22.7.13

PEC de cu é rola


Foi tudo muito rápido. Eu estava em casa com o peito cheio de dor e gases. Estrangulava a tarde com bobagens na internet enquanto aguardava por um maldito arroto. Foi quando vi esse vídeo do Pelé dizendo para esquecermos as manifestações e apoiarmos o time do Felipão. Só mesmo a Xuxa para dar a buceta a um cara desses. De alguma forma, aquele vídeo me fez mal. Então peguei o telefone, liguei pro Guismo e disse – “Tô dentro”. Bati a porta e desci a rua. Passei num desses armarinhos coloridos e pedi uma cartolina e uma caneta Piloto. Escrevi a frase enquanto a putinha do balcão observava suas unhas. “Só se fala nesse protesto” – ela disse – “mas é contra o quê mesmo?”. Eu disse – “Vamos fuder a bastilha, baby!”. Depois peguei um ônibus e logo estava no Campo Grande já arrependido de ter deixado meu sofá para trás.

A praça estava lotada. Jovens retardados, cocô-boys, xixi-girls, velhos porra-loucas, novos maconheiros, estudantes radicais e pseudorevoltados, como eu, concentravam suas forças e seus cartazes para uma caminhada rumo à Fonte Nova. Uruguai X Nigéria. Prometia um bom jogo. Mas a turma queria acabar com a festa. Um dos problemas era a polícia e suas bombas de gás. O outro é que eu começava a lembrar que eu não passava de um covarde. Nunca fui engajado ou patriota. Sempre caguei pro futuro do nação. Ter apenas compartilhado a porra daquele vídeo xingando o Pelé e o Edson já estaria de bom tamanho e proporcional à minha consciência política. De qualquer forma, andei um pouco pela praça e acabei encontrando o Guismo. Ele estava tocando os Alquimistas numa roda repleta de outros guismos. Todos iguais. Barbicha, camisa xadrez e cabelos assanhados. Como se tivesse chovido a manhã toda e eles tivessem se multiplicado aos montes. Até as putinhas pareciam ter pentelhos no queixo. Guismo se levantou e veio em minha direção. Tinha os olhos vermelhos. Longes e vermelhos.

- Jorge Bem Jor é foda – ele disse.
- Seguinte: – eu disse –  o clima tá bacana, mas acho que vou cair fora.
- Relaxa, gordo. Tem mulher pra caralho aqui.
- Não sirvo pra esse lance de protesto.
- Se eu soubesse que esse negócio de manifestação tinha tanta gostosa, eu já tinha virado presidente da CUT, UNE, MST, essas putaria toda.
- Eu sou alienado, porra...
- Deixa eu ver seu cartaz.
- Tô cheio de gases, uma dor do caralho...
- Hehehehe...de fuder, o cartaz.
- E também não passei Hipoglós na perna, vou me fuder nessa história.
- Segura aí que o Barbosa vai falar.

Então um dos guismos subiu numa das esculturas da praça e começou a falar com ajuda de um megafone. Fez lá uma saudação com os punhos fechados no ar e a turma foi ao delírio. Pareciam estar brincando de revolta, como se imitassem algo que eles viram na TV. O tal Barbosa tinha uns óculos idiotas que lhe faziam parecer um rapazinho educado, mas falava com raiva e cuspe, algo deixaria sua vó morta de vergonha. O barulho na praça e meu déficit de atenção não me deixaram escutar muito bem. Peguei apenas frases soltas como “abaixo a corrupção”, “copa para ricos”, “não sei o que lá do passe livre” e “dedo no cu de Feliciano”, uma coisa dessas. Por fim, Barbosa levantou o punho mais uma vez e a turma bateu palmas. Depois, ele desceu da escultura e se aproximou. Guismo fez as apresentações.

- Barbosa, esse é Bono, o gordo que te falei. Ele trouxe um cartaz maneiro.
- Seja bem-vindo, companheiro Bono. O momento é esse mesmo, de luta, de união.
- Na verdade – eu disse – tava até falando com Guismo que esse negócio de luta...
- Esse é seu cartaz?
- Minha letra é uma merda, mas...
- Muito bom, companheiro Bono. Quer dizer, não diz nada sobre nossa pauta de reivindicações, mas precisamos também dessas afirmativas que não dizem nada, mas também dizem tudo porque é a voz do povo, entendeu? Essa é a voz do povo. Parabéns pelo cartaz, companheiro Bono.
- Ok, se quiser, eu te empresto...
- É que o gordo tá com medo da polícia. – Guismo disse.
- Não chega a ser medo. É que esse lance de bala de borracha...
- Companheiro Bono – Barbosa disse - essa semana eu vi uma mensagem interessante no facebook. Dizia assim, “Se tiver com medo, vai com medo mesmo”.
- Tudo bem, mas vou logo avisando que não pego em arma.
- Nós somos de paz, Companheiro Bono.
- Ok, tudo bem, positivo, companheiro Barbosa. Mas a gente tem algum plano B? Digo, se der merda?
- Companheiro Guismo, toca essa viola. O plano é acordar o gigante.

Barbosa partiu na frente e puxou os rebeldes. Guismo tocou primeiro aquela do Vandré. Ou foi uma de Gonzaguinha, não lembro direito. Não tinha certeza se meu lugar era no front, mas segui o movimento. Ao sair da praça, um neofotógrafo pediu para fazer uma foto do meu cartaz. Eu disse, tudo bem. Mais adiante, com a rua mais estreita, os passos ficaram mais curtos. As cabeças cheias de merda se aproximaram umas das outras formando uma massa sólida e coesa que engolia o asfalto, as calçadas e janelas. Aquilo me fez sentir mais confiante. Talvez até patriota. Foda-se se aquela turma não tinha uma pauta definida. Fodam-se os definidores da razão e da pauta. Foda-se o Pelé e, antes que me esqueça, foda-se o Ronaldo. Vou dizer uma coisa. A avenida estava tomada e não era fevereiro. Aqueles políticos estavam fudidos.

Foi quando dobrávamos o Politeama que escutei alguém chamar o meu nome. Um negro com mais de dois metros, usando boné, óculos escuros e capuz, gesticulava em minha direção. Foi difícil, mas reconheci. Era o Big. Um velho amigo dos tempos do segundo grau. Avisei a Guismo que ficaria um pouco para trás e fui até a esquina. A especialidade de Big era basquete, mas jogamos juntos no lendário My Eggs, o pior time da história. E quando digo pior time, quero dizer que éramos do terceiro ano e levamos 8 X 0 dos moleques da sétima-série.

