10.11.06

Solidão

Muniz já estava embriagado quando Lage disse que ia dar uma esticada com a morena. Era uma da manhã e o bar já não prometia mais nada.

- Espera aí que eu vou também – respondeu Muniz.
- Vai o que, rapaz? – perguntou Lage.
- Deixa eu dar umazinha também, porra!
- Umazinha o que, porra? A mulher não é disso não.
- Então só uma chupadinha. Na boa. Ó, ela dá uma chupada, e eu vou embora. Prometo.
- Deixe de putaria. Vá pra casa, Muniz.
- Deixa de putaria, uma porra. Eu quero putaria!
- Velho, vá pra casa.
- Você é um filho da puta.
- Por que?
- Eu já dividi uma boceta com você. Agora você fica aí com seu egoísmo, seu filho da puta.
- Mas ali era puta, Muniz. E essa aqui não é. Vá pra casa, na moral.
- Não. Eu vou também. Não se preocupe. Não vou querer sua mulher.
- Como assim?
- Eu arranjo uma puta por lá.
- Você é doido.
- Eu quero é foder.
- Você que sabe.
- Pois é.
- Você que sabe.
- Eu que sei mesmo. Mas você é um escroto.

Partiram para o motel. Lage com sua morena num carro e Muniz no outro. Lage e Muniz eram grandes amigos. Conheceram-se nos tempos de escola. Era verdade, os dois já tinham dividido uma boceta uma vez. Foi uma puta da Pituba, numa tarde de domingo, regada a muita cerveja e com a televisão ligada no Faustão. E foi Muniz quem pagou a farra.

Chegando ao motel, Lage pegou a chave e foi para o quarto com a morena. Muniz foi para outro quarto, mas antes fez um pedido especial para a moça da portaria.

- Boa noite, amiga. Por aqui costuma passar algumas meninas de programa, não é?
- Sim, senhor – respondeu a moça – gostaria que eu chamasse alguma para o senhor?
- Por favor.

Ao chegar no quarto, Muniz tirou a roupa, abraçou o whisky, jogou-se na cama e procurou um dos canais eróticos. Ligou para o celular de Lage.

- O que é, porra? – Perguntou Lage furioso.
- Só uma chupadinha, na moral!
Lage desligou o celular. Muniz tomou mais um gole da bebida e ligou para a portaria.
- Pois não? – atendeu a moça.
- E aí, minha filha. Cadê a menina que você me prometeu?
- Até agora não apareceu nenhuma, senhor.
- Porra.

Desligou Muniz. Mais um gole. Na TV, um maluco comia a empregada loira no quarto dela. Era um quarto minúsculo. Muniz chegou a se perguntar por que na casa dele nunca teve uma empregada gostosa. Mais um gole. E novamente voltou a ligar para a portaria.

- E aí, menina. Cadê minha porra?
- Até agora nada, senhor.

Mais um gole. O filme agora mostrava uma negra rabuda dando um show sobre o pau de um maluco. Era demais para Muniz. Tocou uma bronha automaticamente. Mais um gole. E mais outro. Liga para a portaria.

- Cadê a boceta?
- Desculpa, senhor. Até agora nada.

Mais um gole. Muniz assistia uma aeromoça ruiva receber em tudo quanto é buraco. Não teve jeito. Mais uma bronha. Mais um gole. E mais outro. Liga para a portaria.

- Cadê?
- Nada, senhor.
- Porra, você não quer vir aqui dar uma chupadinha não?
- Desculpa, senhor, mas não, obrigado.
- Sua puta.

Mais um gole. E na TV, uma safada dava a chupadinha dos sonhos de Muniz. Mais uma bronha. Mais um gole. E mais outro. E tantos outros goles e bronhas.

Lage já estava preocupado. Ligou várias vezes para o celular de Muniz e nada. Eram sete da manhã. Foi obrigado a chamar a portaria e a segurança para abrir a porta do quarto. Quando abriram a porta, se depararam com Muniz em sono profundo, sujo de porra, a garrafa vazia sobre o travesseiro e uma enfermeira dando para o cardiologista na TV. Foi preciso um banho para reanimá-lo e uma cerveja gelada para rebater.

Muniz é o tipo de pessoa que não está nem aí. Ou então finge ser. Está sempre alegre, indo a festas, bebendo e falando bobagem. Trabalhou no dia seguinte normalmente. É vendedor de automóveis. É que Salvador é propícia à solidão. Finge não ser. Mas é.

4 comentários:

Joe99 disse...

Eu achei que "boceta" ra com "U" "Buceta"

PaLoMa S/A disse...

paulo,
caí em você.
e só pode ser o bono mesmo.único. de trocadilhos. de fino trato.mode inesquecível.
mande-me um email: palomasa@terra.com.br.
cadê essas palavreagens no mundo da publicidade?
um beijo,
paloma sá..

Danilo disse...

Longe da ficção... um conto recheado de muita "qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência".
Bem sabemos o quanto esses dois personagens eram capazes de aprontar!
Saudosos Lage e Muniz!

Anônimo disse...

Pois fiquem sabendo... Qualquer semelhança é mera coincidência...
Marcius Lage