25.2.13

2ª divisão

São dois motivos que me fazem ter vontade de emagrecer. Conseguir fuder de ladinho e jogar bola.

Era uma confraternização da agência. A turma bebeu, comeu e trocou alguns presentes. Depois alguém disse, “Ei, vamos bater esse baba!”. Fazia mais de dez anos que eu não chutava uma bola. Mas precisavam de mim para completar o time. Então resolvi encarar. Sete de cada lado, fora os goleiros. Me colocaram na frente, na banheira, onde eu não pudesse fazer tanto estrago. Era um belo gramado. Dava para a bola correr macia e jogar um bom futebol. Mas como tirei os óculos, eu precisava apertar os olhos para enxergar meu time. Meu peso também não me deixava correr. Era como se eu carregasse fardos de cimento sobre as costas e correntes de chumbo me segurassem ao chão. Nem sempre foi assim. É difícil de acreditar, mas já fiz meus golzinhos em outros tempos. Com os anos, fiquei cada vez mais gordo e me afastei dos babas. Era impossível jogar com os boleiros, esses que levam o jogo a sério. A cada lance que eu perdia, algum escroto gritava – “Porra, gordo!” – e eu dizia – “Vai tomar no cu! ” – E as coisas não acabavam muito bem. Mas aquele baba da agência tinha o nível que eu precisava. Os caras estavam bêbados, outros chapados de maconha, alguns já tinham cabelos brancos, outros nunca jogaram bola. Queríamos apenas matar o tempo, se divertir, esquecer os problemas. Lembro que teve esse lance. Um cara chamado Bob Jones. Desconfiávamos até da sua sexualidade, mas era o melhor do meu time. Ele driblou o primeiro, driblou o segundo e arrancou pela esquerda. Como manda a cartilha do bom centroavante, acompanhei a jogada correndo na diagonal. Aquela jogada clássica. Bob Jones chegou à linha de fundo, ergueu a cabeça e cruzou. A pelota veio girando em supercâmera lenta, me antecipei ao goleiro, tomei impulso e pulei. Mas só consegui pular na altura de uma gilete e ainda caí de uma maneira ridícula. A turma toda riu. As putinhas que assistiam ao jogo acharam aquilo o máximo. Fiquei ali, deitado na grama por alguns instantes, sem respirar, sentindo uma navalha cortar minha garganta e o coração bater em disparado. Foi nessa hora que pedi para ir para o gol, e meu time perdeu a partida.

Não é fácil aceitar a crueldade do tempo e perceber que temos um prazo curto de validade. Lembrar de quem você já foi e reconhecer quem está hoje diante do espelho. Não falo de cabelos brancos ou rugas. Talvez de energia. A mente pedir e corpo não obedecer. Isso pode fazer muito homem chorar ou parar no hospício. Outro dia assisti ao amistoso do velho Zicão. O cara ainda sabia tocar na bola. Mas em um lance simples, o Galinho esticou a perna, tropeçou no vento e caiu melancolicamente diante do gol vazio. Como se Deus estivesse praticando uma de suas piadas de mau gosto e ainda vestido com a camisa do Vasco. Meu caso é mais simples. Meu peso e minha coluna já não me deixam fazer muita coisa. Por outro lado, não chego me sentir tão mal. Porque nunca fui um camisa 10, nunca fiz um gol de bicicleta, nem nunca levantei a taça de campeão. Sempre estive no banco de reservas, e a vida toda fui um jogador da segunda divisão.

Enquanto isso, vou me relacionando com o futebol apenas pela TV. Se que bem que o próprio futebol anda um chute no saco. Há muita violência, torcedores idiotas, mais marketing do que futebol. De alguma forma, perdeu a graça, a espontaneidade. Dizem até que não há nada mais vulgar do que eu torcer pelo Flamengo. Isso porque meu documento de identidade diz que nasci em Salvador. Mas vamos fazer o seguinte. No dia que alguém pagar todas as minhas contas, eu torço para o time que você quiser.

30.1.13

Tempo de violência

A Lapinha até que era um lugar decente. Onde famílias sentavam-se nas portas de suas casas, casais se espremiam atrás da igreja e crianças corriam com algodão doce, esse tipo de coisa. Como uma pequena cidade do interior perdida bem no meio da capital. E no final da tarde, você ia comprar o pão escutando aquele chiado escroto das cigarras. Mas nem tudo era poesia naquelas ruas de paralelepípedo.

• 

Passamos quarenta minutos de tocaia. Apenas observando o movimento na banca de Seu Antônio. Éramos eu, Queixão, Rubalo, Vaca e Ultraseven. Seu Antônio tinha uma banca de revistas na esquina. Um senhor de idade, seus reflexos já não eram lá essas coisas. O plano era simples. Eu e Rubalo distrairíamos o velho, enquanto os outros atacavam a lateral da banca para roubar figurinhas do campeonato brasileiro. Eram os anos 80. Precisávamos nos divertir.

- Quanto é a Playboy, Seu Antônio?
- Ham?
- Essa com a loira na capa.
- É pra maior de 18, filho. Vocês não podem ver essas coisas.
- Então me dá aquela de quadrinhos.
- Qual?
- Aquela.
- Chico Bento?
- Não, a outra.
- Essa?
- A outra.
- Mas essa também é de ozadia.
- Porra, Seu Antônio.
- Por que não levam a do Chico Bento? Eu me divirto com Chico Bento.
- Então vou levar só uma jujuba.

A missão foi um sucesso. Depois nos encontramos na porta da igreja. Dividimos o bolo de figurinhas em partes iguais. Durante o golpe, Queixão também pegou figurinhas dos Ursinhos Carinhosos. Não entendemos direito. Mas ele disse que era um presente para sua irmã. Então cada um separou seus cromos favoritos, e reservamos alguns para a disputa no bafo. Foi nessa hora que um sabugo de milho chupado acertou em cheio a cabeça de Rubalo. Eram os pivetes da Avenida Peixe que estavam invadindo o Largo da Lapinha. Vaca foi o primeiro a correr. Depois, Queixão, Rubalo e Ultraseven também fugiram deixando para trás suas figurinhas. Eu não consegui sair do lugar.