- Que é que tá fazendo aqui, gordo? – Big disse.
- Que é que você tá fazendo aqui, Big? Tá parecendo um traficante, porra. A sua é essa agora? Vender pó pra estudante?
- Eu sou Federal, porra.
- Virou POLÍCIA?
- Fala baixo, desgraça. Senão essa gente me mata. Passei num concurso em Manaus, lá na casa do caralho, mosquito pra caralho, mas como sou foda, entrei nesse grupo especial, e me trouxeram pra ajudar na segurança dessa copa de merda. Pelo menos aproveito pra ver minha mãe. Tô dando cobertura a uns bacanas e políticos da Nigéria. Mas tô à paisana, disfarçado, monitorando a área.
- Sei como é, tipo Anjos da Lei.
- Só um minuto – disse Big pressionando o dedo num ponto de escuta em seu ouvido -“Pode falar...afirmativo...por enquanto só código 07...o quê?...sei, sei...pão branco....ok...afirmativo, capitão!”.
- O ministro da Nigéria – disse Big – cismou que quer comer Subway. Frango Teriaki.
- Já foi bom. Antigamente eles caprichavam. Hoje, esses escrotos já deixam o franguinho só melado com quase nada de Teriaki.
- E que cartaz é esse? Virou agitador? A sua agora é essa? Você é agitador?
- Melhor do que é ser um reaça.
- Reaça, o caralho.
- E se seus comparsas da federal soubessem que você morria de medo de camundongos?
- Bono, o passado fica no passado. Agora me diga, qual é o plano desses vândalos?
- Caguetar meus companheiros de luta nunca foi o meu estilo.
- Velho, você não acha que eu também queria escrever um cartaz com tudo que eu penso sobre esse país de merda e poder botar minha foto no Facebook? A minha vontade era de enfiar não um Frango Teriaki, mas um B.M.T de 30 cm, no pão de aveia e mel, cheio daqueles carocinhos, bem no meio do cu daquele ministro e de qualquer político desses. Mas só tô fazendo meu trabalho e tô louco pra acabar meu plantão e ir comer a mariscada que minha mãe fez. Você acredita que naquela porra daquela Amazônia ninguém faz uma mariscada decente?
- Ok, Big. Tô emocionado. Então se prepara que o objetivo da galera é invadir o campo, furar a bola e acabar com o baba.
 - Então segura o cu, vocês. Porque os homem armaram duas linhas de quatro no dique, que não passa porra nenhuma. E se eu fosse você, me picava pra casa, porque um passarinho verde e amarelo me disse que o pau vai cantar.

Foram mais ou menos as últimas palavras do Big, que agora é era da Federal. Depois nos despedimos, aperto de mão e tapa nas costas. Enquanto ele partiu para uma diligência até a Subway do corredor da Vitória, eu voltei para a caminhada e acelerei o passo para tentar reencontrar Guismo e Barbosa. O protesto desceu o Politeama e o Vale dos Barris até esbarrar nos arredores do Dique do Tororó próximo ao estádio.

Como o Big havia dito, um cordão de policiais fechou qualquer passagem ao redor do Dique, com direito a polícia montada e helicóptero na cobertura. Foi então que os rebeldes estancaram o passo. Nenhum sinal dos companheiros Guismo e Barbosa. Ainda assim, o clima seguia tranquilo. Jovenzinhos sorridentes e até idosos com faixa na cabeça ainda ficaram por ali erguendo seus cartazes e cantarolando rimas fáceis exigindo isso e aquilo do governo. Foi quando notei essa pequena rebelde. Sozinha, peitudinha, cheia de personalidade. Seu cartaz dizia algo sobre o amor não ter cura. Sempre acho que, na hora de fuder, essas ativistas radicais se convertem e só querem um macho que mostre quem é que manda no pedaço. Me aproximei.

- Pelo jeito, o negócio aqui esfriou – eu disse.
- O quê?
- É que sei de um lugarzinho ali na Carlos Gomes...
- Do que você falando, cara?
- Que a gente podia fazer verdadeira revolução. O que acha?
- Seu cartaz...
- Gostou?
- Só não é mais idiota que você.

BOOM!!!BOOM!!!!BOOM!!!!

As bombas de gás vieram de todos os lados, inclusive dos céus. Então larguei meu cartaz e disse – “CORRE, PUTA!”. Agora, a luta era pela sobrevivência. As pessoas corriam, choravam, cobriam os rostos e se batiam umas nas outras. Fiz minha parte e improvisei um plano B. Corri feito o mais autêntico dos covardes. Corri como um filho da puta que foge à luta. Corri e finalmente arrotei. E quando meus olhos começaram a arder, corri sem medo de fazer a ridícula cena de um gordo correndo. “Voltem! Voltem” - uma sapatona engajada gritou – “Não corram! É isso que eles querem!” – “Vá tomar no cu!” – Joguei de volta. Corri até atravessar o Politeama e a Avenida Sete. A estratégia era me afastar ao máximo da zona de conflito. Só desacelerei quando alcancei a Carlos Gomes. Mas continuei em passos firmes. Siga em frente, gordo, e não olhe para trás. Você não serve pra isso. Pensei nos meus companheiros. Talvez Guismo já não tivesse mais um violão. E a essa altura, o promissor Barbosa já estaria levando choque nos ovos. Eu já não tinha mais fôlego. Então parei numa dessas barracas que vende tudo e pedi uma Coca-Cola. A TV estava ligada. A Espanha metia 7 no Taiti. “Respira, gordo” – disse o coroa da barraca – “Tava no protesto?”. Virei um gole da Coca-Cola e disse “Caralho, eles meteram bomba do nada”. Jovens ainda caminhavam apressados. As putinhas estavam histéricas, irracionais. Escutei novos estouros e lembrei Michel Corleone. “Política é saber a hora de puxar o gatilho”. Pênalti pra Espanha. Soltei um grande arroto. O cara bateu pra fora. O goleiro do Taiti comemorou, vibrou com todas as forças como se fosse uma grande vitória. Engraçado. Era a segunda vez naquele dia que eu lembrava do My Eggs.   

9.6.13

Espalitando, a porra do livro.

