Lojas de conveniências, essas dos postos de gasolina, são uma facada. Mas era minha única opção. Já passava de uma da tarde. Sentia fome. É impressão minha ou nessas lojas tudo parece mais gostoso? O mesmo pacote de Bono que tem em qualquer mercado, ali, naquela prateleira, ao lado do Cookies da Nabisco, parece mais gostoso, parece brilhar mais. A diferença é que é o triplo do preço. Eu procurava um sanduíche. Havia um monte deles naquela geladeira. Parecia uma geladeira mágica. Havia os de ricota, mas não sou viado. Peguei um de filé mignon. Fui até a outra geladeira mágica e peguei uma Coca-Cola. Foi quando vi aquela bunda. E meu pau subiu. A mulher tinha uma bunda, que vou lhe dizer. A loira parecia uma daquelas dançarinas do Faustão. Era um chicote grande e matematicamente perfeito. A cavala vestia um jeans apertado, que era possível perceber a calcinha enterrada no fofinho. Fingi olhar o preço do pão de mel só para ver aquele rabo mais de perto. A jumenta pegou um Doritos. Era uma safada. Se ela me desse uma chance, não ia ter muita conversa. Eu falaria logo, de quatro, de quatro, fica logo de quatro, pelo amor de Deus. Mas acho que eu teria bater uma bronha antes. Senão era botar e gozar. Se bem que nem sei se eu conseguiria comer aquela jega. Tanta bunda, tanta carne, esse meu pauzinho de merda talvez nem alcançasse a terra prometida. Pensei até em dar minha Coca-Cola a ela. Quando ela perguntasse, o que é isso? Eu diria, parabéns, você é a mulher mais rabuda da cidade. Foi quando escutei:
- Encosta aí, gordo.
Era um assalto na loja. Um assalto de verdade. Dois caras. Um deles vestia uma camisa do Flamengo, uma camisa antiga, acho que de 95. Estavam armados. Enquanto o outro pegava a grana do caixa, o flamenguista mantinha os clientes e outros funcionários encostados no balcão do cachorro-quente. Sou frouxo como a porra nessas horas. Lembrei de outros assaltos. Pensei que fosse morrer. Até comecei a rezar. Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso, aquele rabo, seja o vosso nome, bundão da porra, meu Deus, Pai nosso que estais, seja feita a vossa, te lasco toda, vagabunda, seja feita a vossa vontade, santificado seja aquele rabo que estava bem na minha frente. Nunca comi e sei que nunca comerei uma mulher daquelas. E se eu pedisse com humildade? Por favor, deixa eu te comer, por favor, por favor, só uma vezinha, na moral, eu meto, tiro e pronto, fica só entre a gente, ninguém vai saber que você deu sua bunda linda e maravilhosa para um gordo feio e asqueroso. Se eu comesse aquele rabo, poderia levar dois tiros nessa minha barriga mole e nojenta, que já teria cumprido meu papel nesse mundo.
- O celular, gordo, passa o celular – disse o flamenguista.
Entreguei meu celular.
- Puta que pariu, pode ficar com essa porra.
- Foi mal, cara. Só tenho esse.
Então os caras terminaram o trabalho. Saíram correndo em direção à Pituba. Eu estava vivo ainda. Aos poucos os ânimos se acalmaram. Só a putinha do caixa ainda estava chorando. A mulher mais rabuda da cidade perdeu o celular, mas pagou seu Doritos e deu o fora. Fui até o caixa. Aproveitei e peguei um Trident. Do verdinho, sabor planta. Um sanduíche, uma Coca-Cola e um Trident. Dava R$ 8,30. Passei o cartão. A chorona disse, desculpa, senhor, mas o cartão não foi autorizado. Era fim de mês. Então dei 1,30 à putinha e levei o chiclete.
15.11.09
1.11.09
Mais do Mesmo
O de sempre. Me arranjaram mais uma entrevista de emprego. Saí uma hora antes. Estava sentado no ponto quando a putinha veio e sentou ao meu lado.
- Oi – ela disse.
Pronto, pensei, vou ser assaltado. Mulheres bonitas não falam comigo assim, do nada.
- Oi – respondi.
- Não tá lembrado de mim? – ela disse
Porra, pensei, nunca me lembro de ninguém.
- Da Academia do Corpo – ela disse – malhamos juntos um tempo. Depois você sumiu.
- Ah, claro, da academia. Me lembro de você.
- Era engraçado, você reclamava de tudo, os aparelhos, até da música, lembra?
Claro, pensei, agora lembro bem de você, gostosa, lembro que bati umas duas em sua homenagem.
- É – eu disse – esse negócio de academia me irrita um pouco.
- Ah, lá vem meu ônibus – ela disse – tchau.
- Tchau.
Quando vi a putinha de costas, subindo no ônibus, lembrei que não bati apenas duas, mas sim umas sete bronhas em sua homenagem.
Logo depois passou o velho Pituba. Não estava cheio. Mas não havia muitas opções. Sentei ao lado de uma mulher sem graça. Mais uma entrevista de emprego. Não custava nada tentar. A não ser o dinheiro do busu. 2,20 para ir. 2,20 para voltar. Se ao menos o cobrador fosse o Vitorinha. Um velho amigo cobrador de ônibus. Ele tinha um esquema com um cartão de estudante. Passava o cartão na máquina e dizia, pode passar, Flamenguinho. Eu só precisava pagar um pouco mais da metade da passagem. Se fosse hoje, por exemplo, eu daria 1,50 e ficaria tudo certo. O esquema era só para os camaradas. O motorista também estava no jogo. Nunca fui muito adepto desses esquemas. Mas é aquela coisa, donos de empresas de ônibus têm mais que se fuder. A mulher ao meu lado, a sem graça, se levantou e tentou abrir a janela. Não conseguiu. Fingi que não vi. Vai que tento abrir a porra da janela e não consigo. Ficaria todo mundo do busu pensando, olha só, que gordo lerdo. Mais adiante entrou um carinha vendendo paçocas e jujubas. Esses caras, os baleiros, quando não há crianças por perto, sempre vêm pro meu lado. Fingi que não o vi. Logo depois chegou meu ponto.
Era um prédio moderno. Bacana. Duas torres e tal. Havia um mal encarado no balcão da recepção. Terno e gravata. “Agência de Comunicação é décimo primeiro, não é campeão?” – perguntei. Ele confirmou com a cabeça. Havia dois carinhas no hall do elevador. Um era office-boy, branco e baixinho. O outro era alto, negro, gordinho e tinha cara de abestalhado. Entramos os três no elevador.
- Você conhece o negão da recepção? – me perguntou o gordinho.
- Não.
- Ele te deixou passar na boa. Pra mim ele pediu meu RG.
O boyzinho com cara de jóquei olhou para trás, sorriu e deixou o elevador no terceiro andar.
- Anotou meu RG e gravou meu rosto numa câmera – disse o gordinho.
Quase mando o gordinho deixar de viadagem e acordar para a vida. Quase digo a ele que o mundo é uma lata lixo repleta de ratos. E que apesar de serem todos ratos, alguns são mais nojentos que os outros, é o caso dos negros, dos gordos, dos viados e dos caolhos. E era isso que as pessoas achavam dele, o viam como um grande e nojento tolete preto de bosta. Quase digo que esse papo de Obama é uma puta balela. Não há nada de novo. A sacanagem continua. Os olhares atravessados continuam. As piadas continuam quando ele sai da sala. Quase que digo que tem pessoas que não fodem com negros por nojo ou princípio. Quase digo que ele era um bandido em potencial não apenas para o porteiro, mas para a copeira, o encanador, a faxineira, o advogado, a publicitária, o engenheiro, o dono do prédio, o dono da rua, o prefeito, o governador e o turista. Se vacilar, até a mãe dele o condenava por ter cabelo ruim. Eu queria dizer para o gordinho que ele não ligasse, mandasse o mundo todo se fuder. Mas como é que não liga, se essa porra dói feito pedra no rim? Quer dizer, nem tanto, mas dói pra caralho.