A Avenida Peixe sempre foi barra pesada. Além de mais altos e mais fortes, aqueles caras costumavam andar armados com facas e porretes. Eram jovens marginais promissores, que hoje devem ser chefes do crime na cidade. Quero dizer, os pivetes da Avenida Peixe eram o nosso maior pesadelo. E agora, quatro deles vinham em minha direção, liderados por ninguém menos que César Diabo. O mais temido na Lapinha, na Avenida Peixe, na Liberdade e também no inferno.

• 

Hora de contar a história de Vander Crioulo. Muitos ainda se lembram de Crioulo como um dos maiores delinquentes da Lapinha. Vivia de roubos, arrombava casas e carros com a mesma facilidade, bom de briga, jogava capoeira, desvirginava mocinhas inocentes, batia em velhos e doentes, tocava o terror, botava fogo em cachorro e talvez fosse o maior ladrão de io-iôs da Coca-Cola. Certa vez cismou comigo, me deu um tapa na cara e jogou minha sandália no telhado sem o menor motivo. Pois é. Um dia Vander Crioulo inventou de roubar uma sorveteria na Avenida Peixe. Parece que César Diabo não gostou da ideia. Além de arrebentar vários dentes de Crioulo na base do soco, César Diabo quebrou-lhe uma porta na cabeça e o fez prometer que nunca mais pisaria na Avenida Peixe. E mesmo Crioulo chorando de joelhos e pedindo penico com a boca cheia de sangue, César Diabo ainda enfiou um picolé de nata goiaba no cu de Crioulo, que gritou feito uma garotinha virgem de cu. Depois desse episódio, Vander Crioulo virou um dos maiores viados do bairro, com short enfiado e tudo, e passou a se chamar Vander Goiaba.

• 

Então lá estava eu sentado na porta da igreja diante de um César Diabo com os punhos fechados. Seus capangas seguravam canivetes. Eu já fazia uma prece silenciosa pedindo para que não comessem o meu rabo.

- Por que não correu, gordo? – disse o diabo.
- Vocês iam me pegar de qualquer jeito.
- Você é o espertinho da turma?
- Claro que não. Sou só o gordo.
- Acaba com ele, diabo. – disse um dos capangas.
- Mostre que sabe apanhar – disse Cesar Diabo arrancando minha sandália e jogando em cima do telhado mais próximo.
- Merda, de novo... – eu disse, me levantando.
- Não fui com a cara desse gordo – disse outro capanga.
- QUE DESGRAÇA! – gritou César Diabo.
- Qual foi, diabo? – perguntou um capanga.
- Um fiapo de milho no meu dente. Não quer sair nem com a porra. Fico agoniado. São duas coisas que eu odeio, esses otários da Lapinha e fiapo no dente. Gordo, tô com vontade de rachar sua cara só por causa desse fiapo no meu dente.
- Calma – eu disse – a gente consegue um palito no bar do Miguel.
- Fiapo no dente é uma miséria – disse um dos capangas – só sai com palito, diabo.
- Cala a boca – disse diabo.
- O gordo tem figurinha dos Ursinhos Carinhosos.
- Tô dizendo – disse César Diabo – Na Lapinha só tem viado!
- Calma, pessoal – eu disse – Isso aí é da puta da irmã do cara.
- PORRA NENHUMA, O GORDO É VIADO!
- As minhas são essas – eu disse mostrando os cromos do campeonato.
- Torce pra que time, gordo?
 - Veja bem, eu sou Flamengo, é que...
- Eu também sou Flamengo. Zico é meu fã.
- É o contrário.
- O quê?
- Você é fã de Zico.
- Isso que eu disse, porra. Zico é meu fã. Eu bato falta que nem o Zico.
- Diabo chuta que nem o Zico – disse um dos capangas.
- Gordo, vou liberar você só por causa do Zico.
- Verdade, o galinho é foda.
- Mas vou te pedir uma coisa.
- Já sei. A figurinha do Andrade?
- Porra de figurinha. Eu sou viado?
- O gordo acha que o diabo é viado que nem ele.
- Você conhece Téo Robocop?
- Que tem um poodle chato?
- Quero que você dê um recado a ele.
- Tudo bem.
- Diga a Téo Robocop que ele tinha que dar o dinheiro do bagulho ontem. Hoje já é hoje. Se ele não aparecer com a porra do meu dinheiro, vou meter fogo nele e naquele cachorro nojento dele – disse César Diabo levantando a camisa e revelando que os pivetes da Avenida Peixe agora também trabalhavam com armas de fogo.

• 

À noite, o Largo já estava mais tranquilo. Parecia bem mais aquele cenário do interior. Alguns casais dividiam pipoca no palanque e taxistas comiam acarajé na baiana que instalava seu tabuleiro junto à banca de Seu Antônio. Ultraseven e eu estávamos sentados na porta da igreja. Eu contava sobre meu embate com César Diabo quando Vaca apareceu com uma novidade. “Se querem fuder, me sigam!”.

Seguimos Vaca até o antigo prédio ao lado da igreja. Subimos as escadas e paramos no 102. Havia muito barulho, sobretudo um latido de cachorro. Alguém abriu a porta e entramos. Jamais vou esquecer aquela imagem. Uma sala sem móvel algum, piso de tacos, apenas um colchão no meio. E sobre o colchão, Tico Pé de Pato comia Matilde Maluca, na presença de um poodle ensandecido.

Matilde Maluca era a louca da Lapinha. Surgia do nada e ficava transitando por ali, sempre com seu vestido azul florido. Conseguia restos no bar do Miguel, sentava no palanque, conversava sozinha e dava voltas ao redor na igreja catando pontas de cigarro. Agora ela estava ali, com as pernas abertas, e Tico Pé de Pato metendo feito um animal. Matilde Maluca apenas sorria. E havia uma turma assistindo. Era os “caras grandes”, uma geração mais velha da Lapinha. Estavam Big Juca, Perninha, Fred Feijão, Júnior Três Dentes, Jessé, Silvio Negão e Téo Robocop. Alguns bebendo, outros com o pau na mão, outros rindo. Cada um esperava sua vez. Quando Tico Pé de Pato acabou o serviço, Fred Feijão se aproximou e derramou um gole de cachaça na boca de Matilde Maluca. Então Jessé baixou a bermuda e meteu.