A vida é mesmo uma grande punheta. Uma hora a porra sai.
Esse aí é o Espalitando. Uma coletânea dos contos e crônicas que escrevo por aqui desde 2006, que traz de brinde alguns textos inéditos.

O lançamento rolou no último dia 04 de junho aqui em Salvador.
Foi num barzinho legal, rolou gente bacana, um bom papo, algumas garrafas de vinho, essas coisas.
Enfim. Foram vocês leitores do blog que me incentivaram a publicar essa porra.


Agora, quem quiser adquirir esse livro mais ou menos basta clicar nesse link do pagseguro no canto direito da página. O botão ficou estranho, em cima da capa. Mas foi o que consegui fazer.
Mando com dedicatória e tudo.

Valeu.
Abraço,
Bono

29.5.13

04 de junho

Acho que tudo começou quando meu amigo Cidade me deu de presente Numa Fria. Um livro de contos que falava sobre putas, bêbados, peidos e loucuras. Tudo muito divertido e bem próximo da realidade. Então corri atrás do autor e encontrei o Misto Quente. Caralho, pensei, o que é isso? O cara vomitava naquelas páginas toda a merda que foi a sua vida, seu desprezo pela humanidade, os traumas e decepções que se acumularam em forma de pus no seu rosto. Era uma mistura de raiva, humor e melancolia. Eu nunca tinha lido nada parecido. Me identifiquei imediatamente. Bukowski era um soco que quebrava todas as pedras do meu rim direito. O problema, como vi uma vez o Reinaldo Moraes dizer, é que o Velho era tão direto, que todo mundo pensava que era fácil e que podia fazer igual. Agora eu estava ali. Diante da tela em branco do computador. Queria escrever, mas não sabia por onde começar. Logo eu, que cultivava o mesmo vocabulário desde os 12 anos, que pelo jeito não era capaz de escrever nem meros títulos publicitários ou mensagens de 30 segundos para vender carro em promoção. O interessante é que o Buk escrevia textos monstruosos contando apenas como foi o seu dia. Bem, eu podia escrever que mais uma vez eu estava desempregado, que fui até o outro lado da cidade cobrar um freelance e o sacana me enrolou mais uma vez. E que no caminho de volta peguei um ônibus lotado com um escroto ouvindo pagode no volume máximo do celular, e que enquanto muitos acham isso uma maravilhosa demonstração da espontaneidade e da alegria do povo baiano, eu vejo como uma cena asquerosa que me separa cada vez mais da minha cidade. Eu só não queria escrever que agora eu teria que voltar a morar na casa dos meus pais. Isso me faria parecer um idiota. Eu queria ser um cara durão. Pelo menos nos textos. Esse era o problema. O Velho Safado dormiu nas ruas, viu a miséria, foi preso, passou fome, levou muita cacetada. Escrevia com sangue nas mãos. Eu não apanhei tanto assim. Os covardes não apanham muito. Mas também eu nunca havia subido no pódio de chegada. Eu estava no meio da estrada. Nem lá, nem cá. No meio termo. Na média. Na métrica da vida, eu me equilibrava no que eles chamam de mediocridade. Talvez eu não tivesse nada interessante para contar sobre minha vida. Então lembrei de um velho amigo e resolvi contar sua história. Cheguei a escrever o título “O homem que só trepava em Salvador”. Foi nessa hora que Nina abriu a porta. Ela ainda tinhas as chaves. No seu chaveiro dos Smiths.

- Oi.
- Se tivesse me avisado que vinha, eu tinha comprado, sei lá, umas salsichas pra fazer cachorro-quente.

Nina sentou no sofá. Seus peitos continuavam gostosos.

- Como é que você tá? – ela disse.
- Você não avisou. Acho que só tem cream-cracker com Nescau.
- Não vou demorar. Só vim pegar umas coisas.
- Tô aqui tentando escrever um blog.
- Já sei, sobre o Flamengo.
- Acho que sobre tudo. Vai se chamar Espalitando Dente.
- Combina com você – ela disse indo em direção ao quarto – você vai no casamento de Claudinho?
- Acho que não.
- Você tem que sair de casa. E Claudinho é seu amigo. Não é você que diz que a gente tem que considerar os amigos?
- Não tenho roupa pra casamento. Esse negócio de calça social, camisa social, eu fico que nem um idiota com roupa social. Acho que a única camisa social que tenho foi do tempo da minha formatura. Nem dá mais. Caralho, essa turma tem que entender que gordo não tem roupa sobrando no guarda-roupa. E foda-se! Eu não tô afim de pegar um busu lá pro Comércio, só pra ir pra ir na Loja do Gordinho comprar uma porra de uma calça social. Vai tomar no cu. Aliás, não tenho nem dinheiro pra isso.
- Paulo...
- E também não tô afim de ver um padre bancar o porreta dando mensagem sobre o que faz um casamento feliz...cambada de padre safado!
- Paulo, foi só uma pergunta. Não vá.
- Manda um abraço pro Claudinho. Diz a ele que eu não tinha calça pra ir.
- Por que você não vai trabalhar com seu pai?
- Já tentou trabalhar com seu pai?
- Vou levar esses CDs, ok?
- Você já tá transando com alguém?
- Essas vasilhas são de sua mãe.
- Fale a verdade.
- Aqui, vou deixar as chaves.
- Se não responder, é porque já tá transando.
- Pronto. Vou ficar só com o chaveiro.
- Já vai? Caralho, eu podia ter feito um cachorro-quente.
- Tchau, Paulo. Se cuida – Nina disse batendo a porta.

Nina era um mulherão. Já devia ter arranjado outro cara. A essa altura, ela já devia ter contado pro filho da puta que seu ex era gordo, tinha o pau pequeno e não conseguia trepar de ladinho. Com certeza, estavam rindo às minhas custas todas as noite depois de uma foda. A presença de Nina naqueles minutos me deixou de pau duro. Depois de conseguir escrever meu primeiro texto, eu bateria uma punheta em sua homenagem. É isso. Eu escreveria um puta texto, sem respirar, do início ao fim, e depois do ponto final, eu abriria alguns sites de sacanagem e bateria uma bela bronha para Nina. Ou talvez não precisasse ser para Nina. Seria para alguma putinha do site. Primeiro o texto, depois a punheta, um banho e cama. Ou podia bater uma durante o banho, sei lá. Ou então eu escreveria apenas o primeiro parágrafo para abrir o caminho. Pra ter certeza do que eu quero dizer, depois bateria minha bronha, depois voltaria pro texto. Todo dia tem uma putinha nova nesses sites. Tudo bem, era só meu primeiro texto. Podia esperar. Então abri logo umas duas páginas de putaria e mandei ver.

