Trabalhou no dia seguinte normalmente. É vendedor de automóveis. É que Salvador é propícia à solidão. Finge não ser. Mas é.