- A gente vai poder meter também? – Vaca disse.
- É só vocês entrarem com a grana da cachaça – disse Téo Robocop – Essa doida gosta de cachaça. A gente deu dois copinhos, ela ficou doida, pediu mais, a gente deu. Matilde Maluca ficou maluquinha.

Jessé gemeu engraçado e gozou rápido. Era o a vez de Silvio Negão.

- Ela tem uma xota cabeluda – Ultraseven disse.
- Ás vezes, essa puta grita – disse Téo Robocop – Por isso eu trouxe o Shazam. Ele late e abafa a gritaria. Pra não chama a atenção dos vizinhos. Não foi uma boa ideia?
- César Diabo mandou um recado – eu disse.
- Gordo – disse Téo Robocop – por que você tá de Conga? Parece um tabaréu.
- Se você não pagar o que deve, ele vai te matar.
- Esquece o diabo, gordo.
- E vai meter a porra no Shazam também.
- E vocês? Não vão botar seus pauzinhos naquele buraco molhado? Não querem deixar de ser donzelos? É a chance. Mas vou logo avisando. Tem uns caras usando camisinha, outros não. Deve tá uma sopa ali dentro.

Silvio Negão meteu de algum jeito que Matilde Maluca começou a gritar. Mas o poodle latia mais alto. Quando Silvio Negão acabou, Vaca ganhou a sua chance. Eu não queria participar daquilo. Se os caras vissem o meu pau, eu seria a piada da noite. Além disso, algo me dizia que aquilo não estava certo. Parecia um show de horror, de covardia. Ou talvez eu fosse o maior de todos os covardes por não tentar impedi-los nem sequer meter a pica. Ao invés disso, preferi deixar o apartamento, correr de volta pra casa e bater uma punheta pensando em Matilde Maluca.

De certa forma, essa história tem até um final feliz. Téo Robocop e o poodle sobreviveram. E Matilde Maluca ainda teve um bebê. Ninguém jamais soube quem era o pai de verdade. Diziam ser de Ultraseven. Porque o garotinho era negro e cabeçudo.

27.12.12

Comprei um queijo cuia

Véspera de Natal. Aproveitei a tarde para cortar o cabelo. A cada dezembro, são menos fios de cabelo. Por isso foi rápido. Depois encarei o mercado e comprei um queijo cuia. Finalmente. Digo, finalmente, porque sempre achei caro demais.

No caminho de volta, a rua estava daquele jeito. A humanidade em ação. Comprando, gritando, gesticulando, se esbarrando e cuspindo. Ambulantes ouviam Roberto Carlos em versão de arrocha. O calor só piorava as coisas. Achei que fosse enlouquecer. Se continuasse ali, eu poderia matar alguém em pleno Natal. Foi quando vi essa igreja com a porta aberta. Entrei. Estava vazia. Apenas algumas velhas beatas arrumavam o altar. Escolhi um banco e sentei. Só conhecia igrejas em dias de casamento e batizado. Sem as pessoas, parecia um lugar agradável. Por um momento me senti em paz. Queria permanecer assim e sem pensar em nada. Mas acabei pensando naquelas pessoas lá fora. Era mesmo o inferno, mas pareciam felizes em comprar. Talvez não haja nenhum mal nisso. Vejo muita gente meter o cacete no Natal. Eles dizem que não passa de uma festa consumista. Mas percebo também que são as mesmas pessoas que passam o ano todo à espera do novo modelo do iphone. Fala alguma coisa, Jesus Cristo. O que acha disso tudo? O silêncio me fez pensar também no ano que passou. Encarei uma grande guerra e caminhei por campos minados. Além disso, teve protusão discal, alergias, TOC, dores na nuca, o futebol medíocre do Flamengo. Foi um ano difícil. Eu merecia mesmo aquele queijo cuia. Um cara entrou na igreja e começou a instalar um teclado na caixa de som. Lembrei de uma tecladista que tocou certa vez num casamento. Era cega. Uma coisa linda. Um dia ainda como uma ceguinha. Direi que sou bonito, ela vai acreditar, e faremos amor no escurinho. Essa ideia me deixou de pau duro. Bem que eu toparia uma trepada na igreja. Só acho que não seria nada original. Então uma beata ouviu meus pensamentos e se aproximou.

- O senhor pode nos ajudar?
- Desculpa, não sou católico, eu só tô…
- Pra colocar a cortina. É que somos baixinhas.
- Cacete, vamos lá.

A beata me levou até uma pequena sala. Havia mais duas velhinhas ali dentro. Apontaram os ganchos da cortina lá em cima e a porra de uma escadinha enferrujada.

- Mas esse negócio não vai me aguentar – eu disse.
- É uma boa escada.
- É que sou pesado.
- Quer que eu segure o queijo?
- Tudo bem.

Então botei o pé no primeiro degrau, e a escada começou a tremer e a ranger. “Pode ir, a gente tá segurando!”. Voltei a sentir aquela sensação de paz e tranquilidade. Não havia mais nenhum sinal de medo naquela sala. Subi a escada, encaixei a cortina no primeiro gan-CRAABUUMMM! Foi tudo muito rápido. Logo a porra da escadinha estava partida ao meio e eu estirado no chão.

- PUTA QUE PARIU!
- Valha-me, Nossa Senhora!
- CARALHO!
- Jesus, Maria e José!
- BUCETA!
- Ajuda ele, Isaura! Ajuda ele!
- TÔ ALEIJADO PORRA!

Bem, era apenas uma puta dor nas costas. Mas eu ainda estava vivo.

- Desculpa pela escada. Mas preciso ir agora.
- Não entendi. Era uma escada tão forte.
- Me passa o queijo.
- É que ele é pesado.
- Bom natal pra vocês.