Bem, isso faz uns seis ou sete anos. Não sei. Agora, estou olhando para o livro em minha frente. Está ali, impresso, registrado, bem diagramado, com um cachorro vira-lata na capa, como sempre imaginei. Um trabalho bacana do editor Saulo Ribeiro e de toda sua equipe da Editora Cousa. Bem, agora, só me resta continuar escrevendo. Ao menos vou tentar. Quero escrever porque preciso. Quero escrever pra ver se consigo. Vou escrever porque ninguém me perguntou. Vou escrever pra sorrir um pouco e botar cabeça no travesseiro tranquilo. Vou escrever porque fora das linhas não passo de um covarde. É por aí. Porque apesar do livro publicado, continuo gordo. Nada mudou. Os dias continuam difíceis. Mas vamos em frente. O lançamento é 04 de junho, num lugar bacana chamado Visca Sabor & Arte, pelas bandas do Rio Vermelho. A gente se vê por lá.


25.2.13

2ª divisão

São dois motivos que me fazem ter vontade de emagrecer. Conseguir fuder de ladinho e jogar bola.

Era uma confraternização da agência. A turma bebeu, comeu e trocou alguns presentes. Depois alguém disse, “Ei, vamos bater esse baba!”. Fazia mais de dez anos que eu não chutava uma bola. Mas precisavam de mim para completar o time. Então resolvi encarar. Sete de cada lado, fora os goleiros. Me colocaram na frente, na banheira, onde eu não pudesse fazer tanto estrago. Era um belo gramado. Dava para a bola correr macia e jogar um bom futebol. Mas como tirei os óculos, eu precisava apertar os olhos para enxergar meu time. Meu peso também não me deixava correr. Era como se eu carregasse fardos de cimento sobre as costas e correntes de chumbo me segurassem ao chão. Nem sempre foi assim. É difícil de acreditar, mas já fiz meus golzinhos em outros tempos. Com os anos, fiquei cada vez mais gordo e me afastei dos babas. Era impossível jogar com os boleiros, esses que levam o jogo a sério. A cada lance que eu perdia, algum escroto gritava – “Porra, gordo!” – e eu dizia – “Vai tomar no cu! ” – E as coisas não acabavam muito bem. Mas aquele baba da agência tinha o nível que eu precisava. Os caras estavam bêbados, outros chapados de maconha, alguns já tinham cabelos brancos, outros nunca jogaram bola. Queríamos apenas matar o tempo, se divertir, esquecer os problemas. Lembro que teve esse lance. Um cara chamado Bob Jones. Desconfiávamos até da sua sexualidade, mas era o melhor do meu time. Ele driblou o primeiro, driblou o segundo e arrancou pela esquerda. Como manda a cartilha do bom centroavante, acompanhei a jogada correndo na diagonal. Aquela jogada clássica. Bob Jones chegou à linha de fundo, ergueu a cabeça e cruzou. A pelota veio girando em supercâmera lenta, me antecipei ao goleiro, tomei impulso e pulei. Mas só consegui pular na altura de uma gilete e ainda caí de uma maneira ridícula. A turma toda riu. As putinhas que assistiam ao jogo acharam aquilo o máximo. Fiquei ali, deitado na grama por alguns instantes, sem respirar, sentindo uma navalha cortar minha garganta e o coração bater em disparado. Foi nessa hora que pedi para ir para o gol, e meu time perdeu a partida.

Não é fácil aceitar a crueldade do tempo e perceber que temos um prazo curto de validade. Lembrar de quem você já foi e reconhecer quem está hoje diante do espelho. Não falo de cabelos brancos ou rugas. Talvez de energia. A mente pedir e corpo não obedecer. Isso pode fazer muito homem chorar ou parar no hospício. Outro dia assisti ao amistoso do velho Zicão. O cara ainda sabia tocar na bola. Mas em um lance simples, o Galinho esticou a perna, tropeçou no vento e caiu melancolicamente diante do gol vazio. Como se Deus estivesse praticando uma de suas piadas de mau gosto e ainda vestido com a camisa do Vasco. Meu caso é mais simples. Meu peso e minha coluna já não me deixam fazer muita coisa. Por outro lado, não chego me sentir tão mal. Porque nunca fui um camisa 10, nunca fiz um gol de bicicleta, nem nunca levantei a taça de campeão. Sempre estive no banco de reservas, e a vida toda fui um jogador da segunda divisão.

Enquanto isso, vou me relacionando com o futebol apenas pela TV. Se que bem que o próprio futebol anda um chute no saco. Há muita violência, torcedores idiotas, mais marketing do que futebol. De alguma forma, perdeu a graça, a espontaneidade. Dizem até que não há nada mais vulgar do que eu torcer pelo Flamengo. Isso porque meu documento de identidade diz que nasci em Salvador. Mas vamos fazer o seguinte. No dia que alguém pagar todas as minhas contas, eu torço para o time que você quiser.

30.1.13

Tempo de violência

A Lapinha até que era um lugar decente. Onde famílias sentavam-se nas portas de suas casas, casais se espremiam atrás da igreja e crianças corriam com algodão doce, esse tipo de coisa. Como uma pequena cidade do interior perdida bem no meio da capital. E no final da tarde, você ia comprar o pão escutando aquele chiado escroto das cigarras. Mas nem tudo era poesia naquelas ruas de paralelepípedo.

• 

Passamos quarenta minutos de tocaia. Apenas observando o movimento na banca de Seu Antônio. Éramos eu, Queixão, Rubalo, Vaca e Ultraseven. Seu Antônio tinha uma banca de revistas na esquina. Um senhor de idade, seus reflexos já não eram lá essas coisas. O plano era simples. Eu e Rubalo distrairíamos o velho, enquanto os outros atacavam a lateral da banca para roubar figurinhas do campeonato brasileiro. Eram os anos 80. Precisávamos nos divertir.

- Quanto é a Playboy, Seu Antônio?
- Ham?
- Essa com a loira na capa.
- É pra maior de 18, filho. Vocês não podem ver essas coisas.
- Então me dá aquela de quadrinhos.
- Qual?
- Aquela.
- Chico Bento?
- Não, a outra.
- Essa?
- A outra.
- Mas essa também é de ozadia.
- Porra, Seu Antônio.
- Por que não levam a do Chico Bento? Eu me divirto com Chico Bento.
- Então vou levar só uma jujuba.

