18.10.06

O homem que só trepava em Salvador

Quando me casar, quero que seja para sempre. Não que eu seja romântico e sim, medroso. Morro de medo de praga de ex-mulher. Tenho esse pânico desde que conheci seu Elísio, um motorista de van, que prestava seus serviços para a agência onde trabalhei em Feira de Santana.

Seu Elísio era catiguria. Devia ter seus quarenta e pouco. Baixo. Camisa pólo por dentro da calça e um bigode estilo jogador de dominó. Um dia, enquanto Seu Elísio me levava para a agência, perguntei quando daríamos uma saída para tomar uma biritas e pegar umas putas. Então ele me confessou.

- Eu não como mulher não, Bono – Respondeu Seu Elísio, olhando para o trânsito.
- Como assim? Você é viado, seu Elísio? – Perguntei.
- Não. Eu não como mulher aqui em Feira de Santana.
- Oxe. Por que?
- Porque não como.
- É uma filosofia?
- Não. Praga da minha ex-mulher.
- Sério?
- É. Quando saí de casa, ela disse que ia jogar uma praga, que mulher nenhuma na cidade ia me querer.
- Sim, mas e aí?
- Aí que mulher nenhuma na cidade quer fuder comigo.
- Que porra é essa, seu Elísio? Como assim?
- Mulher nenhuma quer fuder comigo. Juro por Deus. Nem bonita, nem feia, nem magra, nem gorda, nem aleijada, nem aquelas branquinhas que não podem tomar sol.
- Albina.
- Isso. Nenhuma. Juro por Deus.
- Mas como é? Na hora h, o pau não sobe?
- Não tem hora h, porra. Mulher nenhuma aqui de Feira quer saber de mim.
- Nem pagando?
- Nada.
- Como é que pode?
- Quando procuro uma puta, ela diz que vai fazer outra coisa, que não pode, que está ocupada.
- Mas rapaz. É sério, seu Elísio?
- Estou dizendo. Eu nem tento mais. Não ligo mais não.
- Fica só na punheta?
- A maior parte do tempo. Só fodo mesmo quando vou a Salvador.
- Ah, a maldição é só com as bocetas feirenses?
- Foi o que eu disse. Mulher nenhuma DAQUI DE FEIRA quer saber de mim. Mas quando eu vou a Salvador, eu pego umas nêgas.
- Menos mal. Que praga miserável.
- Ex-mulher é gente, Bono? - Completou seu Elísio, já estacionando o carro e pondo fim à conversa.

É dose. Vou levar a imagem do resignado seu Elísio para o resto da vida. Claro que ex-mulher não é gente. Que espécie de mulher do cão é essa? Isso não é praga que se jogue em alguém. É um lance meio terrorista. É por isso que quando me casar vai ser para sempre. Hum. Casar. Ai, ai...

Semana passada avistei Seu Elísio. Cinco anos depois e a mesma camisa pólo amarela por dentro da calça. O mesmo bigode. Seu Elísio estava sentado num boteco em Amaralina, aqui em Salvador. Ao lado de uma coroa cheia de sarda. Era até bonita. Já era umas onze da noite.

5 comentários:

Game Over Riverside disse...

Cruzes!

aline sowzer disse...

como sempre, suas cronicas (nao sei a qualificacao literaria correta, seria isso mesmo?) muito muito boas. adorei! morri de rir. bjo!

Adriano Carôso disse...

Acabo de ler o seu último texto, que na verdade foi o primeiro. É que li de traz pra frente. Foda, cara! Tudo muito bom! Não demora de presentear os seus leitores. Abração!!

Anônimo disse...

também te devorei detrás pra frente bono. hehe...
gostei muito, continue assim!
abraço,
parangolé

Luiza Del Rei disse...

Agora sim, posso dizer que li todos os textos do seu blog. Sensacional! Sensacional mesmo. Você é o muso inspirador dos alunos de Relações Públicas da Universidade Estadual da Bahia, cara! hahaha