Quando deixei a igreja, a rua estava mais calma. O sol já estava se pondo. Cheguei em casa e liguei a TV. As costas aindam doíam. Resolvi tomar um banho quente. Depois abri a lata do queijo cuia, cortei três toras de queijo e coloquei num pão. Passava uma retrospectiva dos gols mais bonitos do ano. Depois entrou esse comercial do chester da Seara. Enquanto preparava o chester, uma mãe branca conversava com sua pequena filha negra. Falava sobre carinho, amor e cumplicidade. Bem, não tinha Papai Noel, renas ou duendes. Mas acho que vendia essa coisa do Natal.

10.12.12

Esquece, Arnô

Alguns anos são mais complicados. Naquele tempo eu dividia as minhas horas em entrevistas de emprego e deitado no sofá. Com tempo de sobra, eu também conseguia assistir o Intercine todos os dias. Mas nunca cheguei a ligar para escolher o filme. Numa daquelas madrugadas, o telefone tocou. Era o Arnô. Um velho amigo que também só andava com os bolsos vazios.

- Tá assistindo o Intercine? – Disse
- Tô.
- Eu sabia. Eu também.
- E aí?
- Precisamos fazer alguma coisa.
- Do que você tá falando?
- A gente precisa trabalhar. Ganhar dinheiro.
- Eu tento, mas eles não me querem.
- Vamos abrir uma agência?
- Como assim, abrir uma agência?
- Você não é formando em publicidade?
- Relações Públicas.
- Que porra é essa?
- Eu também não sei.
- Acho que teríamos uma boa agência.
- Eu não sei o que precisa para montar uma agência.
- Podia ter paredes coloridas, e a gente ia tocar violão a tarde toda.
- Esquece, Arnô.
- Então vamos abrir um escritório de engenharia.
- Engenharia, eu?
- Acho que dá certo. Eu tô quase formado. E podia ser engenharia com webdesign. Você não mexe com esse negócio de Corel, porra?
- Esquece, Arnô.
- Já sei. Televisão.
- O quê?
- A gente podia ter um programa de TV e contar várias piadas, várias histórias.
- Puta que pariu, Arnô.
- Falar nisso, você precisa conhecer Seu Totonho. Ele sabe cada história engraçada.
- Quem é seu Totonho?
- O velho que consertou meu bandolim.

 Isso já faz quase uma década. Arnô já ligou mais algumas vezes com outras propostas. Já me chamou para abrir uma loja de peixes, uma casa de bonsai, um bloco de carnaval, um puteiro em brotas, uma franquia do habib's e um cursinho pré-vestibular via internet. Certa vez insistiu que devíamos mandar um email com nossos currículos para a TV Bandeirantes para trabalharmos no CQC. Não sei se Arnô é louco ou algum tipo de gênio. Só sei que para a grande maioria das pessoas todos os anos são complicados. O mar nunca está calmo. Tenho amigos procurando emprego. Tenho amigos infelizes em suas mesas. Chegamos aos trinta e poucos e ainda não avistamos a terra firme. Onde é a linha de chegada? É uma pergunta idiota. Porque o mundo vai estar sempre lá fora dizendo, “Vamos, desgraçado, não pare de nadar”.

Enquanto isso, Arnô segue seu caminho. Hoje me mandou um email propondo sociedade num projeto para mudar o futebol baiano e talvez revolucionar o futebol mundial. O projeto tinha três linhas. Respondi: “Esquece, Arnô. Para mim, o futebol está perdendo a graça”. Também já atravessei várias noites buscando uma ideia que transformasse meus dias. Então percebia que eu não sabia fazer nada. Bem, é verdade que consegui entrar numa agência de propaganda. Tem até um violão sobre a mesa. Mas só sei tocar as mesmas músicas de sempre.

19.11.12

Os últimos centavos

Era minha última noite em Feira de Santana. O último round. E eu estava esgotado. Deixei a agência sem me despedir. Caminhei pela avenida morta sem uma noção exata de futuro. Sem grandes objetivos, ao não ser o de me livrar da cidade. Entrei numa delicatessen encardida. Comprei um bauru e uma garrafa de vinho. Continuei caminhando até encontrar essa trabalhadora embaixo de uma árvore. Perguntei como estava a carne. Setenta, sem o toba. “Vamos nessa” – eu disse – “E ainda tenho aqui pra gente uma garrafinha e um bauru sensacional”. Ela disse que topava o bauru, mas que não bebia em serviço. Então minha nova e última amiga de Feira me seguiu na avenida. Logo estávamos abrindo a porta do meu quarto.

- Cara, você dorme numa esteira – ela disse.
- Mas o chuveiro é quente, baby.
- Ah, você comprou o bauru na Deli-Deli. É o melhor da cidade.
- Vamos combinar o seguinte. Eu emborco meu vinho e você chupa.
- Tudo bem.

Meu último suspiro em Feira. De calça arreada e virando uma garrafa de vinho no gargalo enquanto uma puta fazia seu bocketshow. Era uma jovem bonita e esforçada. Mas o show era amador e sem jeito. Aquela maldita pressa das putas baratas. Eu apenas bebia. Não sentia nada. Tomei mais um gole e a mandei ficar de quatro. Ela obedeceu e se jogou na esteira. Botei a porra da camisinha e me aproximei.

- AAAAAAHHHHHHH, DELÍCIA!
- Calma, caralho! Eu nem meti ainda.
- Ah, tá.
- Agora receba!
- YAHHHHHHH!! UUUOOOHHHHHH!!, VAAAAIIIIII, DELÍCIA!
- Mais baixo, porra! Dona Zeni é evangélica.
- Dona Zeni?
- A senhoria. Ela mora embaixo e é chata pra caralho.
- Ah, desculpa.
- Outra coisa. Não me chame de delícia.
- Você não gosta, paixão?
- É que tenho certeza que não sou delícia. E eu sei que você não me acha delícia. Então não precisa fingir que sou delícia. Vamos jogar limpo. Vamos agir naturalmente.
- Tá bom, paixão.
- Sem paixão também.