A missão foi um sucesso. Depois nos encontramos na porta da igreja. Dividimos o bolo de figurinhas em partes iguais. Durante o golpe, Queixão também pegou figurinhas dos Ursinhos Carinhosos. Não entendemos direito. Mas ele disse que era um presente para sua irmã. Então cada um separou seus cromos favoritos, e reservamos alguns para a disputa no bafo. Foi nessa hora que um sabugo de milho chupado acertou em cheio a cabeça de Rubalo. Eram os pivetes da Avenida Peixe que estavam invadindo o Largo da Lapinha. Vaca foi o primeiro a correr. Depois, Queixão, Rubalo e Ultraseven também fugiram deixando para trás suas figurinhas. Eu não consegui sair do lugar.

A Avenida Peixe sempre foi barra pesada. Além de mais altos e mais fortes, aqueles caras costumavam andar armados com facas e porretes. Eram jovens marginais promissores, que hoje devem ser chefes do crime na cidade. Quero dizer, os pivetes da Avenida Peixe eram o nosso maior pesadelo. E agora, quatro deles vinham em minha direção, liderados por ninguém menos que César Diabo. O mais temido na Lapinha, na Avenida Peixe, na Liberdade e também no inferno.

• 

Hora de contar a história de Vander Crioulo. Muitos ainda se lembram de Crioulo como um dos maiores delinquentes da Lapinha. Vivia de roubos, arrombava casas e carros com a mesma facilidade, bom de briga, jogava capoeira, desvirginava mocinhas inocentes, batia em velhos e doentes, tocava o terror, botava fogo em cachorro e talvez fosse o maior ladrão de io-iôs da Coca-Cola. Certa vez cismou comigo, me deu um tapa na cara e jogou minha sandália no telhado sem o menor motivo. Pois é. Um dia Vander Crioulo inventou de roubar uma sorveteria na Avenida Peixe. Parece que César Diabo não gostou da ideia. Além de arrebentar vários dentes de Crioulo na base do soco, César Diabo quebrou-lhe uma porta na cabeça e o fez prometer que nunca mais pisaria na Avenida Peixe. E mesmo Crioulo chorando de joelhos e pedindo penico com a boca cheia de sangue, César Diabo ainda enfiou um picolé de nata goiaba no cu de Crioulo, que gritou feito uma garotinha virgem de cu. Depois desse episódio, Vander Crioulo virou um dos maiores viados do bairro, com short enfiado e tudo, e passou a se chamar Vander Goiaba.

• 

Então lá estava eu sentado na porta da igreja diante de um César Diabo com os punhos fechados. Seus capangas seguravam canivetes. Eu já fazia uma prece silenciosa pedindo para que não comessem o meu rabo.

- Por que não correu, gordo? – disse o diabo.
- Vocês iam me pegar de qualquer jeito.
- Você é o espertinho da turma?
- Claro que não. Sou só o gordo.
- Acaba com ele, diabo. – disse um dos capangas.
- Mostre que sabe apanhar – disse Cesar Diabo arrancando minha sandália e jogando em cima do telhado mais próximo.
- Merda, de novo... – eu disse, me levantando.
- Não fui com a cara desse gordo – disse outro capanga.
- QUE DESGRAÇA! – gritou César Diabo.
- Qual foi, diabo? – perguntou um capanga.
- Um fiapo de milho no meu dente. Não quer sair nem com a porra. Fico agoniado. São duas coisas que eu odeio, esses otários da Lapinha e fiapo no dente. Gordo, tô com vontade de rachar sua cara só por causa desse fiapo no meu dente.
- Calma – eu disse – a gente consegue um palito no bar do Miguel.
- Fiapo no dente é uma miséria – disse um dos capangas – só sai com palito, diabo.
- Cala a boca – disse diabo.
- O gordo tem figurinha dos Ursinhos Carinhosos.
- Tô dizendo – disse César Diabo – Na Lapinha só tem viado!
- Calma, pessoal – eu disse – Isso aí é da puta da irmã do cara.
- PORRA NENHUMA, O GORDO É VIADO!
- As minhas são essas – eu disse mostrando os cromos do campeonato.
- Torce pra que time, gordo?
 - Veja bem, eu sou Flamengo, é que...
- Eu também sou Flamengo. Zico é meu fã.
- É o contrário.
- O quê?
- Você é fã de Zico.
- Isso que eu disse, porra. Zico é meu fã. Eu bato falta que nem o Zico.
- Diabo chuta que nem o Zico – disse um dos capangas.
- Gordo, vou liberar você só por causa do Zico.
- Verdade, o galinho é foda.
- Mas vou te pedir uma coisa.
- Já sei. A figurinha do Andrade?
- Porra de figurinha. Eu sou viado?
- O gordo acha que o diabo é viado que nem ele.
- Você conhece Téo Robocop?
- Que tem um poodle chato?
- Quero que você dê um recado a ele.
- Tudo bem.
- Diga a Téo Robocop que ele tinha que dar o dinheiro do bagulho ontem. Hoje já é hoje. Se ele não aparecer com a porra do meu dinheiro, vou meter fogo nele e naquele cachorro nojento dele – disse César Diabo levantando a camisa e revelando que os pivetes da Avenida Peixe agora também trabalhavam com armas de fogo.

• 

À noite, o Largo já estava mais tranquilo. Parecia bem mais aquele cenário do interior. Alguns casais dividiam pipoca no palanque e taxistas comiam acarajé na baiana que instalava seu tabuleiro junto à banca de Seu Antônio. Ultraseven e eu estávamos sentados na porta da igreja. Eu contava sobre meu embate com César Diabo quando Vaca apareceu com uma novidade. “Se querem fuder, me sigam!”.

Seguimos Vaca até o antigo prédio ao lado da igreja. Subimos as escadas e paramos no 102. Havia muito barulho, sobretudo um latido de cachorro. Alguém abriu a porta e entramos. Jamais vou esquecer aquela imagem. Uma sala sem móvel algum, piso de tacos, apenas um colchão no meio. E sobre o colchão, Tico Pé de Pato comia Matilde Maluca, na presença de um poodle ensandecido.