- É a segunda vez que venho aqui – menti pro gordinho.
- Segunda vez?
- Ontem ele me pediu a carteira e filmou minha cara.
- Ah...
- Entrevista de emprego...
- Ah, tá...
- Essas dinâmica de grupo, a semana toda, sei que não vou passar...
- Pô, boa sorte...
Deixei o elevador no décimo primeiro. Sala 1103. Apertei a campainha. A porta se abriu. Eu disse, boa tarde, a putinha da recepção respondeu. Outra entrevista, pensei, essas coisas cansam.
- Oi – ela disse.
Pronto, pensei, vou ser assaltado. Mulheres bonitas não falam comigo assim, do nada.
- Oi – respondi.
- Não tá lembrado de mim? – ela disse
Porra, pensei, nunca me lembro de ninguém.
- Da Academia do Corpo – ela disse – malhamos juntos um tempo. Depois você sumiu.
- Ah, claro, da academia. Me lembro de você.
- Era engraçado, você reclamava de tudo, os aparelhos, até da música, lembra?
Claro, pensei, agora lembro bem de você, gostosa, lembro que bati umas duas em sua homenagem.
- É – eu disse – esse negócio de academia me irrita um pouco.
- Ah, lá vem meu ônibus – ela disse – tchau.
- Tchau.
Quando vi a putinha de costas, subindo no ônibus, lembrei que não bati apenas duas, mas sim umas sete bronhas em sua homenagem.
Logo depois passou o velho Pituba. Não estava cheio. Mas não havia muitas opções. Sentei ao lado de uma mulher sem graça. Mais uma entrevista de emprego. Não custava nada tentar. A não ser o dinheiro do busu. 2,20 para ir. 2,20 para voltar. Se ao menos o cobrador fosse o Vitorinha. Um velho amigo cobrador de ônibus. Ele tinha um esquema com um cartão de estudante. Passava o cartão na máquina e dizia, pode passar, Flamenguinho. Eu só precisava pagar um pouco mais da metade da passagem. Se fosse hoje, por exemplo, eu daria 1,50 e ficaria tudo certo. O esquema era só para os camaradas. O motorista também estava no jogo. Nunca fui muito adepto desses esquemas. Mas é aquela coisa, donos de empresas de ônibus têm mais que se fuder. A mulher ao meu lado, a sem graça, se levantou e tentou abrir a janela. Não conseguiu. Fingi que não vi. Vai que tento abrir a porra da janela e não consigo. Ficaria todo mundo do busu pensando, olha só, que gordo lerdo. Mais adiante entrou um carinha vendendo paçocas e jujubas. Esses caras, os baleiros, quando não há crianças por perto, sempre vêm pro meu lado. Fingi que não o vi. Logo depois chegou meu ponto.
Era um prédio moderno. Bacana. Duas torres e tal. Havia um mal encarado no balcão da recepção. Terno e gravata. “Agência de Comunicação é décimo primeiro, não é campeão?” – perguntei. Ele confirmou com a cabeça. Havia dois carinhas no hall do elevador. Um era office-boy, branco e baixinho. O outro era alto, negro, gordinho e tinha cara de abestalhado. Entramos os três no elevador.
- Você conhece o negão da recepção? – me perguntou o gordinho.
- Não.
- Ele te deixou passar na boa. Pra mim ele pediu meu RG.
O boyzinho com cara de jóquei olhou para trás, sorriu e deixou o elevador no terceiro andar.
- Anotou meu RG e gravou meu rosto numa câmera – disse o gordinho.
Quase mando o gordinho deixar de viadagem e acordar para a vida. Quase digo a ele que o mundo é uma lata lixo repleta de ratos. E que apesar de serem todos ratos, alguns são mais nojentos que os outros, é o caso dos negros, dos gordos, dos viados e dos caolhos. E era isso que as pessoas achavam dele, o viam como um grande e nojento tolete preto de bosta. Quase digo que esse papo de Obama é uma puta balela. Não há nada de novo. A sacanagem continua. Os olhares atravessados continuam. As piadas continuam quando ele sai da sala. Quase que digo que tem pessoas que não fodem com negros por nojo ou princípio. Quase digo que ele era um bandido em potencial não apenas para o porteiro, mas para a copeira, o encanador, a faxineira, o advogado, a publicitária, o engenheiro, o dono do prédio, o dono da rua, o prefeito, o governador e o turista. Se vacilar, até a mãe dele o condenava por ter cabelo ruim. Eu queria dizer para o gordinho que ele não ligasse, mandasse o mundo todo se fuder. Mas como é que não liga, se essa porra dói feito pedra no rim? Quer dizer, nem tanto, mas dói pra caralho.
- É a segunda vez que venho aqui – menti pro gordinho.
- Segunda vez?
- Ontem ele me pediu a carteira e filmou minha cara.
- Ah...
- Entrevista de emprego...
- Ah, tá...
- Essas dinâmica de grupo, a semana toda, sei que não vou passar...
- Pô, boa sorte...
Deixei o elevador no décimo primeiro. Sala 1103. Apertei a campainha. A porta se abriu. Eu disse, boa tarde, a putinha da recepção respondeu. Outra entrevista, pensei, essas coisas cansam.
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18.10.09
Uma Porra de Soja
O ar-condicionado da agência, quebrado. Eu trabalhava os mesmos títulos. Os mesmos clientes. Era sexta-feira em Salvador. Eu não vestia branco. Nem dançaria pagode quando a noite chegasse. Mas esperava dar meio dia. Para bater um gigantesco prato de caruru, vatapá, entupido de farofa de dendê. Quando o telefone tocou. Era o Man.
- E aí, Man – eu atendi.
- E esse almoço, man?
- Tava pensando no de sempre. Lá em Dona Irene. Aquele vatapá fudendo.
- Paty Guaraná achou um lugar novo.
- Detesto esse lance de lugar novo.
- Vamos lá, man. A gente bota o papo em dia.
- Como é o nome dessa porra?
- Acho que é Açafrão, man.
- Açafrão?
- Gergelim. Acho que é Gergelim. Relaxe, man. A gente te pega aí.
- Merda.
Espinafre. Era o nome do lugar. Bem no meio do Rio Vermelho. Onde toda loucura pode acontecer. Para chegar ao local, você tinha que subir uma escadaria de pedras. No meio de uma mata. Mata mesmo. Araras, bicho preguiça, lobo guará, plantas alucinógenas, essas coisas. Lá dentro, tudo em tons pastéis, tudo zen, como eles dizem. No buffet, só havia folhas, raízes, grãos, essas palhaçadas. Botei no prato uma porra de soja, a única coisa que me parecia comestível. O cara que pesava os pratos, ele usava uma bata e tinha uma tatuagem na testa, olhou para mim com aquela cara, "seja bem-vindo, homem obeso, nós temos a salvação para você". Filho da puta.
Sentamos à mesa.
- Porra, Paty – eu disse –, comida vegetariana é foda.
- Pense que isso vai lhe fazer bem, Bono.
- O que é isso aí, man?
- Sei lá. Uma porra lá de soja.
- Olha só, tem até musiquinha – disse Paty.
- Enya – disse Man.
- Quando a gente tava subindo, vocês viram a cara da galera que tava descendo? Pareciam dopados. Em transe. Como se fossem zumbis.