Comecei a meter. Mas a coisa ainda não funcionava. Eu fazia força para me concentrar. Fechei os olhos e pensei na Vera Fischer de Riacho Doce, na Mônica Bellucci sendo estuprada e na dona Marta, que servia quentinha na agência. Mas era um vai e vem sem propósito, um movimento automático de carne sem vida. Eu me derretia em suor e sabia que não conseguiria gozar. Talvez já fosse o vinho fazendo efeito. Quando os abri os olhos, percebi que enquanto eu metia alucinadamente, ela lia e fazia anotações numa revista da Avon. Parei e enxuguei o rosto. Virei mais um golada do vinho e deitei ao seu lado.

- Que foi? Não tá conseguindo? – ela disse.
- Mais tarde bato uma.
- Me passa o bauru.
- Qual o caso da revista?
- Eu também vendo Avon. Comecei agora.
 - Reparou que todo mundo em Feira tá sempre negociando alguma coisa?
- Quer pedir alguma coisa? Vem dia 28. Eu posso trazer aqui.
- Pode ser uma daquelas promoções de desodorante roll-on.
- Massa. Deixa eu anotar.
- Se eu não estiver, pode deixar com Dona Zeni.
- Humm. Esse é o melhor bauru que existe. Quer um pedaço?
- Tô enjoado.
- Você é legal.
- E você, uma délicia.

Logo depois, paguei o serviço e ela deixou o quarto. Não passava nada na velha Toshiba 14 polegadas. Matei o vinho e fiquei na janela observando a pobreza da rua. Era uma noite sem charme. Como todas as noites naquela cidade. De certa forma, pude viver Feira de Santana. Pulando de pensão em pensão, escapando com vida de um colega de quarto psicopata, perseguido por um ex-marido ciumento e estúpido, brigando em mesas de dominó, perdendo o salário em mesas de poker e vivendo a base do pastel do tio da unha preta. Eu tinha 20 e pouco anos e aprendi bastante. Sobre oportunismo, desonestidade, traições, manobras, mesquinhez, artifícios e fachadas. Dizem que Feira é um dos maiores polos de desmanches de carros roubados do Brasil. Não tenho certeza. As pessoas exageram. Só sei que eu sentia pena dos desmanchadores de carros, dos ladrões de carteira e das putas de Feira de Santana. Eles estavam cercados. Aquela cidade amava o dinheiro. E eu fazia questão de não levar comigo nenhum centavo que lembrasse suas avenidas, seus negócios e escambos. Eu ainda tinha 30 conto no bolso. A passagem para Salvador era 25 reais. Então abri a porta e desci as escadas. Atravessei a rua e fui até o copo sujo da esquina. Pedi uma garrafa de vinho. A mais barata. São Jorge. R$ 4,25. Restariam ainda no meu bolso 75 centavos daquela cidade. Mas ao deixar o boteco, atirei as duas malditas moedas no esgoto. De volta para os ratos.

30.7.12

A punheta da vida

Meu sonho era comer Andrea Canivete. Eu devia ter 17 ou 18. Era uma das putinhas mais avançadas da área. Diziam que chupava como uma profissional. Só que eu já era gordo e suficientemente feio. Essas coisas não aconteciam comigo. Até que uma noite, depois de uma festa, ela me deu uma chance. Estava bêbada. E aconteceu uma coisa estranha. Não consegui gozar. Eu estava lá, todo enfiado no meio daquelas pernas, e pensava, “Nossa, estou comendo Andrea Canivete”, mas não chegava a lugar algum. Tentei de tudo, mudamos de posição, eu suava feito um porco, mas Andrea disse, “Cara, desista!”. A vida é mesmo uma grande punheta. Passamos a maior parte dela nos preparando, nos aquecendo para o que estar por vir, colecionando ferramentas em formatos de sonhos, expectativas, especializações e promessas de amor, e, no fim da contas, nada disso serve para grande coisa, e você ainda acaba vendo tudo aquilo que você era escorrer lentamente pelo ralo. Não tenho conseguido segurar o blog. Na verdade, não venho escrevendo nada. Nem uma linha. Hoje, esse amigo cineasta ligou. Cobrava os diálogos que lhe prometi para seu curta. Um projeto interessante. Era minha chance de me ligar a algo que realmente valesse à pena. Não saí do lugar. Página em branco. O texto simplesmente não flui, não corre solto. Meus dias seguem – ou não seguem – da mesma forma. Tem essa coluna fudida que não me permite ficar sentado por muito tempo. Mas não consigo concluir os exames. Da última vez, não resisti à tortura da sala de espera e caí fora. Por que diabos toda clínica sintoniza a TV na Ana Maria Braga? A burocracia do plano de saúde também é violenta. Tudo é muito demorado, lento, perverso. Algo pior só nas ruas de Salvador. Já calculo uma hora para chegar a qualquer ponto da cidade. Parece uma corrida estúpida. Se um dia despertássemos todos transformados em baratas, talvez o trânsito fosse menos asqueroso. É a punheta da vida. Uma força que nos impede de seguir em frente, do dia correr macio. É aquela sensação de ter nosso tempo estrangulado por uma reunião de trabalho ridícula e desnecessária. Ou um cliente que vai e volta dezenas de vezes o mesmo layout, optando no fim pela primeira opção.  Mas tenha cuidado. A punheta da vida está em qualquer lugar. No trânsito, na TV, no Facebook, no telemarketing, na conta que você se esquece de pagar, no caixa, na fila do banco, no celular sem sinal, nos imbecis que apertam o botão errado para chamar o elevador, na página em branco ou num pote de biscoito que você não consegue abrir nem com a porra. São dez e pouca da noite. Abro minha caixa de emails, e tem lá uma mensagem do editor. Falava sobre metas, prazos, custos, algo assim. Parece que o livro não sai mais esse ano. Interessante saber disso ao mesmo tempo que percebo que o blog está morrendo. Lembrei de Andrea Canivete. Não tenho sono. Para estender a noite, resolvo abrir um site de sacanagem. Andrea Canivete, onde quer que esteja, ainda penso em você. Sua puta.