Matilde Maluca era a louca da Lapinha. Surgia do nada e ficava transitando por ali, sempre com seu vestido azul florido. Conseguia restos no bar do Miguel, sentava no palanque, conversava sozinha e dava voltas ao redor na igreja catando pontas de cigarro. Agora ela estava ali, com as pernas abertas, e Tico Pé de Pato metendo feito um animal. Matilde Maluca apenas sorria. E havia uma turma assistindo. Era os “caras grandes”, uma geração mais velha da Lapinha. Estavam Big Juca, Perninha, Fred Feijão, Júnior Três Dentes, Jessé, Silvio Negão e Téo Robocop. Alguns bebendo, outros com o pau na mão, outros rindo. Cada um esperava sua vez. Quando Tico Pé de Pato acabou o serviço, Fred Feijão se aproximou e derramou um gole de cachaça na boca de Matilde Maluca. Então Jessé baixou a bermuda e meteu.

- A gente vai poder meter também? – Vaca disse.
- É só vocês entrarem com a grana da cachaça – disse Téo Robocop – Essa doida gosta de cachaça. A gente deu dois copinhos, ela ficou doida, pediu mais, a gente deu. Matilde Maluca ficou maluquinha.

Jessé gemeu engraçado e gozou rápido. Era o a vez de Silvio Negão.

- Ela tem uma xota cabeluda – Ultraseven disse.
- Ás vezes, essa puta grita – disse Téo Robocop – Por isso eu trouxe o Shazam. Ele late e abafa a gritaria. Pra não chama a atenção dos vizinhos. Não foi uma boa ideia?
- César Diabo mandou um recado – eu disse.
- Gordo – disse Téo Robocop – por que você tá de Conga? Parece um tabaréu.
- Se você não pagar o que deve, ele vai te matar.
- Esquece o diabo, gordo.
- E vai meter a porra no Shazam também.
- E vocês? Não vão botar seus pauzinhos naquele buraco molhado? Não querem deixar de ser donzelos? É a chance. Mas vou logo avisando. Tem uns caras usando camisinha, outros não. Deve tá uma sopa ali dentro.

Silvio Negão meteu de algum jeito que Matilde Maluca começou a gritar. Mas o poodle latia mais alto. Quando Silvio Negão acabou, Vaca ganhou a sua chance. Eu não queria participar daquilo. Se os caras vissem o meu pau, eu seria a piada da noite. Além disso, algo me dizia que aquilo não estava certo. Parecia um show de horror, de covardia. Ou talvez eu fosse o maior de todos os covardes por não tentar impedi-los nem sequer meter a pica. Ao invés disso, preferi deixar o apartamento, correr de volta pra casa e bater uma punheta pensando em Matilde Maluca.

De certa forma, essa história tem até um final feliz. Téo Robocop e o poodle sobreviveram. E Matilde Maluca ainda teve um bebê. Ninguém jamais soube quem era o pai de verdade. Diziam ser de Ultraseven. Porque o garotinho era negro e cabeçudo.

27.12.12

Comprei um queijo cuia

Véspera de Natal. Aproveitei a tarde para cortar o cabelo. A cada dezembro, são menos fios de cabelo. Por isso foi rápido. Depois encarei o mercado e comprei um queijo cuia. Finalmente. Digo, finalmente, porque sempre achei caro demais.

No caminho de volta, a rua estava daquele jeito. A humanidade em ação. Comprando, gritando, gesticulando, se esbarrando e cuspindo. Ambulantes ouviam Roberto Carlos em versão de arrocha. O calor só piorava as coisas. Achei que fosse enlouquecer. Se continuasse ali, eu poderia matar alguém em pleno Natal. Foi quando vi essa igreja com a porta aberta. Entrei. Estava vazia. Apenas algumas velhas beatas arrumavam o altar. Escolhi um banco e sentei. Só conhecia igrejas em dias de casamento e batizado. Sem as pessoas, parecia um lugar agradável. Por um momento me senti em paz. Queria permanecer assim e sem pensar em nada. Mas acabei pensando naquelas pessoas lá fora. Era mesmo o inferno, mas pareciam felizes em comprar. Talvez não haja nenhum mal nisso. Vejo muita gente meter o cacete no Natal. Eles dizem que não passa de uma festa consumista. Mas percebo também que são as mesmas pessoas que passam o ano todo à espera do novo modelo do iphone. Fala alguma coisa, Jesus Cristo. O que acha disso tudo? O silêncio me fez pensar também no ano que passou. Encarei uma grande guerra e caminhei por campos minados. Além disso, teve protusão discal, alergias, TOC, dores na nuca, o futebol medíocre do Flamengo. Foi um ano difícil. Eu merecia mesmo aquele queijo cuia. Um cara entrou na igreja e começou a instalar um teclado na caixa de som. Lembrei de uma tecladista que tocou certa vez num casamento. Era cega. Uma coisa linda. Um dia ainda como uma ceguinha. Direi que sou bonito, ela vai acreditar, e faremos amor no escurinho. Essa ideia me deixou de pau duro. Bem que eu toparia uma trepada na igreja. Só acho que não seria nada original. Então uma beata ouviu meus pensamentos e se aproximou.

- O senhor pode nos ajudar?
- Desculpa, não sou católico, eu só tô…
- Pra colocar a cortina. É que somos baixinhas.
- Cacete, vamos lá.

A beata me levou até uma pequena sala. Havia mais duas velhinhas ali dentro. Apontaram os ganchos da cortina lá em cima e a porra de uma escadinha enferrujada.

- Mas esse negócio não vai me aguentar – eu disse.
- É uma boa escada.
- É que sou pesado.
- Quer que eu segure o queijo?
- Tudo bem.

Então botei o pé no primeiro degrau, e a escada começou a tremer e a ranger. “Pode ir, a gente tá segurando!”. Voltei a sentir aquela sensação de paz e tranquilidade. Não havia mais nenhum sinal de medo naquela sala. Subi a escada, encaixei a cortina no primeiro gan-CRAABUUMMM! Foi tudo muito rápido. Logo a porra da escadinha estava partida ao meio e eu estirado no chão.

- PUTA QUE PARIU!
- Valha-me, Nossa Senhora!
- CARALHO!
- Jesus, Maria e José!
- BUCETA!
- Ajuda ele, Isaura! Ajuda ele!
- TÔ ALEIJADO PORRA!

Bem, era apenas uma puta dor nas costas. Mas eu ainda estava vivo.