- Vocês tão sentido esse cheirinho? – disse Paty – Acho que é sândalo.
- Sândalo o caralho – eu disse – aposto que eles colocam alguma porra na comida.
- Não começa não, Bono – disse Paty.
- Eu lembro que eu só estudava ouvindo Enya, man. Segundo grau. Bons tempos, man.
- É sério – eu disse –, olhe ao redor, Paty. Aqui só tem porra-louca. Olha aquele carinha, a barba cheia de trança.
- Mas tem umas gatas aqui, man.
- Esquece. Tudo com cabelo no suvaco.
- Gente, vamos pedir alguma coisa pra beber – disse Paty.
Então veio o garçom. Um velho de cabelo grande e branco. Tinha uns sete colares pendurados no pescoço. E acho que também tinha os olhos vermelhos.
- Eu quero um suco de abacaxi com hortelã – disse Paty.
- Suco de laranja, man.
- Uma Coca-Cola, só gelo.
- Não temos refrigerantes, senhor.
- Porra, só tem suco?
- Perfeito, sucos e chás.
- Porra, me vê um suco de limão.
- Perfeito.
- Não precisa colocar nada dentro. Só quero o suquinho mesmo, na manha.
- Perfeito.
Assim que o pajé saiu, continuamos a conversa.
- E esse feriadão, man?
- Eu tô branca demais, preciso de uma praia – disse Paty.
- Vou ficar em casa – eu disse.
- Porra de ficar em casa, man. Vamos pra Chapada.
- É uma boa – disse Paty.
- Porra de Chapada.
- Man, tem cada trilha de fuder.
- Porra de trilha. Eu sou algum sacana?
- Não adianta, Man – disse Paty – Bono não gosta de nada.
- Mas vale à pena, man. A gente encontra cada cachoeira do caralho.
Foi nessa hora que o Gandalf chegou com as nossas garapas.
- Sim, e depois? – perguntei a Man.
- Depois o quê, man?
- Depois da cachoeira, cacete, faz o quê?
- Depois volta pra pousada, Bono! – disse Paty!
- Esse é o problema. Você anda, anda, anda, escala, desce, pula, se fode todo pra encontrar uma porra de uma cachoeira. Grandes merdas. Mas vamos dizer que é uma cachoeira fudendo, linda, essa porra toda. Aí você toma banho na sua cachoeira, beleza, aí depois tem que andar tudo de novo, voltar a porra toda, se fuder tudo de novo. O saldo é negativo. Se por acaso, depois da cachoeira, viesse uma porra de um helicóptero, me pegasse e me levasse de volta pra pousada, tudo bem. Mas não, tem que andar tudo de novo. Pra ficar a noite toda passando Hipoglós no rabo, com a perna pra cima e você...porra, um duende!
- Hum?
- Um duende, porra. Eu vi um duende. Correndo ali fora!
- Ok, nada de Chapada – disse Paty.
- Eu não tô entendendo nada, man. Você quer dizer que tem duende na Chapada?
- Porra, eu quero dizer que aquele velho sacizeiro desgraçado não botou açúcar na porra do meu suco, mas botou alguma porra, algum pozinho maldito, porque eu vi uma merda de um gnomo, um hobbit, sei lá, passar ali fora, correndo, caralho.
- Pra variar, é Bono botando defeito no restaurante.
- Mas você falou a verdade, man. Eu sempre levo Hipoglós quando vou pra Chapada, senão me fodo, uma perna roça na outra aí...
Paty Guaraná e Man continuaram falando sobre as opções do feriadão na Bahia. Falaram mais da Chapada, da praia de Jauá, de uma Choppada em Sauípe. Nada me interessava. Exceto a preferência pelo acarajé e vatapá, acho que não tenho nada da Bahia. Não tenho essa alegria toda. E meu feriadão seria apenas mais um sábado, um domingo e uma segunda. Talvez eu pegasse um filme. Se desse sorte, poderia comer alguém. Era isso que eu queria fazer no feriadão. Porra de Chapada. Eu queria escalar uma bucetuda. Uma mulher com a buceta bem grande para eu subir e descer.
Assim que terminamos de comer, fomos pagar a conta. Era numa espécie de cabana. Cheia de souvenirs, incensos, mandalas, não-sei-o-que-lá dos ventos e panfletos. Vários panfletos de massagens, óleos e bruxarias. A porra de soja deu 16 conto. Essa turma é louca, mas é esperta. Viva a natureza e dinheiro no bolso. Com 16 conto, eu batia dois pratos de caruru em Dona Irene.
- Confesse, Bono – disse Paty – tá se sentindo mais leve?
- Acho que ainda peso meus 120 quilos.
- EU VI, EU VI, EU VI, MAN!
- Viu o quê, menino? – disse Paty
- O duende. Eu vi o duende, man!
- Até você, Man? – disse Paty.
- Tem umas orelhinhas assim, né man? – perguntei.
- Umas orelhinhas de ponta, man. Ele é pequenininho. Correu ali pro canto.
- Tinha um shortinho vermelho?
- Acho que era roxo, um shortinho roxo, man.
- E aí, Man – eu atendi.
- E esse almoço, man?
- Tava pensando no de sempre. Lá em Dona Irene. Aquele vatapá fudendo.
- Paty Guaraná achou um lugar novo.
- Detesto esse lance de lugar novo.
- Vamos lá, man. A gente bota o papo em dia.
- Como é o nome dessa porra?
- Acho que é Açafrão, man.
- Açafrão?
- Gergelim. Acho que é Gergelim. Relaxe, man. A gente te pega aí.
- Merda.
Espinafre. Era o nome do lugar. Bem no meio do Rio Vermelho. Onde toda loucura pode acontecer. Para chegar ao local, você tinha que subir uma escadaria de pedras. No meio de uma mata. Mata mesmo. Araras, bicho preguiça, lobo guará, plantas alucinógenas, essas coisas. Lá dentro, tudo em tons pastéis, tudo zen, como eles dizem. No buffet, só havia folhas, raízes, grãos, essas palhaçadas. Botei no prato uma porra de soja, a única coisa que me parecia comestível. O cara que pesava os pratos, ele usava uma bata e tinha uma tatuagem na testa, olhou para mim com aquela cara, "seja bem-vindo, homem obeso, nós temos a salvação para você". Filho da puta.
Sentamos à mesa.
- Porra, Paty – eu disse –, comida vegetariana é foda.
- Pense que isso vai lhe fazer bem, Bono.
- O que é isso aí, man?
- Sei lá. Uma porra lá de soja.
- Olha só, tem até musiquinha – disse Paty.
- Enya – disse Man.
- Quando a gente tava subindo, vocês viram a cara da galera que tava descendo? Pareciam dopados. Em transe. Como se fossem zumbis.
- Vocês tão sentido esse cheirinho? – disse Paty – Acho que é sândalo.
- Sândalo o caralho – eu disse – aposto que eles colocam alguma porra na comida.
- Não começa não, Bono – disse Paty.
- Eu lembro que eu só estudava ouvindo Enya, man. Segundo grau. Bons tempos, man.
- É sério – eu disse –, olhe ao redor, Paty. Aqui só tem porra-louca. Olha aquele carinha, a barba cheia de trança.
- Mas tem umas gatas aqui, man.
- Esquece. Tudo com cabelo no suvaco.
- Gente, vamos pedir alguma coisa pra beber – disse Paty.
Então veio o garçom. Um velho de cabelo grande e branco. Tinha uns sete colares pendurados no pescoço. E acho que também tinha os olhos vermelhos.
- Eu quero um suco de abacaxi com hortelã – disse Paty.
- Suco de laranja, man.
- Uma Coca-Cola, só gelo.