11.7.12

UTI

É o tempo escasso. É a falta de talento. Tem também essa coluna fudida que não me deixa ficar muito tempo sentado. Sei que não venho conseguindo escrever. Infelizmente, sinto que esse blog está agonizando. Vou tentar ainda alguma coisa, quem sabe. De qualquer forma, quem tiver interesse pode acompanhar a fanpage do Espalitando Dente.
Por lá, rolam alguns arrotos. A maioria de muito mau gosto, mas tem alguns bacanas.
    

17.6.12

Gordos

Aline era fogo. Chupei, enfiei o dedo, meti, gozamos juntos três vezes. Depois ela veio com aquele peitinho balançando querendo a quarta seguida. Eu disse, “Porra, vai bater sua siririca e me deixe em paz!”. Então Aline tocou seu guita hero, depois fumou um baseado, vestiu seu jeans de marca e bateu a porta. Fiquei ali deitado por um tempo. Depois limpei o cacete no lençol, me levantei e tomei a Coca-Cola da vitória. Foi quando o telefone tocou. Era o Ribas. Disse que havia encontrado um lugar que eu precisava conhecer. Parece que tinham inventado uma fórmula mágica ou um sistema inovador para perder peso. Não tinha nada para fazer naquela tarde. Não custava tentar.

Ribas era gordo e taxista. Mas passava a vida estudando para concurso público. Boa praça. Bom de copo. O típico gordinho amigo de todos. Também vivia procurando uma nova dieta milagrosa. Encontrei-o encostado em seu táxi na porta do local. Com sua barriga redonda e sua cara sacana de feliz.

- Grande Boninho!
- Tomara que essa parada seja boa mesmo, Ribão. Tô puto.
- Qual o caso? Mulher?
- Não. Vim em pé no ônibus.
- O negócio funciona, Boninho.  Já perdi 15 quilos.
- Pra mim, você tá a mesma merda.
- Mas já consigo trepar com Fátima de ladinho.
- Bem, isso é importante. Vamos lá.

Pelo que entendi, não havia nada de inovador no tal sistema de emagrecimento. Era só uma espécie de clínica. Colocavam num só lugar tudo que um gordo precisa para emagrecer. Eles ofereciam academia especializada, nutricionistas, endocrinologistas, psicólogos, terapeutas, mágicos e refeições insossas que vinham em caixinhas na quantidade certa. Além disso, faziam essas reuniões periódicas com algum magro falando para um bando de gordos tudo que ele fazia para ser magro. Naquela noite, era uma dessas reuniões de apresentação. Havia essa putinha gostosa de branco sentada em frente a um semicírculo de gordos. Ribas e eu sentamos nas últimas cadeiras. Então a putinha começou a falar sobre aquele método pós-moderno para emagrecer. Você podia ler na cara dos gordinhos a culpa, o medo, o desespero, o arrependimento. Eu também já estava arrependido. De repente, aquilo tudo começou a me deprimir. Todos os aqueles gordos reunidos. Homens e mulheres atrás de esperança, de uma nova chance de rir de verdade, do sonho de serem espontâneos. Porque o grande Ribas não me enganava com aquela sua gargalhada. No fundo, todo gordo é triste. Acontece que alguns sabem disfarçar. Mas talvez sejam esses os mais infelizes. Uma vez, um escroto engravatado me disse – “Gordo que é feliz, que não precisa mais se preocupar com o que come”. Eu disse – “Porra nenhuma. Eu preferia ter comido mais bucetas nessa vida”. Na verdade, ser gordo é motivo de pânico. Outro dia, no elevador, duas putinhas conversavam sobre academia. Uma delas disse – “Ficar gorda? Prefiro morrer de fome” – Depois notaram minha presença e ficaram constrangidas. E eu disse – “Tudo bem, também tô querendo me matar”. Podemos dizer que gordo é uma piada universal. Uma anedota permitida por lei. Somos sacaneados até pelos negros, judeus, gays, amputados e pacientes com câncer em fase terminal. E deve ser tudo mais difícil para as mulheres. Depois de um viralata faminto, para mim, a coisa mais triste é uma jovem gorda passeando pela praça. Sem ser desejada. Sem ser notada. No fim das contas, mais do que ser comida, toda mulher quer se sentir comível. Talvez por isso as gordinhas sejam safadas. Porque elas precisam se esforçar ainda mais, rebolar ainda mais, chupar ainda mais. Quero dizer, as putinhas pesadas são agradecidas e estão sempre dispostas para qualquer batalha.

Passei o restante da palestra apagando mensagens do celular e jogando meleca no chão. Depois a putinha de branco inventou que nós, os gordos, deveríamos sentar em duplas, um de frente para outro. E cada dupla conversaria sobre suas experiências pessoais, seus fracassos, essas merdas de todo dia. Ribas achou uma gordinha charmosa com cara de boqueteira. Fiquei com essa gordinha de óculos com ar de cola-velcro. Ficamos ali nos encarando por alguns segundos.

- Você não acha isso aqui uma coisa muito louca? – eu disse.
- Tô achando legal.
- Esses gordos reunidos. Parece que vão matar a gente. Você assistiu a Lista de Schindler?
- Qual é o seu problema?
- Ham?
- Qual o seu problema com a comida?
- Nenhum. Pelo contrário. Gosto pra caralho de biscoito. Acho que ninguém come biscoito mais rápido do que eu. Você acredita que uma dia comprei um Passatempo recheado pra ver o jogo do Brasil. Abri assim que Galvão Bueno disse “Bem amigos da Rede Globo”. E matei o pacote antes de terminar o hino nacional?
- Meu problema é minha mãe.
- Sua mãe?
- Ela é gostosa.
- Gostosa?
- Magra, loira, tipo gostosa pra caralho. Todos os homens querem fodê-la. Você não sabe o que é pra uma filha saber que sua mãe, com 20 anos a mais, é muito mais gostosa que ela. Aí toda vez que vejo algum amigo meu dando em cima de minha mãe, fico deprimida e acabo atacando um pote de sorvete.
- Tem uma foto dela?
- Aí parece que entro num tipo de competição. Dou em cima de todos os homens que olham pra ela. Já trepei com vários assim. Dou tudo que eles querem. Duvido que minha mãe foda mais gostoso do que eu, entende? Desculpa. Sei que tudo isso é horrível…
- Não, não, claro que não.
- No fundo, eu amo minha mãe.
- É o seguinte. Isso aqui é deprimente. Que tal ir lá pra casa?
- Ham?
- Lá tem um sofá bacana. A gente pode falar mais de sua mãe. Pedir uma pizza. Um sorvete, se você preferir.
- Você quer dizer trepar?
- Pode ser também.
- Desculpa, cara. Não vai dar. É que você não é nem um pouco atraente, sabe? Não é só porque você gordo. É você como um todo. Sei lá. Transar com você ia fuder ainda mais minha autoestima.
- É, faz sentido.