- Desculpa pela escada. Mas preciso ir agora.
- Não entendi. Era uma escada tão forte.
- Me passa o queijo.
- É que ele é pesado.
- Bom natal pra vocês.

Quando deixei a igreja, a rua estava mais calma. O sol já estava se pondo. Cheguei em casa e liguei a TV. As costas aindam doíam. Resolvi tomar um banho quente. Depois abri a lata do queijo cuia, cortei três toras de queijo e coloquei num pão. Passava uma retrospectiva dos gols mais bonitos do ano. Depois entrou esse comercial do chester da Seara. Enquanto preparava o chester, uma mãe branca conversava com sua pequena filha negra. Falava sobre carinho, amor e cumplicidade. Bem, não tinha Papai Noel, renas ou duendes. Mas acho que vendia essa coisa do Natal.

10.12.12

Esquece, Arnô

Alguns anos são mais complicados. Naquele tempo eu dividia as minhas horas em entrevistas de emprego e deitado no sofá. Com tempo de sobra, eu também conseguia assistir o Intercine todos os dias. Mas nunca cheguei a ligar para escolher o filme. Numa daquelas madrugadas, o telefone tocou. Era o Arnô. Um velho amigo que também só andava com os bolsos vazios.

- Tá assistindo o Intercine? – Disse
- Tô.
- Eu sabia. Eu também.
- E aí?
- Precisamos fazer alguma coisa.
- Do que você tá falando?
- A gente precisa trabalhar. Ganhar dinheiro.
- Eu tento, mas eles não me querem.
- Vamos abrir uma agência?
- Como assim, abrir uma agência?
- Você não é formando em publicidade?
- Relações Públicas.
- Que porra é essa?
- Eu também não sei.
- Acho que teríamos uma boa agência.
- Eu não sei o que precisa para montar uma agência.
- Podia ter paredes coloridas, e a gente ia tocar violão a tarde toda.
- Esquece, Arnô.
- Então vamos abrir um escritório de engenharia.
- Engenharia, eu?
- Acho que dá certo. Eu tô quase formado. E podia ser engenharia com webdesign. Você não mexe com esse negócio de Corel, porra?
- Esquece, Arnô.
- Já sei. Televisão.
- O quê?
- A gente podia ter um programa de TV e contar várias piadas, várias histórias.
- Puta que pariu, Arnô.
- Falar nisso, você precisa conhecer Seu Totonho. Ele sabe cada história engraçada.
- Quem é seu Totonho?
- O velho que consertou meu bandolim.

 Isso já faz quase uma década. Arnô já ligou mais algumas vezes com outras propostas. Já me chamou para abrir uma loja de peixes, uma casa de bonsai, um bloco de carnaval, um puteiro em brotas, uma franquia do habib's e um cursinho pré-vestibular via internet. Certa vez insistiu que devíamos mandar um email com nossos currículos para a TV Bandeirantes para trabalharmos no CQC. Não sei se Arnô é louco ou algum tipo de gênio. Só sei que para a grande maioria das pessoas todos os anos são complicados. O mar nunca está calmo. Tenho amigos procurando emprego. Tenho amigos infelizes em suas mesas. Chegamos aos trinta e poucos e ainda não avistamos a terra firme. Onde é a linha de chegada? É uma pergunta idiota. Porque o mundo vai estar sempre lá fora dizendo, “Vamos, desgraçado, não pare de nadar”.

Enquanto isso, Arnô segue seu caminho. Hoje me mandou um email propondo sociedade num projeto para mudar o futebol baiano e talvez revolucionar o futebol mundial. O projeto tinha três linhas. Respondi: “Esquece, Arnô. Para mim, o futebol está perdendo a graça”. Também já atravessei várias noites buscando uma ideia que transformasse meus dias. Então percebia que eu não sabia fazer nada. Bem, é verdade que consegui entrar numa agência de propaganda. Tem até um violão sobre a mesa. Mas só sei tocar as mesmas músicas de sempre.

19.11.12

Os últimos centavos

Era minha última noite em Feira de Santana. O último round. E eu estava esgotado. Deixei a agência sem me despedir. Caminhei pela avenida morta sem uma noção exata de futuro. Sem grandes objetivos, ao não ser o de me livrar da cidade. Entrei numa delicatessen encardida. Comprei um bauru e uma garrafa de vinho. Continuei caminhando até encontrar essa trabalhadora embaixo de uma árvore. Perguntei como estava a carne. Setenta, sem o toba. “Vamos nessa” – eu disse – “E ainda tenho aqui pra gente uma garrafinha e um bauru sensacional”. Ela disse que topava o bauru, mas que não bebia em serviço. Então minha nova e última amiga de Feira me seguiu na avenida. Logo estávamos abrindo a porta do meu quarto.

- Cara, você dorme numa esteira – ela disse.
- Mas o chuveiro é quente, baby.
- Ah, você comprou o bauru na Deli-Deli. É o melhor da cidade.
- Vamos combinar o seguinte. Eu emborco meu vinho e você chupa.
- Tudo bem.

Meu último suspiro em Feira. De calça arreada e virando uma garrafa de vinho no gargalo enquanto uma puta fazia seu bocketshow. Era uma jovem bonita e esforçada. Mas o show era amador e sem jeito. Aquela maldita pressa das putas baratas. Eu apenas bebia. Não sentia nada. Tomei mais um gole e a mandei ficar de quatro. Ela obedeceu e se jogou na esteira. Botei a porra da camisinha e me aproximei.

- AAAAAAHHHHHHH, DELÍCIA!
- Calma, caralho! Eu nem meti ainda.
- Ah, tá.
- Agora receba!
- YAHHHHHHH!! UUUOOOHHHHHH!!, VAAAAIIIIII, DELÍCIA!
- Mais baixo, porra! Dona Zeni é evangélica.
- Dona Zeni?
- A senhoria. Ela mora embaixo e é chata pra caralho.
- Ah, desculpa.
- Outra coisa. Não me chame de delícia.
- Você não gosta, paixão?
- É que tenho certeza que não sou delícia. E eu sei que você não me acha delícia. Então não precisa fingir que sou delícia. Vamos jogar limpo. Vamos agir naturalmente.
- Tá bom, paixão.
- Sem paixão também.