- Não temos refrigerantes, senhor.
- Porra, só tem suco?
- Perfeito, sucos e chás.
- Porra, me vê um suco de limão.
- Perfeito.
- Não precisa colocar nada dentro. Só quero o suquinho mesmo, na manha.
- Perfeito.
Assim que o pajé saiu, continuamos a conversa.
- E esse feriadão, man?
- Eu tô branca demais, preciso de uma praia – disse Paty.
- Vou ficar em casa – eu disse.
- Porra de ficar em casa, man. Vamos pra Chapada.
- É uma boa – disse Paty.
- Porra de Chapada.
- Man, tem cada trilha de fuder.
- Porra de trilha. Eu sou algum sacana?
- Não adianta, Man – disse Paty – Bono não gosta de nada.
- Mas vale à pena, man. A gente encontra cada cachoeira do caralho.
Foi nessa hora que o Gandalf chegou com as nossas garapas.
- Sim, e depois? – perguntei a Man.
- Depois o quê, man?
- Depois da cachoeira, cacete, faz o quê?
- Depois volta pra pousada, Bono! – disse Paty!
- Esse é o problema. Você anda, anda, anda, escala, desce, pula, se fode todo pra encontrar uma porra de uma cachoeira. Grandes merdas. Mas vamos dizer que é uma cachoeira fudendo, linda, essa porra toda. Aí você toma banho na sua cachoeira, beleza, aí depois tem que andar tudo de novo, voltar a porra toda, se fuder tudo de novo. O saldo é negativo. Se por acaso, depois da cachoeira, viesse uma porra de um helicóptero, me pegasse e me levasse de volta pra pousada, tudo bem. Mas não, tem que andar tudo de novo. Pra ficar a noite toda passando Hipoglós no rabo, com a perna pra cima e você...porra, um duende!
- Hum?
- Um duende, porra. Eu vi um duende. Correndo ali fora!
- Ok, nada de Chapada – disse Paty.
- Eu não tô entendendo nada, man. Você quer dizer que tem duende na Chapada?
- Porra, eu quero dizer que aquele velho sacizeiro desgraçado não botou açúcar na porra do meu suco, mas botou alguma porra, algum pozinho maldito, porque eu vi uma merda de um gnomo, um hobbit, sei lá, passar ali fora, correndo, caralho.
- Pra variar, é Bono botando defeito no restaurante.
- Mas você falou a verdade, man. Eu sempre levo Hipoglós quando vou pra Chapada, senão me fodo, uma perna roça na outra aí...
Paty Guaraná e Man continuaram falando sobre as opções do feriadão na Bahia. Falaram mais da Chapada, da praia de Jauá, de uma Choppada em Sauípe. Nada me interessava. Exceto a preferência pelo acarajé e vatapá, acho que não tenho nada da Bahia. Não tenho essa alegria toda. E meu feriadão seria apenas mais um sábado, um domingo e uma segunda. Talvez eu pegasse um filme. Se desse sorte, poderia comer alguém. Era isso que eu queria fazer no feriadão. Porra de Chapada. Eu queria escalar uma bucetuda. Uma mulher com a buceta bem grande para eu subir e descer.
Assim que terminamos de comer, fomos pagar a conta. Era numa espécie de cabana. Cheia de souvenirs, incensos, mandalas, não-sei-o-que-lá dos ventos e panfletos. Vários panfletos de massagens, óleos e bruxarias. A porra de soja deu 16 conto. Essa turma é louca, mas é esperta. Viva a natureza e dinheiro no bolso. Com 16 conto, eu batia dois pratos de caruru em Dona Irene.
- Confesse, Bono – disse Paty – tá se sentindo mais leve?
- Acho que ainda peso meus 120 quilos.
- EU VI, EU VI, EU VI, MAN!
- Viu o quê, menino? – disse Paty
- O duende. Eu vi o duende, man!
- Até você, Man? – disse Paty.
- Tem umas orelhinhas assim, né man? – perguntei.
- Umas orelhinhas de ponta, man. Ele é pequenininho. Correu ali pro canto.
- Tinha um shortinho vermelho?
- Acho que era roxo, um shortinho roxo, man.
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5.10.09
Meu Pau é Flamengo
1987. Um ano importante. Foi quando bati minha primeira punheta. Eu era apenas um gordinho de dez anos descobrindo os grandes prazeres da vida. Como correr pelo Largo da Lapinha. Jogar bola com os amigos. Passar a mão nas menininhas. Torcer pelo Flamengo. Foi a primeira vez que vi, conscientemente, o Flamengo ganhar um campeonato. Aquele time era demais. Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho, Leonardo, Andrade, Ailton, Zinho, Renato Gaucho, Bebeto e, o melhor de todos os tempos, o velho Zico. Lembro até que ganhei no bafo a figurinha de Jorginho, a última que faltava para completar o meu álbum de figurinhas. Se hoje ainda me resta algum resquício de autoestima, devo isso aquele ano, 87, quando o Flamengo sagrou-se o primeiro tetracampeão brasileiro.
Por isso não pensei duas vezes quando conheci essa putinha, a Janine. Ela trabalhava no arquivo de uma produtora de vídeo, onde passei um tempo dando uma de roteirista. Janine era feia, é verdade, mas tinha duas super bolotas de peitos que deixavam qualquer cacete duro. Conversamos vez ou outra, mas foi na festinha de fim de ano, que tomamos umas taças de vinho e nos conhecemos melhor.
- O vídeo de natal ficou lindo, Bono.
- Obrigado, Janine. Mas eu só escrevi os diálogos.
- Só não entendi aquela parte que você critica o panetone.
- Engraçado, como você fala a letra T.
- Sou pernambucana, ainda não perdi o sotaque.
- Pernambucana? Eu conheço uns caras de Recife.
- Acho que já tô tonta, Bono.
- Bons amigos, torcedores do Santa Cruz.
- Eu torço pro Sport.
- Porra, Janine, pro Sport?
- É sério. Pra mim, chega de vinho.
- Mas você sabe que o Flamengo é o verdadeiro campeão de 87?!
- Não, não sei. Não entendo nada de futebol. Digo que sou Sport por causa de meu pai.
- Janine.
- Hum.
- Vamos pra casa de minha avó? Ela tá viajando.
- Bono, eu acabei de sair de um relacionamento, você é...
- Lá tem um corredor bem grande. Você vai gostar.
- Corredor?
Tomamos mais um gole de vinho e deixamos a festinha. Entramos num táxi e fomos para a casa de minha avó, onde fui direto ao assunto.
- Tira a roupa.
- Poxa, é grande mesmo o corredor.
- Tira a roupa.
- Vá com calma, Bono, eu também tô a fim, mas tô tonta e...
- Tira a roupa, porra.
Janine tirou a roupa. Eu já planejava fazer uma espanhola supersônica, mas fiquei ali durante um tempo olhando para aqueles peitões mágicos.
- Agora corra – eu disse.
- O quê?
- Corra.
- Como assim, Bono?
- AGORA CORRA, PUTA, CORRA!
Foi quando bateu o desespero na cara de Janine e ela correu em direção à cozinha. Eu sempre quis ver uma peituda correndo alucinada por um corredor gigante. Então tirei a roupa e fui atrás dela. Encontrei Janine agachada, soluçando atrás da mesa. E com a cabeça do meu pau, dei três cutucadas em sua cabeça, e disse baixinho:
- Quer dizer que você é Sport?
