31.10.06

Não Há Vagas.

Hoje fui a uma entrevista de emprego. Era para indicador de filmes numa dessas grandes vídeo locadoras. Mais uma atividade fundamental para o futuro da nação, coisa típica de pessoas criativas como eu.

Quando a mulher ligou para avisar da tal entrevista, até achei o convite promissor. Era uma agência de recursos humanos. Imaginei que fariam algumas perguntas como: "na sua opinião, em qual destes filmes De Niro esteve melhor, Táxi Driver ou Scarface?" Vai lá. Mesmo não conseguindo o emprego, seria divertido testar os conhecimentos. Cheguei até mesmo a vestir camisa preta e jeans, tipo criativo e casual que entende de cinema. Mas logo que cheguei no local, percebi que as coisas não seriam tão interessantes: era mais uma entrevista coletiva.

Entrevistas coletivas são uma farsa. Se uma das funções do cargo desejado é lidar com o público, eles estão cagando para o fato de você ter doutorado nisso ou naquilo. O importante é ter o perfil, ou seja, ser bonito ou jeitosinho ou, pelo menos, estar vestido com roupa de grife.

Voltando a minha entrevista para indicador de filmes. Tinha tudo que é tipo de gente. Tinha o bonitão, a mocinha tímida, umas duas putinhas, umas duas senhoras, outro com cara de estudante da escola técnica e mais alguns. Eu era o único gordo. Eu era o único careca. Que merda. Eu não ia levar vantagem contra ninguém. Sentamos todos em volta da mulher branquela, magérrima, de óculos e terninho. Porra. É sempre uma mulher branquela, magérrima, de óculos e terninho. Parecia que eu estava adivinhando.

Começou com todo mundo dizendo seu respectivo nome, uma mini-biografia e o porquê de se tornar um indicador de filmes. A mesma balela. Eram todas almas gêmeas, com a mesma motivação sublime. E quando a pergunta foi “qual o seu maior defeito?”, a grande maioria respondeu: “ah, eu sou perfeccionista”. Que pecado maligno esse. Vai para o inferno. Depois vieram os filmes favoritos. Deu vontade de vomitar. A putinha mesmo tentou explicar sua teoria sobre Matrix. Puta merda. Se eu estivesse armado, ela ia ver. Um outro disse que gostava de filmes diferentes, do nível de Efeito Borboleta para cima. E no mais, nada. Como eu já esperava. Depois de uma lúcida e criteriosa entrevista, a mulher branquela, magérrima, de óculos e terninho completou: “Muito obrigada a todos. Estaremos entrando em contato com os aprovados para a segunda fase da seleção”. Quase eu mando ela tomar no cu. Não adiantou de nada a minha revisão sobre diretores e seus principais filmes nos últimos sessenta anos.

Na saída tive que fingir admirar um quadro tosco que eles tinham no hall. Isso para não ter que pegar o elevador com a turma se perguntando o que cada um havia achado da entrevista. Bem, eu achei uma merda. Mas não queria dizer para uma das senhoras, que apesar dela ter sido a mais autêntica daquela sala, afirmando que Ghost era o seu favorito, não esperasse nenhum telefonema, pois ela não tinha o maldito perfil. Era claro que o bonitão e uma das putinhas seriam os novos indicadores de filmes da redondeza.

Desci o elevador sozinho. Do nono andar até o térreo, lembrei de tantas outras entrevistas coletivas, pelas quais também não passei da primeira rodada de perguntas óbvias, juntamente com outros gordos, alguns negros, mulheres dos cabelos duros, narigudos, anões, albinos, meninas magérrimas, mas com caras de pobres e tipos esquisitos ou seja fora do perfil, feios para ser exato. E cheguei à infeliz conclusão que só tenho chance numa agência de propaganda mesmo, onde não há entrevistas coletivas, onde pedem apenas para ver um portfólio com algum título super criativo. O pior que meu portfólio é uma droga. Acho que estou condenado. Sem perfil e sem título criativo.

Ao deixar o elevador, lembrei, inutilmente, que o De Niro não fez Scarface. Foi o Pacino. Confundo às vezes.

5 comentários:

Joe99 disse...

Eu já vi esse filme.

Anônimo disse...

Paulo de Deus,
você está cada vez melhor. Você já tem teu próprio estilo literário. Á partir de agora vou ler tuas crônicas com mais constância.
Um abraço,
rosel

Anônimo disse...

Sem perfil, sem título criativo e sem essa precisão cinematográfica toda, né?
Espero que não esteja falando de si mesmo, muahuahuahaa!!!!

Mary Quant Bazaar disse...

Parabéns pelo blog muito bom!!

Mary Quant Bazaar disse...

Ricardo Cidade comentou do seu estilo de escrever!!