Acabei não ficando no método revolucionário de emagrecimento. Ser gordo talvez seja o novíssimo mal do século. O problema é que também sou preguiçoso. Então continuo gordo. Além disso, eles cobravam 800 conto para dizer o que eu precisava fazer para perder a barriga. Aquilo não era para mim. Mas a meta do Ribas era perder mais 15 quilos. Talvez ele conseguisse. Ribas é uma boa pessoa. Merece ser magro. Quanto a mim, naquela noite, preferi não dormir cedo. Disquei o número de Aline. Ela apareceu e fizemos também cachorro-quente. 

20.5.12

Meu tio Geraldo

Eu estava longe das agências já há algum tempo. Andava batendo a cabeça numa série de entrevistas de emprego. Me sentia um parasita, o mais inútil dos gordos. Foi quando uma velha tia me ofereceu trabalho. Como vendedor. Na sua pequena fábrica de biscoitos artesanais. Bem, eu precisava de dinheiro. Resolvi encarar. Na primeira semana, me mandaram para a Ceasa do Rio Vermelho. Eu e um motorista numa Kombi velha lotada de sequilhos. Eu tinha que ir de loja em loja oferecer a mercadoria, anotar os pedidos, voltar até a Kombi, carregar os fardos de biscoito, distribuí-los e pegar o dinheiro. Não parecia tão difícil. Ataquei a primeira. Delícia da Terra, Doces da Bahia, uma coisa dessas. Havia esse coroa bigodudo cortando requeijão.

- Bom dia, chefe – eu disse – vai querer biscoito?
- Só um minuto!
- Tudo bem.

Encostei no balcão de azulejo e observei o lugar. Aqueles homens e mulheres da Ceasa, carregando fardos e caixotes de frutas e outras especiarias, aquelas pessoas trabalhavam sem ar-condicionado, suavam de verdade. Ainda assim pareciam autênticas e felizes. Ou pelo menos pareciam. Passaram-se vinte minutos, e o bigodudo não me atendeu. Ficava cortando a porra do requeijão, atendia clientes e outros vendedores, mas me ignorava completamente.

- Vai querer o biscoito, campeão? – insisti.
- Tá com pressa, rapaz?
- Só acho que o senhor esqueceu de mim.
- Baixe o tom, garoto!
- Mas eu não tô falando alto.
- Que porra de biscoito velho você tem pra me mostrar?
- Essa belezura aqui.
- Mas quem vendia esse era o finado Geraldo.
- Ele era meu tio.
- PORRA NENHUMA!
- Porra nenhuma o quê?
- Que Geraldo era seu tio.
- Meu tio.
- Duvido.
- Mas era.
- Eu não acredito em você.
- Por parte de pai.
- PORRA NENHUMA!
- Caralho...
- Geraldo era profissional, porra. Sabia conversar, negociar, o melhor vendedor que tinha aqui. Fazia seresta pra gente com o saxofone. Todo mundo gostava dele. Geraldo era boa praça, gente fina. E você é...
- Vamos abri o jogo, amigão. Não sou gente fina. Não sou vendedor. Mas facilite meu processo. Vai querer o biscoito?
- NÃO VOU QUERER BISCOITO PORRA NENHUMA!
- Então se foda.

“DIZ ELE QUE É SOBRINHO DO FINADO GERALDO!” – o bigodudo disse enquanto eu deixava a loja. Ainda escutei alguns risos. Dei mais alguns passos, e apareceu esse viado com um lenço amarrado na cabeça.

- É verdade que você é sobrinho de Geraldo?
- Desculpa, amigo. Só gosto de xoxota.
- Que horror.
- Vai querer biscoito?
- Eu só trabalho com flores.
- Tudo bem.
- Sabe, eu tenho saudades do seu tio.
- Ele continua no cemitério. Por que não leva flores pra ele?

Depois ataquei mais algumas lojas, mas não tive sucesso. Não consegui vender nada. Na verdade, as pessoas mal me recebiam. Eram quase 12 horas. Resolvi parar pra comer. Sentei num copo sujo por ali mesmo. Pedi um PF e uma Coca-Cola. De garrafa. O gosto é bem melhor. Sentei do lado de fora. Mesa de plástico, um calor dos infernos, um vira-lata transitava procurando restos. Parecia pensar em suicídio. Uma putinha trouxe o PF e a Coca. Um prato bem servido. Dois pedaços grandes de bife. Cheguei a me sentir melhor. Mas quando olhei, o bife de baixo era puro nervo. Paciência. Eu estava no meio das garfadas, quando essa morena sentou na minha frente. Carnuda, bronzeada, um belo decote.

- Ouvi dizer que você é sobrinho do Geraldo.
- Por parte de pai.
- Lembra um pouco. A cabeça redonda.
- Ele era mais alto.
- E mais classudo.
- Quer um copo?
- Eu era louca por seu tio.
- Um desgraçado sortudo.
- Ele também era louco por mim.
- Tinha motivo.
- Eu morro de saudades da Geraldina.
- Que Geraldina?
- Como era conhecida a pirocona dele.
- Eu nunca tinha ouvido falar da Geraldina.
- Sabia que ele gostava de tocar o sax enquanto eu chupava a Geraldina?
- Bem, eu não sei tocar sax. Mas posso te apresentar a Bonete.