Como eu disse, 87 foi um ano importante. Desses que a gente leva como referência para o resto da vida. Já foi até final de minha senha bancária. Eu sei, 87 ficou bem para trás. Já não vivo na Lapinha. Já não consigo jogar bola. Já não tenho amigos para jogar bola. E as menininhas já não querem saber de mim. Por isso me revolto e não aceito quando uns filhos da puta desinformados insistem em dizer por aí que o campeão brasileiro de 87 foi o Sport Recife, arrancando a única coisa boa que ainda me resta daquele ano e que está costurado no meu peito. Por isso naquela noite fiz questão de meter no rabo de Janine. Por isso meti com força. Por isso puxei seu cabelo e disse, 87 É NOSSO, SUA PUTA, 87 É DO MENGÃO. E só não enfiei meus ovos naquele rabo porque tive humildade em gol. Depois ela veio com aquele papo, você é louco, Bono. E eu disse, e se você falar mal do Zico, eu juro que como seu ouvido.
Por isso não pensei duas vezes quando conheci essa putinha, a Janine. Ela trabalhava no arquivo de uma produtora de vídeo, onde passei um tempo dando uma de roteirista. Janine era feia, é verdade, mas tinha duas super bolotas de peitos que deixavam qualquer cacete duro. Conversamos vez ou outra, mas foi na festinha de fim de ano, que tomamos umas taças de vinho e nos conhecemos melhor.
- O vídeo de natal ficou lindo, Bono.
- Obrigado, Janine. Mas eu só escrevi os diálogos.
- Só não entendi aquela parte que você critica o panetone.
- Engraçado, como você fala a letra T.
- Sou pernambucana, ainda não perdi o sotaque.
- Pernambucana? Eu conheço uns caras de Recife.
- Acho que já tô tonta, Bono.
- Bons amigos, torcedores do Santa Cruz.
- Eu torço pro Sport.
- Porra, Janine, pro Sport?
- É sério. Pra mim, chega de vinho.
- Mas você sabe que o Flamengo é o verdadeiro campeão de 87?!
- Não, não sei. Não entendo nada de futebol. Digo que sou Sport por causa de meu pai.
- Janine.
- Hum.
- Vamos pra casa de minha avó? Ela tá viajando.
- Bono, eu acabei de sair de um relacionamento, você é...
- Lá tem um corredor bem grande. Você vai gostar.
- Corredor?
Tomamos mais um gole de vinho e deixamos a festinha. Entramos num táxi e fomos para a casa de minha avó, onde fui direto ao assunto.
- Tira a roupa.
- Poxa, é grande mesmo o corredor.
- Tira a roupa.
- Vá com calma, Bono, eu também tô a fim, mas tô tonta e...
- Tira a roupa, porra.
Janine tirou a roupa. Eu já planejava fazer uma espanhola supersônica, mas fiquei ali durante um tempo olhando para aqueles peitões mágicos.
- Agora corra – eu disse.
- O quê?
- Corra.
- Como assim, Bono?
- AGORA CORRA, PUTA, CORRA!
Foi quando bateu o desespero na cara de Janine e ela correu em direção à cozinha. Eu sempre quis ver uma peituda correndo alucinada por um corredor gigante. Então tirei a roupa e fui atrás dela. Encontrei Janine agachada, soluçando atrás da mesa. E com a cabeça do meu pau, dei três cutucadas em sua cabeça, e disse baixinho:
- Quer dizer que você é Sport?
Como eu disse, 87 foi um ano importante. Desses que a gente leva como referência para o resto da vida. Já foi até final de minha senha bancária. Eu sei, 87 ficou bem para trás. Já não vivo na Lapinha. Já não consigo jogar bola. Já não tenho amigos para jogar bola. E as menininhas já não querem saber de mim. Por isso me revolto e não aceito quando uns filhos da puta desinformados insistem em dizer por aí que o campeão brasileiro de 87 foi o Sport Recife, arrancando a única coisa boa que ainda me resta daquele ano e que está costurado no meu peito. Por isso naquela noite fiz questão de meter no rabo de Janine. Por isso meti com força. Por isso puxei seu cabelo e disse, 87 É NOSSO, SUA PUTA, 87 É DO MENGÃO. E só não enfiei meus ovos naquele rabo porque tive humildade em gol. Depois ela veio com aquele papo, você é louco, Bono. E eu disse, e se você falar mal do Zico, eu juro que como seu ouvido.
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20.9.09
O Garoto
Era uma cidade pequena. Pequena e estranha. Não havia muito que fazer. Kurtz e eu apenas rodávamos em seu velho Mustang à procura de um bar. Era preciso beber para disfarçar o tédio daquela cidade.
- Eu era pilhado, Bono. Achava que iam invadir o país justo no dia que eu tava de sentinela.
- Só tem lan house nessa cidade.
- Sofri pra caralho no exército, Bono.
- Só lan house.
- Mas foi no exército que aprendi a acordar cedo.
- Outra lan house.
- Aprendi a acordar cedo e a ser leal.
- Tô fudido.
- Sou leal aos meus comandantes.
- Caralho de tanta lan house.
- Leal aos meus comandados.
- Até agora não vi uma McDonald´s.
- Leal à minha família.
- Lan House tem um monte.
- Leal aos Ramones.
- Ôpa, um bar!
Estacionamos. Antes de descer, Kurtz pediu para esperar. Então meteu a mão no bolso e tirou um saquinho. Era pó. Fez três filinhas sobre o painel do carro e meteu o nariz.
- Pensei que tinha parado com essa porra.
- Eu parei, Bono. Mas o garoto é foda.
- Que garoto?
- Você sabe, o garoto.
- Que porra de garoto?
- O diabo, porra. Ele fica ali. O tempo todo. E não adianta lutar, o garoto sempre vence.
- Ok. Mas vamos logo, que eu tô com fome.
Entramos no bar. Era uma espécie de pub. Um lugar agradável. Tocava rock. Pouca luz. Pouca gente. Uma mesa de sinuca. Sentamos e pedimos as bebidas.
- Gostei daqui, Bono.
- É, mas você reparou que tem duas lan houses ali na frente?
- Essa cidade é estranha. Já percebi isso.
- Tá vendo aquele cara?
- Qual?
- O coroa com cara de nazista.
- Que é que tem porra?
- Pedófilo.
- Puta que pariu, meu irmão. Para de julgar as pessoas.
- Pedófilo escroto.
- Se você fosse rico, magro, bonito e tivesse cabelo, ninguém ia te agüentar, porra.
- Uma amiga minha, dessas miúdas, sem peito, parecendo uma menina. Tinha um namorado que era a cara desse filho da puta aí. Eu já desconfiava que ele fosse pedófilo. Quando eles terminaram, ela me disse que na hora de fuder, ele gostava que ela ficasse imóvel, paradinha e calada, enquanto ele bulinava ela.
- Porra, Bono. Vamos pedir um tira-gosto.
Pedi pititinga. Kurtz foi de iscas de frango.
- Aquele de gravata, Bono.
- Que é que tem?
- No mínimo, no primeiro degrau das drogas, cheira pó.
- Ele é muito estranho mesmo.
- Eu sou um sobrevivente, Bono. Conheço.
O serviço era bom. A comida veio rápida. Junto com mais duas doses.
- Porra, Bono. Olha aquela ali.
- A baixinha?
- A de verde.
- A pititinga tá fudendo.
- Eu sou leal à minha mulher, Bono. Mas o garoto é foda. Mulher branquinha assim...
- É foda, você dá um tapa assim na bunda, fica aquela marca...
POW! POW! POW! – O FRANGO TÁ DURO, POOORRAAAAAA! – berrou Kurtz, dando três tiros para cima.
Lembro que um dos garçons foi o primeiro a correr. As mulheres gritavam. Os homens corriam. Alguns pulavam no chão. Depois se arrastavam o mais depressa que podiam. E em questão de segundos, Kurtz e eu éramos os únicos sentados naquele pub.