Comecei a meter. Mas a coisa ainda não funcionava. Eu fazia força para me concentrar. Fechei os olhos e pensei na Vera Fischer de Riacho Doce, na Mônica Bellucci sendo estuprada e na dona Marta, que servia quentinha na agência. Mas era um vai e vem sem propósito, um movimento automático de carne sem vida. Eu me derretia em suor e sabia que não conseguiria gozar. Talvez já fosse o vinho fazendo efeito. Quando os abri os olhos, percebi que enquanto eu metia alucinadamente, ela lia e fazia anotações numa revista da Avon. Parei e enxuguei o rosto. Virei mais um golada do vinho e deitei ao seu lado.

- Que foi? Não tá conseguindo? – ela disse.
- Mais tarde bato uma.
- Me passa o bauru.
- Qual o caso da revista?
- Eu também vendo Avon. Comecei agora.
 - Reparou que todo mundo em Feira tá sempre negociando alguma coisa?
- Quer pedir alguma coisa? Vem dia 28. Eu posso trazer aqui.
- Pode ser uma daquelas promoções de desodorante roll-on.
- Massa. Deixa eu anotar.
- Se eu não estiver, pode deixar com Dona Zeni.
- Humm. Esse é o melhor bauru que existe. Quer um pedaço?
- Tô enjoado.
- Você é legal.
- E você, uma délicia.

Logo depois, paguei o serviço e ela deixou o quarto. Não passava nada na velha Toshiba 14 polegadas. Matei o vinho e fiquei na janela observando a pobreza da rua. Era uma noite sem charme. Como todas as noites naquela cidade. De certa forma, pude viver Feira de Santana. Pulando de pensão em pensão, escapando com vida de um colega de quarto psicopata, perseguido por um ex-marido ciumento e estúpido, brigando em mesas de dominó, perdendo o salário em mesas de poker e vivendo a base do pastel do tio da unha preta. Eu tinha 20 e pouco anos e aprendi bastante. Sobre oportunismo, desonestidade, traições, manobras, mesquinhez, artifícios e fachadas. Dizem que Feira é um dos maiores polos de desmanches de carros roubados do Brasil. Não tenho certeza. As pessoas exageram. Só sei que eu sentia pena dos desmanchadores de carros, dos ladrões de carteira e das putas de Feira de Santana. Eles estavam cercados. Aquela cidade amava o dinheiro. E eu fazia questão de não levar comigo nenhum centavo que lembrasse suas avenidas, seus negócios e escambos. Eu ainda tinha 30 conto no bolso. A passagem para Salvador era 25 reais. Então abri a porta e desci as escadas. Atravessei a rua e fui até o copo sujo da esquina. Pedi uma garrafa de vinho. A mais barata. São Jorge. R$ 4,25. Restariam ainda no meu bolso 75 centavos daquela cidade. Mas ao deixar o boteco, atirei as duas malditas moedas no esgoto. De volta para os ratos.

30.7.12

A punheta da vida

Meu sonho era comer Andrea Canivete. Eu devia ter 17 ou 18. Era uma das putinhas mais avançadas da área. Diziam que chupava como uma profissional. Só que eu já era gordo e suficientemente feio. Essas coisas não aconteciam comigo. Até que uma noite, depois de uma festa, ela me deu uma chance. Estava bêbada. E aconteceu uma coisa estranha. Não consegui gozar. Eu estava lá, todo enfiado no meio daquelas pernas, e pensava, “Nossa, estou comendo Andrea Canivete”, mas não chegava a lugar algum. Tentei de tudo, mudamos de posição, eu suava feito um porco, mas Andrea disse, “Cara, desista!”. A vida é mesmo uma grande punheta. Passamos a maior parte dela nos preparando, nos aquecendo para o que estar por vir, colecionando ferramentas em formatos de sonhos, expectativas, especializações e promessas de amor, e, no fim da contas, nada disso serve para grande coisa, e você ainda acaba vendo tudo aquilo que você era escorrer lentamente pelo ralo. Não tenho conseguido segurar o blog. Na verdade, não venho escrevendo nada. Nem uma linha. Hoje, esse amigo cineasta ligou. Cobrava os diálogos que lhe prometi para seu curta. Um projeto interessante. Era minha chance de me ligar a algo que realmente valesse à pena. Não saí do lugar. Página em branco. O texto simplesmente não flui, não corre solto. Meus dias seguem – ou não seguem – da mesma forma. Tem essa coluna fudida que não me permite ficar sentado por muito tempo. Mas não consigo concluir os exames. Da última vez, não resisti à tortura da sala de espera e caí fora. Por que diabos toda clínica sintoniza a TV na Ana Maria Braga? A burocracia do plano de saúde também é violenta. Tudo é muito demorado, lento, perverso. Algo pior só nas ruas de Salvador. Já calculo uma hora para chegar a qualquer ponto da cidade. Parece uma corrida estúpida. Se um dia despertássemos todos transformados em baratas, talvez o trânsito fosse menos asqueroso. É a punheta da vida. Uma força que nos impede de seguir em frente, do dia correr macio. É aquela sensação de ter nosso tempo estrangulado por uma reunião de trabalho ridícula e desnecessária. Ou um cliente que vai e volta dezenas de vezes o mesmo layout, optando no fim pela primeira opção.  Mas tenha cuidado. A punheta da vida está em qualquer lugar. No trânsito, na TV, no Facebook, no telemarketing, na conta que você se esquece de pagar, no caixa, na fila do banco, no celular sem sinal, nos imbecis que apertam o botão errado para chamar o elevador, na página em branco ou num pote de biscoito que você não consegue abrir nem com a porra. São dez e pouca da noite. Abro minha caixa de emails, e tem lá uma mensagem do editor. Falava sobre metas, prazos, custos, algo assim. Parece que o livro não sai mais esse ano. Interessante saber disso ao mesmo tempo que percebo que o blog está morrendo. Lembrei de Andrea Canivete. Não tenho sono. Para estender a noite, resolvo abrir um site de sacanagem. Andrea Canivete, onde quer que esteja, ainda penso em você. Sua puta.

11.7.12

UTI

É o tempo escasso. É a falta de talento. Tem também essa coluna fudida que não me deixa ficar muito tempo sentado. Sei que não venho conseguindo escrever. Infelizmente, sinto que esse blog está agonizando. Vou tentar ainda alguma coisa, quem sabe. De qualquer forma, quem tiver interesse pode acompanhar a fanpage do Espalitando Dente.
Por lá, rolam alguns arrotos. A maioria de muito mau gosto, mas tem alguns bacanas.