Então a morena inclinou o corpo e agarrou meu pau sobre a calça. Apalpou. Eu tomei um gole da Coca. Depois ela largou.

- Pelo jeito, você não parece nada com seu tio.
- Se você parar pra pensar, a Bonete é sobrinha da Geraldina.
- Acontece que eu tô com fome e a Geraldina enchia o meu prato.

A morena se levantou e eu fiquei ali. Dei mais algumas garfadas. Então comecei a palitar o dente. Eu já estava com quase trinta. Para alguns, as coisas pareciam mais fáceis. Podia ser uma questão de sorte. Ou o problema era minha cara de idiota. Era o mais provável. Foi naquela mesa que pensei que um dia eu podia tentar escrever sobre aquilo tudo. Não digo sobre o tio Geraldo. Mas sobre quem não sabe vender biscoito ou consertar um carro ou escrever um título criativo ou construir uma casa ou pintar um quadro, sei lá. Podia contar sobre como quando as coisas não dão muito certo, sobre aqueles que nunca venceram. Esses são a maioria. A tarde seria longa. Eu tinha que voltar pra Kombi. Então matei a Coca-Cola e joguei o resto da carne para o vira-lata.        

22.4.12

Que porra é protusão discal?

Dor nas costas. Uma dor terrível. Não podia sentar, ficar de pé, caminhar, deitar, escrever, tomar banho, abrir a geladeira, abrir uma Coca-Cola, peidar, respirar, olhar o horizonte, eu não podia existir sem sentir essa dor, como uma espada cortando meu fôlego. Resolvi procurar um médico. Plano de saúde fudido. Só tinha vaga para duas semanas depois. No dia, apareci no consultório. O cara me mandou inclinar a coluna pra frente e pra trás, depois disse:

- Não é nada, filho.
- Nada como?
- Só um desgaste da coluna. É da idade.
- Mas só tenho 34.
- É a vida. Vou passar uns comprimidos, vai dar tudo certo.
- Mas tô quase partindo ao meio.
- Outra coisa: você precisa perder peso, isso sim.

Foram menos de 5 minutos. Acho até que saí pior do consultório. Os dias se passaram e a coisa só fez piorar. Além da dor nas costas, começaram a vir esses choques na perna. Eu podia estar em qualquer lugar, que de repente sentia a dor se transformando numa carga elétrica e se alastrando pela perna. Resolvi procurar outro médico. Só havia vaga para duas semanas depois. No dia, apareci e fui logo atacando.

- Me ajuda. Acho que tô ficando aleijado!
- Calma, rapaz. Me conta aí.
- Tem essa dor forte nas costas que depois vira um choque escroto na perna.
- Hiii...você disse choque escroto na perna?
- Pelo amor de Deus. Foi isso mesmo que eu disse. Choque escroto na perna. Por quê?
- Tá me parecendo hérnia.
- É grave?
- Eu tive um paciente com hérnia. Um dia ele tava atravessando a rua, a hérnia atacou, ele simplesmente travou, não conseguia mais andar...
- Sério?
- Ficou ali, parado no meio da rua...
- Que merda...
- Aí veio uma Fiorino e atropelou ele.
- CARALHO!
- Brincadeira...não veio carro nenhum.
- VÁ SE FUDER, DOUTOR!
- Falando sério. Hérnia, se não cuidar, o bicho pega. Vou pedir uma ressonância magnética pra ver o que você tem.
- Vamos nessa.

Pedir autorização do plano. Esperar autorização. Marcar exame. Dez dias depois, lá estava eu fazendo a ressonância. Me deram um short verde-bebê ridículo. O short ficou tão apertado que eu mal conseguia andar ou mesmo erguer a perna para subir na mesa. “O senhor tem mais de 120 kg?” – perguntou o viadinho da ressonância. Eu disse, “Vamos em frente, campeão. Eu tô no jogo”. Eeitei, e eles ligaram a máquina. Eu estava sendo engolido pelo aparelho. Praticamente entalado ali dentro. Depois veio o barulho imponente e ensurdecedor. No início, pensei que ia enlouquecer. Depois fui me acostumando. E comecei a me sentir bem. Lá fora estavam a conta do condomínio, a carteira vazia, a falta de perspectiva para um redator em Salvador, a hipocrisia, o cinismo, a tragédia, meus 34 e conta do plano. Não escutava nada além daquele barulho, nem uma nota de pagode. Há muito não me sentia tão vivo, como naquele instante. Eu poderia morar dentro daquela máquina.

Mais dois dias, depois um feriado prolongado na Bahia, o resultado ficou pronto. Liguei para o médico. Estava em um congresso lá na casa da porra. Esperei mais uma semana. Levei os exames.

- Pelo que tô vendo aqui, você vai poder atravessar a rua tranquilo.
- O senhor vai bem nas piadas, chefe. Mas o que é que tenho?
- Só uma protusão discal na L4-L5l.
- Ok. Que porra é protusão discal?
- Quase uma hérnia. Vai ter que fazer RPG e fisioterapia.
- Fala a verdade, eu vou ficar aleijado.
- Você precisa perder um pouco de peso, isso sim.

O plano não cobria as sessões de RPG e de fisioterapia ao mesmo tempo. Decidi fazer o RPG por ser novidade. Ainda não entendi direito do que se trata. Só sei que fico lá com as pernas penduradas pra cima, enquanto a doutora estica minha coluna. Por sinal, uma bela doutora. Passo a sessão toda concentrado para não peidar na cara dela. Bem, lá se foram as últimas semanas. Crianças cheias de vida brincando lá fora, enquanto por aqui eu seguia apodrecendo, perdendo a cor e forma. É a vida. O cronograma. Gordo, careca, semicego, especialista em crises de calculo renal, a caminho de uma hérnia de disco e deitado de lado vendo meu time levar na bunda na Libertadores de uma maneira ridícula. Alguém me mate, por favor.