- Tá maluco, porra?
- O frango tá duro, Bono.
- Porra de frango. Que arma é essa, caralho?
- Esse frango me lembrou meus tempos de caserna, Bono. Prove aqui essa porra.
- Porra, acho que me caguei, caralho!
- ALGUÉM TROCA ESSA PORRA DESSE FRANGO!
- Caralho, me caguei!
Eu vou dizer uma coisa. Toda guerra é escrota. E o que mais tem por aí é filho da puta que só aparece na hora de receber a medalha, e desaparece logo que a bomba cai. Por isso é raro encontrar um cara como o Kurtz. Um comandante leal. Um amigo leal. Há os que o chamam de louco. Há os que o chamam de estúpido. Acho que é tudo isso também. Nos conhecemos numa guerra suja e perdida nas fronteiras de Sergipe. Mas ele vive pelas bandas do Recife. De tempos em tempos nos falamos. Um dia desses, às sete horas, de uma manhã de domingo, o telefone tocou. Era o Kurtz.
- Bono, PORRA!
- Comandante.
- Como é que tão as coisas?
- Você sabe, sobrevivendo.
- O garoto, Bono.
- Que é que tem o garoto?
- Acho que me livrei do garoto, Bono. Já faz um ano.
- De fuder.
- Tô só na erva.
- Na manha.
- E o blog?
- Na mesma.
- Escreve uma história nossa, porra.
- Vou escrever.
- Mas sem putinhas, porra. Você só sabe escrever negócio de putinhas.
- Ok, sem putinhas.
- Você é um soldado leal, Bono.
- Eu era pilhado, Bono. Achava que iam invadir o país justo no dia que eu tava de sentinela.
- Só tem lan house nessa cidade.
- Sofri pra caralho no exército, Bono.
- Só lan house.
- Mas foi no exército que aprendi a acordar cedo.
- Outra lan house.
- Aprendi a acordar cedo e a ser leal.
- Tô fudido.
- Sou leal aos meus comandantes.
- Caralho de tanta lan house.
- Leal aos meus comandados.
- Até agora não vi uma McDonald´s.
- Leal à minha família.
- Lan House tem um monte.
- Leal aos Ramones.
- Ôpa, um bar!
Estacionamos. Antes de descer, Kurtz pediu para esperar. Então meteu a mão no bolso e tirou um saquinho. Era pó. Fez três filinhas sobre o painel do carro e meteu o nariz.
- Pensei que tinha parado com essa porra.
- Eu parei, Bono. Mas o garoto é foda.
- Que garoto?
- Você sabe, o garoto.
- Que porra de garoto?
- O diabo, porra. Ele fica ali. O tempo todo. E não adianta lutar, o garoto sempre vence.
- Ok. Mas vamos logo, que eu tô com fome.
Entramos no bar. Era uma espécie de pub. Um lugar agradável. Tocava rock. Pouca luz. Pouca gente. Uma mesa de sinuca. Sentamos e pedimos as bebidas.
- Gostei daqui, Bono.
- É, mas você reparou que tem duas lan houses ali na frente?
- Essa cidade é estranha. Já percebi isso.
- Tá vendo aquele cara?
- Qual?
- O coroa com cara de nazista.
- Que é que tem porra?
- Pedófilo.
- Puta que pariu, meu irmão. Para de julgar as pessoas.
- Pedófilo escroto.
- Se você fosse rico, magro, bonito e tivesse cabelo, ninguém ia te agüentar, porra.
- Uma amiga minha, dessas miúdas, sem peito, parecendo uma menina. Tinha um namorado que era a cara desse filho da puta aí. Eu já desconfiava que ele fosse pedófilo. Quando eles terminaram, ela me disse que na hora de fuder, ele gostava que ela ficasse imóvel, paradinha e calada, enquanto ele bulinava ela.
- Porra, Bono. Vamos pedir um tira-gosto.
Pedi pititinga. Kurtz foi de iscas de frango.
- Aquele de gravata, Bono.
- Que é que tem?
- No mínimo, no primeiro degrau das drogas, cheira pó.
- Ele é muito estranho mesmo.
- Eu sou um sobrevivente, Bono. Conheço.
O serviço era bom. A comida veio rápida. Junto com mais duas doses.
- Porra, Bono. Olha aquela ali.
- A baixinha?
- A de verde.
- A pititinga tá fudendo.
- Eu sou leal à minha mulher, Bono. Mas o garoto é foda. Mulher branquinha assim...
- É foda, você dá um tapa assim na bunda, fica aquela marca...
POW! POW! POW! – O FRANGO TÁ DURO, POOORRAAAAAA! – berrou Kurtz, dando três tiros para cima.
Lembro que um dos garçons foi o primeiro a correr. As mulheres gritavam. Os homens corriam. Alguns pulavam no chão. Depois se arrastavam o mais depressa que podiam. E em questão de segundos, Kurtz e eu éramos os únicos sentados naquele pub.
- Tá maluco, porra?
- O frango tá duro, Bono.
- Porra de frango. Que arma é essa, caralho?
- Esse frango me lembrou meus tempos de caserna, Bono. Prove aqui essa porra.
- Porra, acho que me caguei, caralho!
- ALGUÉM TROCA ESSA PORRA DESSE FRANGO!
- Caralho, me caguei!
Eu vou dizer uma coisa. Toda guerra é escrota. E o que mais tem por aí é filho da puta que só aparece na hora de receber a medalha, e desaparece logo que a bomba cai. Por isso é raro encontrar um cara como o Kurtz. Um comandante leal. Um amigo leal. Há os que o chamam de louco. Há os que o chamam de estúpido. Acho que é tudo isso também. Nos conhecemos numa guerra suja e perdida nas fronteiras de Sergipe. Mas ele vive pelas bandas do Recife. De tempos em tempos nos falamos. Um dia desses, às sete horas, de uma manhã de domingo, o telefone tocou. Era o Kurtz.
- Bono, PORRA!
- Comandante.
- Como é que tão as coisas?
- Você sabe, sobrevivendo.
- O garoto, Bono.
- Que é que tem o garoto?
- Acho que me livrei do garoto, Bono. Já faz um ano.
- De fuder.
- Tô só na erva.
- Na manha.
- E o blog?
- Na mesma.
- Escreve uma história nossa, porra.
- Vou escrever.
- Mas sem putinhas, porra. Você só sabe escrever negócio de putinhas.
- Ok, sem putinhas.
- Você é um soldado leal, Bono.
6.9.09
1996
Como uma formiguinha que resiste à morte. Você dá uma chinelada, ela finge a própria morte, e quando você pensa que não, lá está ela, a formiguinha, andando outra vez. Você dá outra chinelada, e mais outra, ela sente o golpe, mas continua mexendo as perninhas. Então você dá mais outra chinelada, e mais outra, e mais outra, você espanca a formiga e pensa que venceu. Porque se você olhar de perto, bem de perto, ela está lá, mexendo nem que seja uma anteninha, arrastando seus últimos segundos de vida. Isso para mim é poesia. Sempre admirei os derrotados, os feridos que não se entregam e resistem ao capricho da morte. Aqueles que, por questão de honra, princípio, raça ou pirraça, não dão o braço a torcer e estão cagando para os vencedores. O vencedor pode ter a medalha, mas ele não tem a menor graça. Sou mais o pugilista que foi à lona, que já não enxerga porra nenhuma e cospe sangue na cara do campeão mundial. Sou mais o samurai que não se entrega nem fudendo, o bêbado que resiste ao tombo, contrariando a vontade de todos, o cachorro sem perna que ainda luta por um pedaço de bife, o desempregado que pendura a conta, o time rebaixado que tenta um gol de honra nos acréscimos. Eu torço para a formiguinha. Só não tenho um décimo da força que ela tem.
Digo isso porque aquele ano não foi dos mais fáceis. Era abril quando minha madrinha saiu do jogo. Uma parada no cérebro, uma coisa assim. Uma mulher elegante, extremamente inteligente, que me incentivava nos estudos. Lembrando agora, percebo que sua morte foi uma coincidência. Porque eu não estava nada bem. Era o segundo ano na faculdade. Havia matérias como administração, economia, teoria de não-sei-o-quê. Aulas intermináveis, assuntos impróprios. E eu não tinha nenhuma vontade. Certa vez uma dessas professoras me pegou dormindo durante aula. Falou em desrespeito, irresponsabilidade, imaturidade. Eu era imaturo, é verdade, por isso não a mandei tomar no cu.
O ano passava devagar, mas logo depois, recebi um telefonema. Meu grande amigo Deco, dos tempos de escola, havia sofrido um acidente. Um acidente fatal. O momento não podia ser pior. Porque 0s amigos começavam a se tornar raros. Era uma questão de sintonia, preferências. Era o tempo das academias, marombas, bombas, e camisetas apertadas. E eu, simplesmente, era gordo. Eu não conseguia entender. Havia uma roda de amigos, e de repente, um virava pro outro e dizia, se ligue, pulando no chão e fazendo flexões. Eu dizia, que merda é essa? Vocês estão malucos, porra? E ainda tinha um agravante, o pior de todos. O meu cabelo. Eu sabia que um dia ficaria careca, era minha última chance, então deixei o cabelo crescer. O problema é que meu cabelo era uma palha desgraçada, tinha que deixá-lo preso, se o soltasse, Phuff!, eu me transformava automaticamente no Capitão Caverna. E você sabe. Tudo que um adolescente quer por perto, por mais ridículo que ele seja, é encontrar outro adolescente mais ridículo do que ele. Então eu era o centro das piadas. Ganhei o apelido de Paulo Medonho. Era Paulo Medonho isso, Paulo Medonho aquilo, Paulo, corta essa juba, você tá medonho. Havia uma verdadeira campanha para eu cortar meu cabelo. Era incrivelmente feio, de verdade. Mas eu me recusava. E pagava por isso. É que os amigos da Lapinha estavam descobrindo novos amigos e já não faziam mais questão da minha presença. Certa vez ia ter uma viagem, uma viagem que fazíamos há séculos. Mas naquele ano, justamente naquele ano, o dono do carro me disse que não havia mais vaga para mim, me substituindo por um novo amigo, alguém com um cabelo humano e corpo sarado, que lhe fosse mais útil, é claro, o ajudando a se aproximar das putinhas. E aos 18 anos eu aprendia o quanto a amizade pode ser prática.
Mas a chinelada mais forte veio no mês seguinte. Minha avó saiu do jogo. A minha avó. A minha avó. A minha avó. A minha avó que me fazia pão assado na caçarola na hora da sessão aventura, que eu desconfiava ser umas das poucas pessoas que gostavam de mim gratuitamente, e que também me pedia para eu cortar o cabelo. Sabe a formiguinha? Foi a primeira vez que pensei em drogas. Mas eu não tinha coragem, nem dinheiro, nem competência. Aliás, não tinha perfil para nada. Foi nessa época que fui reprovado no psicoteste da Telebahia Celular.
Dias depois da minha avó, eu escuto no rádio sobre o Renato Russo. Era o que faltava. O mundo era outro. Já não tínhamos o Cazuza, nem o Curt Kobain. Era de se pensar no suicídio. Vivíamos no fantástico mundo da Boquinha da Garrafa, Dança da Tartaruga, Backstreet Boys, Britney Spears, Alexandre Pires, Ratinho, Malhação, banheira do Gugu, Cumpadi Washington e Carla Peres. E por falar em bunda, é evidente que não comi nenhuma naquele ano. O mais próximo que cheguei foi numa morena de Barra do Pote. Toquei violão, disse umas coisinhas engraçadas em seu ouvido, ela olhou pra mim, sorriu, mas olhou pro meu cabelo e preferiu outro cara. Nunca bati tanta punheta na vida como naquele ano.
96 levou não apenas algumas pessoas que eu gostava. Foi uma surra de cinto. Cada golpe levando um pedaço da minha carne, de meu sangue, de minhas células, de minha infância, de minhas proteínas. Acho que nem o bom Jack La Motta resistiria a tanto em um único round. Tem gente que diz que as feridas trazem maturidade. Eu digo que maturidade de cu é rola. Porque no dia 30 de dezembro, veio outro telefonema. Era do interior. Minha bisavó também havia saído do jogo. Confesso, já estava cansado. Pensei, ok, anos 90, vocês venceram. E antes do reveillon, fui até a barbearia perto da feirinha e disse, corta essa porra.
Digo isso porque aquele ano não foi dos mais fáceis. Era abril quando minha madrinha saiu do jogo. Uma parada no cérebro, uma coisa assim. Uma mulher elegante, extremamente inteligente, que me incentivava nos estudos. Lembrando agora, percebo que sua morte foi uma coincidência. Porque eu não estava nada bem. Era o segundo ano na faculdade. Havia matérias como administração, economia, teoria de não-sei-o-quê. Aulas intermináveis, assuntos impróprios. E eu não tinha nenhuma vontade. Certa vez uma dessas professoras me pegou dormindo durante aula. Falou em desrespeito, irresponsabilidade, imaturidade. Eu era imaturo, é verdade, por isso não a mandei tomar no cu.
O ano passava devagar, mas logo depois, recebi um telefonema. Meu grande amigo Deco, dos tempos de escola, havia sofrido um acidente. Um acidente fatal. O momento não podia ser pior. Porque 0s amigos começavam a se tornar raros. Era uma questão de sintonia, preferências. Era o tempo das academias, marombas, bombas, e camisetas apertadas. E eu, simplesmente, era gordo. Eu não conseguia entender. Havia uma roda de amigos, e de repente, um virava pro outro e dizia, se ligue, pulando no chão e fazendo flexões. Eu dizia, que merda é essa? Vocês estão malucos, porra? E ainda tinha um agravante, o pior de todos. O meu cabelo. Eu sabia que um dia ficaria careca, era minha última chance, então deixei o cabelo crescer. O problema é que meu cabelo era uma palha desgraçada, tinha que deixá-lo preso, se o soltasse, Phuff!, eu me transformava automaticamente no Capitão Caverna. E você sabe. Tudo que um adolescente quer por perto, por mais ridículo que ele seja, é encontrar outro adolescente mais ridículo do que ele. Então eu era o centro das piadas. Ganhei o apelido de Paulo Medonho. Era Paulo Medonho isso, Paulo Medonho aquilo, Paulo, corta essa juba, você tá medonho. Havia uma verdadeira campanha para eu cortar meu cabelo. Era incrivelmente feio, de verdade. Mas eu me recusava. E pagava por isso. É que os amigos da Lapinha estavam descobrindo novos amigos e já não faziam mais questão da minha presença. Certa vez ia ter uma viagem, uma viagem que fazíamos há séculos. Mas naquele ano, justamente naquele ano, o dono do carro me disse que não havia mais vaga para mim, me substituindo por um novo amigo, alguém com um cabelo humano e corpo sarado, que lhe fosse mais útil, é claro, o ajudando a se aproximar das putinhas. E aos 18 anos eu aprendia o quanto a amizade pode ser prática.
Mas a chinelada mais forte veio no mês seguinte. Minha avó saiu do jogo. A minha avó. A minha avó. A minha avó. A minha avó que me fazia pão assado na caçarola na hora da sessão aventura, que eu desconfiava ser umas das poucas pessoas que gostavam de mim gratuitamente, e que também me pedia para eu cortar o cabelo. Sabe a formiguinha? Foi a primeira vez que pensei em drogas. Mas eu não tinha coragem, nem dinheiro, nem competência. Aliás, não tinha perfil para nada. Foi nessa época que fui reprovado no psicoteste da Telebahia Celular.
Dias depois da minha avó, eu escuto no rádio sobre o Renato Russo. Era o que faltava. O mundo era outro. Já não tínhamos o Cazuza, nem o Curt Kobain. Era de se pensar no suicídio. Vivíamos no fantástico mundo da Boquinha da Garrafa, Dança da Tartaruga, Backstreet Boys, Britney Spears, Alexandre Pires, Ratinho, Malhação, banheira do Gugu, Cumpadi Washington e Carla Peres. E por falar em bunda, é evidente que não comi nenhuma naquele ano. O mais próximo que cheguei foi numa morena de Barra do Pote. Toquei violão, disse umas coisinhas engraçadas em seu ouvido, ela olhou pra mim, sorriu, mas olhou pro meu cabelo e preferiu outro cara. Nunca bati tanta punheta na vida como naquele ano.
96 levou não apenas algumas pessoas que eu gostava. Foi uma surra de cinto. Cada golpe levando um pedaço da minha carne, de meu sangue, de minhas células, de minha infância, de minhas proteínas. Acho que nem o bom Jack La Motta resistiria a tanto em um único round. Tem gente que diz que as feridas trazem maturidade. Eu digo que maturidade de cu é rola. Porque no dia 30 de dezembro, veio outro telefonema. Era do interior. Minha bisavó também havia saído do jogo. Confesso, já estava cansado. Pensei, ok, anos 90, vocês venceram. E antes do reveillon, fui até a barbearia perto da feirinha e disse, corta essa porra.
22.8.09
Rabuge
O desemprego é uma lástima. Já engordei quatro quilos. A gente levanta, come alguma coisa e volta. Levanta, come alguma coisa e volta. E assiste a qualquer porcaria na TV. Passava aquele quadro no telejornal. Pretos e pobres numa praça pública erguendo certificados rotos de cursos técnicos e implorando por uma vaga. Quem assiste aquilo? Só os desempregados. Uma mulher de meia idade pedia uma chance de assistente administrativa ou cozinheira ou serviços gerais. Bem vinda ao clube, dona. Ao clube dos sem qualificação, sem portfólio, sem perfil. Acredito que eles se divertem com aquilo, os diretores e assistentes, os que inventam o perfil. Nunca sei o que eles querem. Já fui reprovado até em psicoteste. Na antiga Telebahia Celular. Havia aqueles traços, desenhei uma banda de rock, devem ter achado que eu era algum tipo de louco, fanático ou coisa assim. Acho que sou a única pessoa no mundo reprovada num psicoteste. Fiquei imaginando, será que aquele povo, o da TV, na praça pública, será que aquele povo também passava por psicotestes? Será que eles também engordavam?
Uma coisa é certa. O ar é sempre quente nos piores dias. Desliguei a TV e fui buscar algum vento na janela. Nada. Vi apenas o Rabuge. Um velho amigo de infância. Estava sentado na sombra de uma árvore. Coincidência. Rabuge também não tem o que eles chamam de perfil. Parado há oito meses. Teve que vender o carro, sua alma. Soube que o primo da mulher que ele come ficou de lhe arranjar alguma coisa numa cervejaria. Eu queria ser como Rabuge. Apenas sentar embaixo de uma árvore e acender um cigarro. Não sei por que, mas acender um cigarro é como dizer “tá tudo bem” ou “tô cagando pra isso”.
Eu começava a sentir fome outra vez. Era melhor sair de casa. Quando eu já estava na porta, o telefone tocou. Pensei até em não atender.
- Alô – eu disse.
- Bom dia, eu queria falar com o senhor Paulo Bono.
- É ele.
- Senhor Paulo, aqui quem fala é Tatiana da Credicard...
- Vai me oferecer algum produto, Tatiana?
- Eu queria estar apresentando...
- Tô desempregado, e meu time perdeu em casa. Não é uma boa hora, benzinho.
- A Credicard agradece, tenha uma boa tarde.
Desliguei o telefone. Saí de casa e fui até a árvore da esquina. Onde estava Rabuge. Sentei.
- E aí – eu disse.
- E aí.
- Calor da porra.
- Tá foda.
- Maresia da porra.
- Tá foda.
- E a cervejaria?
- Botaram um negócio de um teste.
- E aí?
- Me fudi.
- Psicoteste?
- Que porra é essa? Não sou tão burro assim.
- Sei lá, porra. Que teste foi?
- Umas contas.
Falando em contas, lembrei que tinha de tomar cuidado com meus óculos. Sempre quebram quando estou desempregado.
- Mas tô botando currículo – disse Rabuge –, daqui a pouco me chamam.
- Me arranja um cigarro.
- Você fuma, Paulão?
- Vou fumar essa porra.
- E você? Achou alguma coisa? É propaganda, marketing, que você faz, né?
- Cogffh! Cogffh! É uma putaria dessa. Cogffh! Agh! Caralho!
- Que foi, porra?
- Cogffh! Cogffh! Toma a porra do seu cigarro.
Uma coisa é certa. O ar é sempre quente nos piores dias. Desliguei a TV e fui buscar algum vento na janela. Nada. Vi apenas o Rabuge. Um velho amigo de infância. Estava sentado na sombra de uma árvore. Coincidência. Rabuge também não tem o que eles chamam de perfil. Parado há oito meses. Teve que vender o carro, sua alma. Soube que o primo da mulher que ele come ficou de lhe arranjar alguma coisa numa cervejaria. Eu queria ser como Rabuge. Apenas sentar embaixo de uma árvore e acender um cigarro. Não sei por que, mas acender um cigarro é como dizer “tá tudo bem” ou “tô cagando pra isso”.
Eu começava a sentir fome outra vez. Era melhor sair de casa. Quando eu já estava na porta, o telefone tocou. Pensei até em não atender.
- Alô – eu disse.
- Bom dia, eu queria falar com o senhor Paulo Bono.
- É ele.
- Senhor Paulo, aqui quem fala é Tatiana da Credicard...
- Vai me oferecer algum produto, Tatiana?
- Eu queria estar apresentando...
- Tô desempregado, e meu time perdeu em casa. Não é uma boa hora, benzinho.
- A Credicard agradece, tenha uma boa tarde.
Desliguei o telefone. Saí de casa e fui até a árvore da esquina. Onde estava Rabuge. Sentei.
- E aí – eu disse.
- E aí.
- Calor da porra.
- Tá foda.
- Maresia da porra.
- Tá foda.
- E a cervejaria?
- Botaram um negócio de um teste.
- E aí?
- Me fudi.
- Psicoteste?
- Que porra é essa? Não sou tão burro assim.
- Sei lá, porra. Que teste foi?
- Umas contas.
Falando em contas, lembrei que tinha de tomar cuidado com meus óculos. Sempre quebram quando estou desempregado.
- Mas tô botando currículo – disse Rabuge –, daqui a pouco me chamam.
- Me arranja um cigarro.
- Você fuma, Paulão?
- Vou fumar essa porra.
- E você? Achou alguma coisa? É propaganda, marketing, que você faz, né?
- Cogffh! Cogffh! É uma putaria dessa. Cogffh! Agh! Caralho!
- Que foi, porra?
- Cogffh! Cogffh! Toma a porra do seu cigarro.
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